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   Nilza Amaral Foto de Nilza Amaral

Nilza Amaral é professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e de Língua Inglesa, autora de sucessos como “O dia das lobas” e “O Florista”, e escreve nesta coluna mensalmente.



Retrato de uma paixão

            
A primeira vez que a vi foi a definitiva. A surpresa da descoberta. A imponência de seu porte. Ela, cantada em verso e prosa.A partir dessa descoberta a certeza de que ela teria que ser minha. Suas curvas macias me seduziram. Os brilhos de seu corpo cósmico me escravizaram. Nada no mundo poderia ser mais belo do que ela. Nada mais sedutor. Decidi que deveria possuí-la .Não agressivamente. Mas suavemente, aos poucos, conhecendo cada palmo de seu corpo, introduzindo-me, conhecendo suas melhores facetas, estudando-a. Fazendo com que ela me aceitasse apesar de meu jeito caipira tímido, de caboclo do interior, acostumado a amores mais singelos. Minha mente acumulou fantasias, mas eu pressentia que o objeto do meu desejo e da minha paixão era tão real como as minhas pernas que me conduziam. Talvez fosse a obsessão do caipira hipnotizado pelo deslumbramento, talvez.Se assim fosse a paixão cessaria assim que eu descobrisse a audácia de meu desejo. Comecei a pensar nos obstáculos. Talvez ela não me aceitasse, até me banisse pela minha pretensão. Afinal havia reis a seus pés. Personagens importantes vinham do mais distante para reverenciá-la. Eu era apenas o súdito ao pedestal de sua deusa implorando clemência. Um escravo a seus pés. Para meu próprio consolo sabia que a história confirmava a paixão de escravos pelas suas amas. Iniciei a minha faina pelos cantos mais iluminados de seu corpo. Descobri que ela era protegida pelo Cristo.Um ponto a meu favor.Eu também era um filho de Deus. Enveredei pelas trilhas de sua anatomia perfeita, sem falhas.Ou talvez, adrenalina à solta, eu não as percebesse.Se falhas houvessem seriam perdoadas. Tudo se perdoa numa deusa. Sua exuberância natural me fascinou.Quanto mais conhecia seus contornos mais a admirava e mais a desejava. Seus picos perfeitos me mostravam curvas alucinantes. A redondeza de suas ilhargas fortes me levava a paraísos inimagináveis. Aos poucos ela foi me aceitando. Não de graça. Não. Teria que merecê-la.Então comecei a trabalhar por ela. Acordar e perceber-me dentro dela me tonificava. O dia amanhecia, o sol resplandecia. Aos poucos meu jeito caipira foi se desfazendo e sendo substituído por hábitos mais refinados. Integrava-me às suas exigências. Meu amor não exigia recompensas, ao contrário, eu as oferecia. Mesmo que para ofertá-las desse o máximo de mim, trabalhando como gente grande, me aprimorando, freqüentando cursos, fazendo por merecer a sua aceitação. Louvava a sua exigência. E a defendia ardoroso. Um dia senti que ela me aceitava, me aprovava.Ela era parte de mim e eu lhe pertencia. E eu fui ficando. Ainda não era a posse definitiva.Mas o caminho estava sendo construído.Integrava-me.Deliciava-me. Nada me dava mais alegria do que me sentir protegido por ela.Os resíduos do meu passado desvaneceram-se.Um novo ser nascia para uma vida nova. Os amores do campo foram substituídos pela paixão do progresso. Aos poucos percebi,entretanto, que havia predadores ameaçando minha amada. Sabia, não por ela, que para mim era perfeita, mas por vozes no espaço que comentavam. Violentavam-na, achincalhavam-na, aproveitavam-se de sua beleza real e a dilapidavam. Comecei a perceber cicatrizes em seu corpo. Pedaços de carne arrancados de seu âmago. Atalhos rasgados em suas ilhargas. Então ela começou a mudar. A se tornar perigosa. A vingar-se dos estupradores. A nobreza que a visitava desaparecia aos poucos. A depressão instalou-se em meu coração. Sentia palpitações e medo. Não sabia como protegê-la. Reclamei às autoridades, fiz denúncias. Amantes mais antigos do que eu saíam às ruas pedindo justiça, exigindo a expulsão dos invasores de seu corpo.. Aos poucos fui percebendo que para conviver com a minha paixão teria que ser audacioso. Abandonar a fantasia e viver a realidade. Sem frustração, aceitando a minha deusa com suas qualidades e os seus defeitos. Descobri que as qualidades superavam as ameaças. E que eu a amava cada vez com mais intensidade, ávido de cercá- la de todos os cuidados e carinhos. Fundei associações de proteção, vigiava-a dia e noite. Sem muito alarde. Sem despertar sua desconfiança. Os predadores perceberam a reação. Aumentaram a violência, porém, outros me seguiram para assegurar a sua realeza. Hoje convivo em paz. A obsessão deu lugar à convicção de que há exigências a serem cumpridas para se amar. Minha amada será sempre a princesinha do mar. Minha e do mundo.Cantada, venerada.A capital do universo.Protegida pelo Cristo Redentor. E eu estarei aqui sempre. Para amá-la e defendê-la,desinteressado. Com a paixão dos lúcidos. Pela terra e pelo mar
Copyright Nilza Amaral © 2007
Todos os direitos reservados.

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Comentários dos leitores

Eis uma bela declaração de amor e de esperança! Também espero ansioso que este sonho se torne realidade e a violência seja estirpada, o mais breve possível, permitindo à Cidade Maravilhosa ocupar o lugar de destaque que ela merece.

Postado por Silvino em 29-08-2007


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