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EM NOME DO PAI

por Kinho Vaz


					    
“Covarde! O que houve? Aquele cara batendo na criança. Você não tem nada com isso. Não gosto de ver, me revolta. Deve ser o pai. E daí? Calma, não fui eu quem bateu na criança. Desculpe. Tudo bem, mas por que isso agora? Um dia eu te conto, vamos sair daqui...” Aqueles tempos me voltam aos pedaços. Um pouco aqui, outro ali. Vão se compondo como um jogo de blocos lógicos. Se encaixando e dando forma aos fatos vividos. Me parecem sonhos ruins. Bons de esquecer. Ou imaginar que nunca existiram. Mas o frio no estômago e o arrepio de raiva que me causam, confirmam a sua existência. Uma triste realidade. A certeza de uma vida jogada fora, por nada. Disponível como a de uma cobaia em laboratório. Destruída pelas mãos do próprio criador. Monstro escondido nas convenções sociais. Oculto na fachada da família. Preservado na dissimulação do seu caráter repugnante. Um carrasco perverso que o destino, distraído, permitiu ser chamado de pai. Tolfo era filho temporão. Mãe professora. Pai policial rodoviário. Uma família com certas condições. Fato raro na minha infância. Tinham carro, telefone e televisão. Moravam em casa própria. Simples, mas completa. Ele tinha mais dois irmãos. Já criados, levando suas próprias vidas. Pouco se viam. Tolfo parecia com a mãe. Riso solto. Jeito dócil. Fácil de ser amigo. Gostava de jogar bola. Era bom nisso. Sonhava ser igual ao Zico e jogar no Flamengo. Uma paixão. Para outras brincadeiras não ligava. Só fazia rir. Participava pela farra. Pela alegria de estar junto da turma. Precisava de amigos, como todo menino expansivo. Adolescente explodindo com todas as possibilidades dos seus quinze anos. Poderia ter dado certo. No futebol ou em qualquer outra profissão estudada. Tinha cabeça para isso. Mas o seu destino foi torcido. Moldado pela intolerância. Desde o início. Veio ao mundo porque o aborto poria em risco a vida da mãe. Só por isso. Já nasceu ponto de discórdia. Cresceu assim também. Os mimos e cuidados da mãe alteravam os humores do pai. Misto de ciúme e disputa. Ódio e intolerância. Insensatez de um homem que gostava da brutalidade. Que não aceitava ser contradito, nem desfeito. Que adorava a arrogância. Que olhava tudo de cima. Um militar nos anos militares. Gostava de ser visto chegando no carro da polícia. Alardeava a sua presença. Tocava a sirene na esquina. Descia fazendo poses com seu ar autoritário. Farda cáqui, quepe, óculos escuros, bigodinho canalha e um repugnante palito mordiscado no canto da boca. Quando chegava, todos deveriam estar em casa. Hábito da ordem unida. A mãe abria a porta e recebia o quepe. Tolfo a seguia, tomando a benção. Beijar a mão sem olhar nos olhos. Não fosse assim e o céu desabava. O seu prazer era ouvir os sucessos da Jovem Guarda. E maltratar o filho caçula. Castigava por nada. Gostava disso. Se não houvesse motivo, criava. Punia sem medir forças. Batia no menino como se bate num homem. Mão fechada na boca. Mão aberta na orelha. Chutava com o peso do coturno. Espancava com o cinto grosso. Tatuava o corpo imberbe com a fivela larga e pesada. Última moda na época. Roberto e Erasmo Carlos estavam lá. Cantavam alto. Tentavam esconder os gritos de desespero. A voz arfante implorando. Suplicante. Os gemidos soluçados. Meu Deus, aqueles gemidos! Aumentava o som da vitrola. Queria impedir que as pessoas lá fora soubessem. Impossível. A certeza amplifica a angústia. A tortura grita forte em quem sabe, mas não pode fazer nada. E a gente sabia que o couro cantava. Descia assoviando no ar. Lascando a pela curtida pelo ódio. Fazendo novas feridas nas cicatrizes fechadas. Tantas surras! Quelóides dilacerados. Monumentos à boçalidade. Ele ouvia o Tremendão e se sentia o