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BESTIÁRIO

por Kinho Vaz


					    
A pele que curte a vida / Seca a ferida / Cobre o mortal Vivente que dobra a sina / De pouco atina / ser animal Caminha nas duas patas / Virando latas / Deitando o chão Sobeja a fartura alheia / Nessa cadeia de perdição No mundo que vira as costas / Na vida que fere em postas No dia que amanhece sem um sinal Um guizo de cascavel / Um eclipse no céu Ou algo que anuncie o seu final No tempo desse planeta / Bendita teta / É o que tiver Repasto de morte lenta / Que a fome assenta / Como puder O braço erguido pede / Mas ninguém cede / Qualquer vintém Da guimba tira a fumaça / Traga a desgraça / De mais alguém Vagueia sem rumo certo / Nesse deserto / De multidão Espanta a quem procura / caricatura de assombração Com lábios que ninguém lê / Com faces que ninguém vê Nas ruas que seguem cegas / A tanto mal É gente virando bicho / Vivendo só por capricho No limbo da existência desigual No canto de cada esquina / Cumprindo sina / É fácil ver Viventes de toda sorte / Esperando a morte parecer Destinos tão mutilados / Desintegrados / Na contramão Figuras do imaginário / De um bestiário de aberração No mundo que vira as costas / Na vida que fere em postas No dia que amanhece sem um sinal Um guizo de cascavel / Um eclipse no céu Ou algo que anuncie o seu final - I - A noite foi fria. O calor dos corpos não foi suficiente para manter o grupo aquecido. Trapos de pano, jornais sujos e mesmo a crosta de sujeira, segunda pele, não bastaram. A criança chorou por muito tempo até adormecer, cansada de chamar sem reposta pelo peito seco da mãe. O homem desperta primeiro. A boca áspera de tabaco e cachaça. Resmunga alguma coisa sem nexo, olha ao redor e confere o seu tesouro: latas amassadas e pedaços de papelão, empilhados numa tosca carroça feita com uma carcaça de geladeira, madeiras e rodas de rolimã. Lixo sobre lixo. Ao longo da calçada, sob a larga marquise, diversos grupos iguais permanecem dormindo. O homem faz ranger o corpo moído e levanta. Cambaleia atento ao chão, em busca de alguma ponta de cigarro. Recolhe algumas. Acende a maior, marcada pelo batom de alguma mulher. Puxa o resto de fumo até sentir a ponta dos dedos queimando. Traga a fumaça com prazer e pensa nos lábios de onde veio aquela tinta vermelha. Leva a guimba até o nariz, procurando algum vestígio de perfume. Fecha os olhos para apurar o olfato, mas o cheiro forte do seu corpo não permite. Fica olhando o cilindro branco marcado de batom e tenta encaixar a marca nos seus lábios. Demora-se na simulação do beijo na boca que imagina entregue. Projeta uma das tantas figuras femininas que cruzam os seus dias, fazendo cara de nojo. Abre os olhos e guarda a ponta de cigarro no bolso da bermuda rota. Sorri satisfeito, quase vingativo. Aquela boca ele poderia beijar quando bem entendesse. Volta-se para o canto onde a mulher e a criança ainda dormem. Pensou que sozinho teria mais chances de se virar. Ainda se lamenta por ter aceito a companhia da mulher e da criança que não eram suas. Lembrou da noite passada, quando acordou assustado com a presença dos dois deitados ao seu lado. Ela sorriu e pediu pra ficar. Ele sacudiu a cabeça negando. Ela afastou a criança e sumiu debaixo dos trapos, usando os artifícios do corpo para convencê-lo. O muito tempo sem experimentar prazer derrubou a sua cerca e as duas criaturas invadiram o seu espaço. Ela podia ficar com a criança, mas teria que se virar também. Dele só teriam proteção e um canto à noite, mais nada. Sacudiu a cabeça pensando na besteira que fez. Mas o dia já começava a clarear e era preciso vender as tralhas catadas para conseguir algum dinheiro. Recolheu seus trapos de dormir e começou a empurrar a carroça, com medo que o barulho dos rolimãs girando no calçamento de pedras portuguesas os despertasse. A criança choramingou e a mulher pulou do meio dos trapos, assustada. Não trocaram uma palavra. Ele acenou para que ela ficasse deitada. Ela obedeceu mas manteve os olhos arregalados na direção do homem que se afastava com a sua geringonça. Temeu que ele não voltasse, que fosse procurar pouso em outro canto qualquer. Durante o dia era mais fácil se safar com a criança. Mas a noite era perigosa sem uma companhia. Não conheceu outra vida que não essa. Nasceu na rua e ali cresceu. Não se lembra de uma mãe ou de um pai. Quando se deu por gente, já andava sozinha por aí aprendendo o quanto vale a ser inocente. Gostava de sentar nas escadarias da estação do Metrô, para sentir o cheiro bom das pessoas que passavam limpas e bonitas. Às vezes forçava o encontro do seu corpo com o delas. Um carinho sempre rechaçado com medo e repugnância. Não entendia porque os homens nunca sorriam e as mulheres sempre evitavam esse contato, abraçando suas bolsas junto ao colo. Mesmo assim voltava todos os dias, até que puseram grandes na estação e guardas para impedir presenças como a sua. Então compreendeu que o seu mundo não era o mesmo daquelas pessoas que subiam as escadas. Um dia andava pedindo comida numa loja de sanduíches quando um homem de farda pediu que ela saísse. Quando estavam na rua ele perguntou se ela queria ganhar um daqueles, apontando para um imenso hambúrguer