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Recepção a bordo



					    
Uma das experiências mais gratificantes da vida a bordo é a oportunidade de conhecer novos portos. Cada porto que se conhece tem o sabor de um livro novo, que se abre para ser degustado. Novas palavras, novos costumes, novas pessoas e muita coisa interessante para se fazer e conhecer. Um porto em país estrangeiro, é isso tudo, elevado ao quadrado, no mínimo! Tudo isso, sem falar nas histórias pitorescas, que passam a engordar o já volumoso "Livro de Casos e Lendas Navais". Esta é apenas mais uma delas..... O "Universidade" acabara de atracar em Estocolmo após uma dura viagem, na qual acontecera de tudo um pouco: uma forte tempestade, que durou dias seguidos; falha de alguns equipamentos vitais do navio; um princípio de incêndio, prontamente combatido pela bem adestrada tripulação; um falso alarme de alagamento, que levou toda a noite para ser identificado e, também, um "Postos de Combate Real" (estado de alerta para entrar em combate de verdade), anunciado erradamente por um dos muitos tripulantes em adestramento, que decidira saber para que servia um “botãozinho vermelho”, existente no Console do Comandante e, para isso, achou mais fácil apertá-lo, em vez de perguntar, ao oficial encarregado de seu adestramento, para que ele servia. Esses foram, digamos, os acontecimentos mais importantes, mas muitos outros também aconteceram, durante aqueles cansativos dez dias de mar. Mas, dentre estes, houve um que contou com a participação voluntária de todos os membros da tripulação: a preparação do navio para atracar. Mesmo muito cansada com a viagem extenuante, toda a tripulação estava animadíssima com a experiência que, para muitos, seria inédita. O Navio de Treinamento "Universidade Naval", mais conhecido como "Universidade", era um navio de treinamento, em que os Guardas-Marinha (Aspirantes a Oficial da Marinha) realizavam uma viagem de instrução, durante a qual eram visitados diversos países. Sua principal finalidade era dar aos futuros oficiais, através de adestramentos específicos e contínuos, as condições necessárias para habituarem-se ao mar. Longas travessias desenvolviam o espírito de companheirismo e solidariedade, fator indispensável para o trabalho em equipe no mar. A visita a diferentes portos em países diversos, davam a seus tripulantes o traquejo necessário para enfrentar as eventuais dificuldades que eles deparariam em seus futuros navios. Além disso, o "Universidade" era um navio de representação, que mostrava, em portos longínquos, a nossa bandeira, nossa capacidade de enfrentar adversidades, nossa tecnologia. Em suma, mostrava o nosso país. Naquela noite, haveria uma recepção a bordo, um dos muitos compromissos diplomáticos que um navio de representação deveria cumprir. Com isso, os cuidados com o navio deveriam ser maiores ainda. Mas toda a tripulação trabalhou de bom grado para que, mais uma vez, o "Universidade" brilhasse diante dos olhos de seus visitantes. Estocolmo era o primeiro porto estrangeiro que o navio visitava naquela viagem e, com isso, tudo deveria sair conforme havia sido exaustivamente planejado, meses antes da viagem ser iniciada. A tripulação fora repetidamente alertada quanto a essa tarefa e, consciente de suas obrigações, fazia todo o possível para que o Brasil fosse dignamente representado pelo "Universidade". Depois da atracação e da costumeira "baldeação" (lavagem, com água doce, de toda a parte externa do navio para tirar o sal acumulado durante a travessia), iniciou-se a montagem dos toldos, para dar um ar mais aconchegante ao navio. Cumprida essa etapa, colocou-se a iluminação de festa, foi ligado o equipamento de som, instalou-se um telão e todos os demais apetrechos que haviam sido designados para a festa. Fotos com lindas paisagens brasileiras foram espalhadas por todos os locais do navio, onde os convidados poderiam transitar. Amostras de alguns produtos brasileiros, de roupas típicas e folderes de indústrias brasileiras foram estrategicamente distribuídos para dar aos convidados a real extensão do que nosso país é capaz. A oportunidade deveria ser aproveitada, ao máximo, para divulgar nosso país e tudo de bom que ele possui e produz. Trabalhando de forma incansável, a tripulação fez corretamente a sua parte e, lá pelas seis da tarde, o "Universidade" estava "pronto para combate", isto é, preparado para a festa. Como a recepção estava prevista para iniciar às oito horas da noite, havia ainda um bom tempo para que todos relaxassem um pouco, tomassem um banho caprichado e