máximo. “E que tudo mais vá pro inferno”. A mãe corria, fechando portas e janelas. Abafava tudo. Não podia se meter. Tinha medo de apanhar também. Fechava os olhos e rezava para ele não matar o menino. Esperava passar a sanha do monstro e catava os despojos do filho. Tentava recompor a dignidade em formação. Colar o caráter espatifado pelo furor paterno. Dizia que o pai era bom, só estava nervoso. Que ele não devia provocar. Que um dia ele entenderia. E abraçava o menino. Colocava no colo. Lambia suas feridas. Marcas de garras assassinas. Por que ele maltratava o filho assim ninguém sabia. Talvez gostasse da covardia. Talvez torturasse no quartel, mas não o bastante. Talvez fosse sádico e aprimorasse no filho suas técnicas de sofrimento. Talvez fosse um pervertido amparado pela lei. Ninguém nunca soube. Sabemos apenas o que ele fez de Tolfo. Cresceu sem conhecer a ponderação. Levou uma vida extrema, sem meios termos. Saia dos carinhos da mãe, direto para as porradas do pai. Enquanto pode, ocultou no corpo as marcas da violência sofrida. Até que um dia desistiu. Passou a exibir os lanhos e hematomas com deboche. “Este lábio partido? Foi um beijo do meu pai”. “Roxo nas costas? Ah! Foi meu pai me acordando com carinho”. Ficou assim. Fazia humor da própria tragédia. Mas nunca deixou de sorrir com ternura. Nunca deixou de ser amigo. Até quando o tempo trouxe a morte e ela levou o meu pai. O abraço de Tolfo foi sincero. Seus pêsames um lamento. “Por que não foi o meu?”. Sempre nos viu recebendo conselhos. Alertas contra os perigos da vida. Exemplos do certo e do errado. Os segredos de andar sozinho. Talvez sentisse uma ponta de inveja. Ou pena de si mesmo. Não tinha quem lhe mostrasse os caminhos. Quem lhe contasse os segredos. E nunca foi fácil crescer sem parâmetros. Acabou indefeso. Aberto ao desconhecido. A mercê de quem lhe desse atenção. Nós sempre tentamos passar para ele o que aprendíamos em casa. Mas não era a mesma coisa. Faltava um elemento na vida de Tolfo. Faltava a engrenagem que permitisse ao motor dos tempos conduzi-lo a um futuro decente. Faltava a segurança do pai. Mas um pai de verdade. Um pai que faz falta. Não o algoz que o transformou num caso perdido. Não o gênio da maldade que nunca concedeu desejos. Não o artesão do inferno que retorceu o seu destino desde o tenro barro da infância. Não o assassino que o empurrou para o abismo do vício. Para a fuga fácil das drogas. Para as embriagantes promessas do álcool. Para as aventuras dos pequenos furtos. Para o perigo das emoções mais fortes. Para as mãos dos traficantes. Para ter motivo de não gostar do filho.
Copyright Kinho Vaz © 2006
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Comentários dos leitores

Previ desde o início do conto o caminho dele plos descaminhos.

Postado por lucia maria em 14-10-2012

ADOREI SEU TEXTO. A HISTÓRIA NOS ENVOLVE E AO FIM NOS LEVA À REFLEXÃO. PARABÉNS!

Postado por Erica Sady em 21-07-2009

O seu texto comoveu-me! Quantas crianças vivem dramas nesta vida! A sua descrição é um retrato real da sociedade em que vivemos e tão maltrata uma criança inocente.

Postado por Marizé em 11-08-2008

Muito bom seu texto amigo...voce colocou nele a vida de muitas criança que vive esta esta mesma estória...infelizmente eu mesma conheco algumas que passam por isso...

Postado por nadirvilela em 21-03-2007

Parabéns!

Postado por Marcelo Torca em 06-01-2007

Olá, Kinho! Seu texto é muito bonito e comovente. Parabéns!

Postado por Annacelia em 12-11-2006

Alô, Kinho Vaz! Muito bom, como todos os outros. Fica a sugestão de dividir mais os diálogos, para melhorar a compreensão. Usar mais parágrafos também tornaria o texto mais atraente. Bons textos!

Postado por Silvino em 14-10-2006

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