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Carla



					    
Eu só me lembro de dois barulhos secos, e a minha mão ficar vermelha, logo em seguida, o meu pai cai ao chão, pedi para se levantar, mas ele estava morto. Hoje tenho dezoito anos, e dez já se passaram, estou nesta clínica psiquiátrica para fazer tratamento, ainda não consegui recuperar dos traumas acometidos na infância, o meu nome é Carla, e sou paciente do Dr. Mário Alves, por sinal um grande psicanalista, com ele estou conseguindo dar certos avanços, com esforço estou recuperando, estou cursando a oitava série, e finalmente acredito estar conseguindo aprender e controlar os meus instintos. Dei vários problemas na escola, minha mãe precisou conversar com quase todos os professores meus, sem falar com os diretores de escola. Ao entrar na sala do médico, comecei a me preparar para mais um dia de questionamentos e revelação de um passado, de certa forma, assustador, pois aconteceu quando era criança, e de forma violenta. Ao expor ao doutor as minhas lembranças, começava a chorar, e ele com toda calma, aos poucos foi me consolando e pedindo para falar sobre o meu passado. Lembrei da morte de meu pai, eram dois homens, cobravam dele o serviço não realizado e por isso o assassinaram, mas nunca entendi o motivo, e neste dia, onde faço dezoito anos, chegou o momento da revelação dos fatos. Aos poucos o psicanalista foi revelando, sabia da profissão dele, o meu pai era funcionário público, trabalhava na área contábil de uma cidade do Paraná, trabalhava na área da contabilidade da prefeitura e foi preciso acobertar um grande desfalque de dinheiro, este estava sendo desviado, na compra de veículos para a prefeitura, para cada comprado, a concessionária emitia uma nota de três, e isso tinha de passar pela contabilidade, mas Roberto, pai de Carla, ameaçou denunciar, e antes de fazer foi assassinado, a única testemunha era eu, mas não conseguia me lembrar dos rostos dos bandidos, e o crime estava sem solução, nunca tinham encontrado sequer um suspeito. Com a insistência e persistência do Dr. Alves, aos poucos as lembranças iam aparecendo, quase como mágica, mesmo assim era doloroso. Depois de um grande esforço, lembrei-me de um nome, pois antes de morrer, meu pai falou Elias, admirando-se pela presença desta pessoa, e mais admirado ficou o doutor, percebi isso, franziu a testa e olhou por cima dos óculos, e ainda perguntou se eu tinha certeza, e na verdade tinha, como ele estava a me ouvir, apenas foi registrando, após duas horas de conversa, agendou um novo retorno após quinze dias. Despedi-me e fui mais feliz para casa, pois o mistério estava se revelando. Ao chegar em casa toda contente, comentei com minha mãe o progresso, tinha lembrado o nome falado, era Elias, e quando minha mãe, Olga, ouviu isso, quase desmaiou, acudi-la, e perguntei o motivo deste transtorno, pois o médico também havia reagido de forma apreensiva, não quis me dizer nada, estava cansada e precisava relaxar, foi essa a desculpa dada, mas deu para perceber algo estranho, talvez fosse um grande amigo, mas não lembrava de ninguém com este nome, resolvi recorrer a minha grande amiga, Josefa, eterna confidente, foi minha amiga de infância, estudamos juntas, mas devido a bagunça, fiquei para trás, e hoje ela está cursando o último ano do Ensino Médio. Ao comentar o acontecido, também houve surpresa, aquietou-se, não quis falar quem era de fato, mesmo com grande insistência. Foram quinze dias de grande apreensão, como a minha melhor amiga não quis comentar nada, considerei ficar em silêncio, e na escola nada falei, esperei até o dia da consulta, e para meu espanto, ao entrar no consultório, estava presente o delegado de polícia, queria primeiro conversar, fazer um interrogatório não oficial, juntamente com o doutor, falei o nome lembrado e algumas características da pessoa, ela portava uma bengala e fumava charuto, era a principal lembrança, ao ouvir isso, o delegado disse não ter dúvidas, e iria conduzir o rumo da investigação para uma hipótese já pensada, ao mesmo tempo sem condições legais para serem apuradas. Com novos fatos, poderia reabrir o processo e ter condições de esclarecer os fatos. Sem entender nada, perguntei ao Delegado quem era esse homem, e ele olhando bem nos meus olhos, perguntou se não sabia, apenas balancei a cabeça negativamente, então respondeu-me, era o prefeito municipal na época, como perdeu as eleições, está sem cargo, portanto é mais fácil conduzir as investigações, principalmente pelo prefeito atual deste município ser da oposição. Acreditei estar finalmente chegando ao desfecho, assim poderei ter uma vida normal, ou quase.
Copyright Marcelo Torca © 2006
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Comentários dos leitores

Denunciar (ex-)autoridade...... Sei de uma história real - empresa vendeu certas máquinas, nota fiscal "10", só chegou "1": sob ameaça de morte, a moça teve que dizer que errou, escrevendo 10 em vez de 01.

Postado por lucia maria em 18-12-2012

muito bom!... Eu gosto muito quando o autor deixa que o leitor faça sua própria leitura.

Postado por Djalma Filho em 18-11-2007

Parabens pelo seu trabalho. Muito realista. Bem escrito.

Postado por Marizé em 15-05-2007

Parabéns! Trabalho interessante com um toque dum policial!

Postado por Niafna em 08-01-2007

O texto além de bom é atual. Parabéns!

Postado por Annacelia em 05-12-2006

Marcelo, saiu-se bem escrevendo com eu lírico feminino, parabéns. Toque de realismo. Profundo na psiquê humana. Eu só daria um pouco mais de vida ao último parágrafo.

Postado por Paulo em 18-10-2006

Díficil de comentar. Parece um desabafo diretamente ligado ao acontecimento e narrado como uma notícia resumida de jornal.

Postado por Goes em 14-08-2006

Este texto reflete a nossa realidade, onde ficção e fato se confundem com as manchetes dos jornais dos dias de hoje. Parabéns pelo trabalho, Marcelo!

Postado por Silvino em 01-08-2006

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