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Páscoa em Marte



					    
Jamais pensei que, mesmo vivendo há séculos em um outro planeta, viríamos um dia a comemorar um evento tão terrestre quanto a Páscoa. Só de pensar que a origem desta tradicional comemoração terrestre remonta aos longínquos tempos da escravidão dos judeus pelos egípcios, quando ocorreu a grande fuga para o deserto. Fato, também conhecido como Êxodo, que contou com a fantástica abertura do rio Nilo, que foi de vital importância para que os fugitivos pudessem perpetrar sua fuga e escapar das garras da escravidão. Olhando pela vigia de minha câmara de sobrevivência, imagino que tais eventos parecem não ter nenhum sentido para nós marcianos, seres miscigenados de todas as raças terrestres que, há quase cinco séculos, vivem em um lugar onde a água é um bem raro e que jamais seria um obstáculo para uma fuga, sabe-se lá de quem e para onde. Primeiro porque aqui todos nós vivemos de livre e espontânea vontade e segundo, porque não haveria para onde fugir, quem sabe para a Terra, Lua ou ainda, tremo só em pensar, para Vênus. A Terra é o berço natal de nossos antepassados mas, há muito, não sabemos se ainda suporta algum tipo de vida. Depois de ter sofrido um colapso total que extinguiu todos os seres vivos - animais, vegetais, uni e pluricelulares, fungos ou qualquer outra coisa que possa ter sido considerada como viva - de sua superfície, aquele planeta que, segundo nos ensinam na escola, foi o berço da humanidade, passou a ser uma esfera morta com um brilho azul-avermelhado, que marca o nosso céu e alimenta a imaginação dos mais românticos. A Lua, com seu pouco espaço disponível, virou um grande criadouro de pequenas aves, principalmente depois que descobriram que a pouca gravidade acelera o crescimento e multiplica a postura de ovos das codornas. Vênus, bem, prefiro nem pensar o que seria fugir para um planeta que mais se parece com a personificação do Inferno, com seus mais de 400 graus centígrados de temperatura ambiente. Isso para não falar na total falta de água. Depois de passados tantos séculos, a estranha idéia de comemorar a Páscoa aqui em Marte virou uma espécie de vontade popular. Quem sabe tudo isso seja fruto de um movimento da Liga de Comerciantes para que possam vender mais de seus curiosos cubos de cacau sintético, recheados de licor de amora venusiana ou então para que os criadores de codornas selenitas possam aumentar mais ainda o seu mercado. Sem falar na grande surpresa dos arenques criados no espaço, em gravidade zero, cuja carne macia e adocicada tem conquistado uma boa clientela nos restaurantes mais populares. Mas, deixemos o ceticismo de lado e vejamos o lado das crianças. Essas estão entusiasmadíssimas com a grande novidade. Afinal, a expectativa de um animal estranho trazer algo comestível para elas tem criado as maiores fantasias infantis. Muitas crianças planejam passar a noite em claro para ver os pequenos animais chegando para esconder suas guloseimas. Sob esse aspecto é algo muito positivo que, certamente, trará um pouco de alegria e imaginação a essas tristes crianças, criadas em sua maioria em cubículos com pouco espaço para brincar. Nesse ponto, eu posso me considerar uma pessoa muito feliz, pois tive uma estação espacial inteira para explorar quando criança. Meus pais, por serem exploradores avançados, criaram-me em uma estrutura gigantesca no meio do espaço. Posso afirmar com orgulho que fui uma criança muito feliz! Mas, agora, diante dessa grande novidade, sinto-me apreensivo e um tanto preocupado. Apreensivo com a chegada dessa estranha novidade, trazida por velhos historiadores que descobriram essa antiga tradição nos arquivos de uma velha astronave encontrada perdida no espaço. Preocupado porque temo em desapontar essas pobres crianças, no caso de suas expectativas não serem alcançadas. Mas, como a tão falada Páscoa será amanhã, não terei muito tempo para me ocupar com meus temores. - Você ainda está em seu escritório, meu bem? - uma comunicação de minha esposa interrompe meus pensamentos - Já passam das 32 horas e você ainda não veio jantar. As crianças estão famintas, mas fazem questão de sua presença. - Tudo bem, querida! Estou concluindo meu diário e estarei em casa em menos de uma hora. Peça às crianças para começarem com a salada e eu acabarei de jantar com todos vocês. Saio de minha câmara de sobrevivência, que uso como meu escritório pessoal e, depois de pegar um transporte coletivo, chego em minha casa - uma grande câmara de sobrevivência familiar. Meu status de administrador regional, o equivalente ao que os antigos terrestres chamavam de Prefeito, me permite algumas regalias. - Papai, Papai! - Elícia, minha filha, levanta-se correndo da mesa de jantar para me abraçar - Amanhã será a Páscoa! Mal posso esperar pela visita. - Acho isso tudo uma bobeira! - replica Arcthurus, meu filho adolescente - Isso é coisa de criança! - Crianças! - interfere