colocassem seus uniformes de gala. Dez para as oito, todos estavam em seus postos, prontos para cumprirem seus papeis. Um grupo de seis Guardas-Marinha se destacava com seus brilhantes instrumentos, formando uma "jazz band", cuja missão era dar um fundo musical ao evento, com novos arranjos de grandes sucessos musicais de nosso país. Em seu pomposo uniforme de gala, firme no ponto mais alto da prancha de embarque, estava o Comandante do navio, pronto para receber, da forma mais cortez possível, cada um dos duzentos convidados do evento. Era uma tarefa tão cansativa quanto foram os preparativos mas, mesmo depois de dez dias de viagem, em que havia tido menos de quatro horas de sono diário, o oficial mais graduado do navio não poderia se furtar de sua obrigação. Era, ao mesmo tempo, uma grande honra e um grande fardo. Ossos do ofício! - convenceu-se. Passado um pouco mais de uma hora, após cento e oitenta e nove apertos de mão, o Comandante dirigiu-se ao local da recepção, onde fora cumprimentado efusivamente por muitos convidados, pelo esmêro da festa. O embaixador brasileiro na Suécia era o mais animado em seus elogios. - Este é o nosso Brasil! - disse ele, dando um tapinha no ombro do Comandante - Seu navio é uma real mostra do que nosso país tem de melhor. Essa festa está primorosa! - Divina! - complementou a esposa do diplomata - Há muito tempo, eu não via uma festa tão bem organizada. - Sentimo-nos muito honrados com esses cumprimentos. - respondeu de forma polida, o Comandante. - Desculpem-me! - interrompeu o Imediato (oficial mais graduado do navio, logo abaixo do Comandante), entregando um pequeno envelope fechado ao Comandante - Mas tenho uma mensagem urgente para o Senhor. - Oh! Espero que não seja nada grave! Com licença. - disse o Embaixador, enquanto se afastava com sua mulher, para dar condições ao Comandante de ler a mensagem e discuti- la com seu Imediato. - Imediato, - perguntou o Comandante, surpreso e curioso - do que se trata? - Comandante, todos nós sabemos o quão cansado o senhor está, após essa dura travessia, na qual o senhor pouco dormiu. - explicou o Imediato - Essa festa deverá durar, pelo menos mais umas quatro horas. Permita-me sugerir que o senhor saia para “resolver esse problema” e se dirija para a sua câmara e fique por lá, por uma ou duas horas, para descansar um pouco. - Excelente idéia, Imediato! Afinal, já falei com todas as autoridades presentes e acho que poderei ficar fora do ar por um tempo. Muito boa essa sua sugestão! O Comandante saiu do local da festa fazendo “cara de apreensão”, como se estivesse indo resolver um problema muito sério. Passadas quase duas horas, o Comandante já estava um pouco mais refeito e preparava-se para retornar à festa, quando... - Toc-toc! - o Imediato bateu à porta da câmara do Comandante, acompanhado de uma bela jovem, cuja fisionomia deixava claro, para qualquer um que a visse, que se tratava de uma típica cidadã sueca. - Senhor! - disse ele - Desculpe-me, mas essa jovem insistiu em falar com o senhor! Ela gostaria muito de dizer-lhe, EM PORTUGUÊS, algumas palavras sobre nossa recepção. - Excelente! - respondeu o Comandante, com um ar, ao mesmo tempo, de surpresa e de satisfação. Aquela era uma situação muito comum nestas ocasiões, quando um convidado ou convidada fazia questão de dirigir, ao Comandante do navio, algumas belas palavras para demonstrar sua satisfação pelo esmero com que fora organizada a festa. Coisas desse tipo "massageiam o ego"! - pensou o Comandante, que gostava muito de ouvir um elogio, de vez em quando - Dito na minha própria língua, por uma estrangeira, é o "Nirvana"! - Boa noite, senhorita .... - Stevenson! Eu me chamarrr Karin Stevenson! - disse a jovem, com seu sotaque carregado, esboçando um lindo sorriso. - Em que posso lhe ser útil, Srta. Stevenson? - perguntou o oficial. - Há quase um ano venho estudando o porrrtuguêsss. - começou Karin - Hoje, durrrante a festa, eu tive a oporrrtunidade de conversar com um dos Guarrrdasss-Marrrinha de seu navio e acabei descobrrrindo que há grandes diferrrenças entre o porrrtuguêsss falado no Brrrasil e o porrrtuguêsss falado em Porrrtugal, que é ensinado em meu Univerrrsidade. - Ah! Sim. - disse o Comandante, contente com a observação. - Nossas expressões idiomáticas são bem diferentes das utilizadas em Portugal! - Porrr issso messsmo, eu fazerrr quessstão de agrrradecerrr sua hossspitalidade em porrrtuguêsss do Brrrasil! - Fique à vontade! - disse o Comandante, preparando-se psicologicamente para ouvir algumas belas palavras de elogio - Como costumamos dizer no