Elenne, minha esposa - Vamos deixar o papai jantar calmamente. Depois do jantar poderemos conversar sobre amanhã. Um pouco contrariada, Elícia volta para a mesa e termina silenciosamente sua refeição. Mesmo uma saborosa sobremesa como o pudim de alcachofra venusiana não a mantém na mesa. A menina de 7 anos, sai correndo para a sala de estar e puxa com força meu braço, para que a acompanhe. Peço-lhe mais alguns minutos e depois vou para a sala, para lhe dar um pouco de atenção, pois logo serão 34 horas e ela terá que ir para a cama. - Papai, será que eu vou ganhar algum presente amanhã? Ainda não entendi como é que na Páscoa, todas as crianças receberão presentes de animais. Você pode me explicar isso? - Elícia, minha queridinha, - começo meu discurso, enquanto coço minha cabeça com a ponta do dedo indicador direito - essa é uma velha tradição, trazida de um outro planeta e que deverá alegrar muito as crianças. - Mas eu ainda não entendi como isso funciona. - É uma velha história que, - explico para minha filha - segundo consta nos velhos livros dos terráqueos, uma senhora bondosa resolveu agradar seus filhos, enfeitando ovos - um alimento muito comum no planeta Terra - e colocando-os em diversos locais na casa, para que as crianças os procurassem. Para aumentar a curiosidade, ela alegou que um coelho branco - um pequeno mamífero da Terra - havia espalhado esses ovos com o intuito de divertir as crianças. - Mas como esse coelho virá até nós, se estamos em outro planeta? - Bem, - busco uma saída honrosa diante de perguntas difíceis de responder - esse é um grande mistério que descobriremos amanhã. Mas, para isso, a senhorita deverá ir para a cama agora! - Tudo bem, papico! - diz ela de forma carinhosa - Boa noite e Bons sonhos! - Para você também, meu coraçãozinho! Minha mulher, aproveitando a deixa, senta-se ao meu lado e tenta ler meus pensamentos. - Fique tranqüilo! Vai dar tudo certo amanhã. No final, você verá que foi uma boa idéia! - Não sei não! Prefiro estar enganado, mas acho isso tudo uma grande loucura. Preocupo-me com uma possível decepção dessas pobres criancinhas. - Mas porque você está tão preocupado. Tudo foi planejado com muita antecedência e todos os riscos foram exaustivamente analisados. - Essa é a primeira vez que juntaremos todas as crianças do planeta em um mesmo lugar para que elas tenham uma surpresa, que nem mesmo eu estou certo do que será. - Confie um pouco mais naqueles que você designou para cuidar desse assunto. Lembre- se que eu estou à frente da equipe. - reforça Elenne, com um beijo em meu rosto - amanhã você terá uma grata surpresa. Vai dar tudo certo! * * * * * * * * * * * Exatamente às 15 horas da manhã seguinte, estamos todos reunidos no recém- inaugurado "Pavilhão Marciano", um lugar projetado para abrigar com muita segurança cerca de 120 mil pessoas. O local está ocupado pela metade, já que a população marciana anda em torno dos 73 mil habitantes. Um barulho ensurdecedor marca o início do evento, a gritaria de mais de 20 mil crianças em busca de suas guloseimas escondidas em todo o imenso pavilhão. Coloco meus protetores auriculares e deixo a coisa acontecer. Um pequeno calafrio percorre minha espinha, enquanto uma leve queimação toma conta de meu estômago. - Relaxe e acredite! - Elenne fala suavemente em meu ouvido, apertando sua mão em meu ombro - Vai dar tudo certo! A gritaria cresce e dificulta minha avaliação sobre o andamento da comemoração. Mas, em pouco tempo, vejo com alegria o resultado já antecipado por minha esposa. Um largo sorriso está estampado nas faces de todas as crianças que passam por mim. O maior deles é de Elícia. - Papai, - exclama ela, com suas mãozinhas cheias de guloseimas - veja só o que eu encontrei. Experimente um, é uma delícia! - Hummmm! - é só o que eu consigo dizer, depois de ter três cubos inseridos compulsoriamente em minha boca. - O que você achou? Quer mais? - pergunta minha filha, ainda maravilhada com os resultados de sua caçada. - Muito gostoso! - digo feliz e realmente surpreso com o paladar da guloseima - Fique com os outros, pois foram feitos para você. Depois que minha filha sai correndo em busca de mais guloseimas, juntamente com suas amiguinhas, posso conversar mais tranqüilamente com Ellene. - Eu só não consegui entender como vocês conseguiram convencer essas crianças que arenques espaciais haviam escondido cubos com licor para elas. Isso não faz nenhum sentido para mim! - Você precisa entender mais as crianças. Essa é a magia da Páscoa, meu bem! - respondeu Ellene, com uma piscadela de olho e um beijo. F I M
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Comentários dos leitores

Lembrei minha emoção procurando exatos 12 ovinhos de chocolate, miúdos, no meio das plantas. Você só transferiu as mesmas emoções para outro planeta. Como se diz, pais e filhos são iguais, só mudam de endereço.

Postado por lucia maria em 10-10-2012

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