Brasil, "sou todo ouvidos"! - Senhorrr Comandante, sua festa está uma grande...como era mesmo?...Ah! porrrcarrria! - Obrigado! - disse o Comandante, surpreso com o que acabara de ouvir, mas acreditando que a jovem se equivocara com as palavras. - Seu navio estarrr um....lixo! - disse a jovem com um grande sorriso, convencida de que acabara de fazer um grande elogio. - Hummm! - o Comandante fez um grande esforço para disfarçar sua irritação, ao ouvir uma ofensa ao seu navio. - Ahn! É muita gentileza de sua parte! Vejo que esse nosso Guarda-Marinha lhe ensinou muito bem como dizer palavras de elogio em Português do Brasil. - Sim! Ele me explicou muito bem que essasss palavrasss definem melhorrr a importância dos coisas parrra osss brrasileirrros. Ele ainda me disse que a senhorrr ficarrria muito....ãnnn, como se diz....Ah, sim! A senhorrr ficarrria muito puto com esssa demonstrrração de carrrinho da parrrte de um pesssoa extrrrangeirra! - É verdade! - disse o oficial, fazendo um esforço hercúleo para não demonstrar o sentimento de ódio, que automaticamente lhe aflorara. Tudo o que ele mais desejava, naquele momento, era por as mãos no tal Guarda-Marinha - Você teve um excelente professor! Fico muito feliz de saber que um de meus homens contribuiu para melhorar seus conhecimentos da nossa língua pátria! - Obrrrigada! Ele messsmo me avisou que a senhorrr reagirria dessa forma, pois como ele messsmo me assegurrrou, a senhorrr ser um grande......merrrda! O Comandante sentiu o sangue invadir-lhe a face. Fechou os olhos por um breve instante e, lembrando-se das aulas de Yoga, que costumava participar com sua esposa, inspirou profundamente umas três vezes, ao mesmo tempo em que contava de 1 a 1000. Mesmo nos momentos mais tensos, em seus mais de trinta anos de carreira, jamais fora submetido a uma pressão psicológica igual àquela. Por um breve momento de divagação, o Comandante imaginou-se vestido de pirata, mandando sua tripulação ferver em óleo o tal Guarda-Marinha e depois atirá-lo aos tubarões. Mas, logo em seguida, voltou à realidade. Felizmente, ele conseguiu se recompor e, novamente com o controle de suas ações, falou: - Senhorita Stevenson, eu gostaria muito de parabenizar pessoalmente esse Guarda- Marinha, - o Comandante deu uma pausa, perguntando-se se estava sendo convincente com suas palavras - por ele ter conseguido, em tão pouco tempo, explicar-lhe como fazer verdadeiros elogios, que só nós brasileiros podemos compreender. A senhorita poderia me dar o nome dele, ou quem sabe, levar-me até ele agora? Eu já estava mesmo retornando para a festa. - Senhorrr Comandante, eu terria um imensa prazerrr de levá-lo até esse meu “professsorrr”, mas ele prrecisou ausentarrr-se de borrrdo parrra alguma atividade, que eu não consegui comprrenderrr. Mas, eu saberr seu nome! - Ótimo! - o Comandante esfregou as mãos - E como ele se chama? - Erra um nome diferrente dos que eu já conhecia, parrreceu-me serrr meio orrriental. Foi tão difícil entenderrr que eu pedirrr parrra ele soletrarrr parrra mim. Aqui estarr o nome dele escrrito nesste papel. A jovem sueca estendeu sua mão e entregou o papel com o nome do Guarda-Marinha ao Comandante, que o pegou rapidamente, já imaginando quantos dias de bailéu (cadeia) daria ao engraçadinho. - Cadê meus óculos de leitura? - o Comandante perguntou aflito para si mesmo, enquanto pegava seus óculos em uma gaveta de sua escrivaninha - A letra está muito pequena e, sem eles, não consigo distinguir o que está escrito. Ao colocar seus óculos de leitura o Comandante pegou o bilhete, onde estava escrito: - EU NUM SÔ TRÔXA! (Do livro "MEMÓRIAS DE UM VELHO CAPITÃO" - em elaboração pelo autor)
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Comentários dos leitores

Minha avó comenta sempre de vizinhos que tinham loja perto do porto do Rio de Janeiro, e ensinavam "certas palavras" aos marinheiros (tadinhos!) que vinham comprar lembrancinhas brasileiras. Adorei esse texto!

Postado por lucia maria em 03-10-2012

Muito bom mesmo! A falsa sueca é trambiqueira. Parabéns pelo envolvente texto.

Postado por Annacelia em 10-09-2008

Um trabalho muito bem descrito.

Postado por Marizé em 02-08-2008

Um trabalho muito bem descrito.

Postado por Marizé em 02-08-2008

e muito bom este texto ele da ideia de uma historia real e faz a sentir dentro dela... engraçado mesmo...

Postado por nadirvilela em 27-10-2006

Conto bastante engraçado e escrito de tal forma que nos dá a verdadeira impressão do ocorrido.

Postado por Hercules em 08-08-2006

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