ilustrando a propaganda da loja. Ela sorriu dizendo que sim. Então ele a levou por uma entrada lateral até o depósito e a fez esperar. Voltou com uma bandeja repleta de cheiros, gostos e promessas. Criança que era, não percebeu a armadilha. Nem viu maldade no fato do homem tirar as calças, enquanto ela comia, mostrando a sua tripa de carne. Apenas agarrava o sanduíche com força, para ter certeza de que ele não sairia de suas mãos, dando grandes mordidas e engolindo tudo quase sem mastigar. Quando terminou de comer ele se aproximou e começou a ensinar para ela a forma de conseguir comida todos os dias. As dores que sentiu não foram poucas. Mas para quem nunca conheceu carinho, aquilo foi percebido como tal. Por isso ela voltou sempre, para saciar a sua fome e a fome do homem de farda. Até o dia em que chegou a sua primeira menstruação. Ao reparar suas pernas sujas de sangue, ele retirou a comida de suas mãos, pegou seu braço com brutalidade e a proibiu de voltar. - II - O homem agora empurra a carroça vazia. Vendeu o que tinha catado no dia anterior pela miséria de sempre. A dúvida de todo dia voltou. Se gastar o dinheiro em comida, fica sem nada. Se não conseguir catar nada hoje, não come amanhã. Resolve buscar o lixo das lanchonetes, onde sempre existem sobejos que disfarçam o estômago. Pensa na mulher com a criança. Será que vão comer? Irrita-se com a preocupação. Danem-se os dois. Melhor será se não os ver mais. A mulher é matreira, sabe usar o corpo. Se ficar vai acabar embuchando dele. Ela que se vire por lá e nem pense querer dividir o que ele conseguir. Já se viraram até hoje, que continuem se virando. Ele não fez isso a vida inteira? Já passou por perrengues bem piores quando mais novo. No tempo de moleque roubava bolsas de madames. Naquela época ainda tinha pernas pra correr. Levava muita porrada, todas as vezes que era pego. Apanhava enquanto a polícia não chegava e continuava apanhando quando ela aparecia. Depois o metiam no camburão, faziam gato e sapato, juravam de morte e soltavam mais na frente. Conhece bem o gosto de um cano de revólver na boca. Os dentes trincando o ferro, enquanto o tambor gira com a única bala. O suor descendo frio pelo rosto e entrando pelos olhos apertados de pavor. O gatilho disparado em falso, detonando risos algozes. A sentença proferida a seco: “hoje você está com sorte, vai viver”. Depois o alívio da morte, que faz desfalecer, que deixa os músculos tão frouxos que eles não conseguem prender nem a urina nem as fezes. Ele nunca gostou de viver em bandos. Sempre perambulou sozinho pelo centro da cidade, sobrevivendo como podia. À noite buscava um abrigo qualquer para deixar a euforia da cola de sapateiro embalar o seu sono. Teve que mudar de conduta depois de sofrer uma maldade dessas que só os homens de bem são capazes de cometer. Era uma noite abafada de verão. Dormia na escadaria do convento de Santo Antonio, no Largo da Carioca. Sentiu a sensação do afogamento, a invasão de uma água quente e salgada em seus pulmões. Despertou assustado e percebeu que um grupo de jovens de boa aparência urinava em sua boca, que dormia aberta por hábito. Tentou fugir, mas foi chutado e pisoteado pelo grupo até perder os sentidos. Quando voltou a si estava moído de pancada. Sua boca tinha gosto de mijo e sangue, e o seu rosto estava tatuado com as marcas dos solados de borracha importada. Desse dia em diante passou a escolher melhor o seu pouso. A princípio dormia nos telhados das bancas de jornais ou trepado nas marquises dos prédios, mas continuava se sentindo vulnerável. Então percebeu porque gente igual a ele sentia a necessidade de dormir amontoada e passou a fazer o mesmo. Enquanto revira o seu passado, o homem cavuca o lixo da lanchonete. Parecia que as imagens da sua mente estavam saindo daquele latão de vapores azedos. Separou os restos de comida que pareciam ainda bons e fez a primeira refeição do dia. Estava com sorte. Aquela economia renderia um tanto de cachaça para puxar o sono no final do dia. - III - A mulher continuou no meio dos trapos esperando o dia clarear de vez. Olhou para a criança e pensou no estorvo que ela representava. Podia simplesmente abandoná-la e repetir a sua própria história. Talvez fizesse isso, mas não agora. Mal ou bem a criança ajudava a conseguir algum trocado nos sinais de trânsito ou nas esquinas. Embora a maioria dos passantes não tivesse olhos para o chão, sempre havia quem largasse uma moeda para experimentar um sentimento de benevolência e caridade, simulando preocupação. Portanto, a criança ficaria pela utilidade imediata. Mexeu no saco de cacarecos e retirou uma lata vazia, um pedaço de pão velho e uma colher de plástico. Pôs o pão no fundo da lata e despejou sobre ele a água guardada numa garrafa descartável de refrigerante. Depois foi aliviar o intestino e a bexiga em um canteiro de plantas secas da avenida. Na volta, a criança desperta já choramingava. Retomou a lata, espremeu o pão embebido na água com as mãos, comeu a pasta insossa e serviu o caldo ralo às colheradas para a criança. A pequena criatura sorveu o desjejum com sofreguidão e sem cara feia. Por instinto, talvez, já havia aprendido que tudo o que lhe viesse à boca era pra ser engolido sem rejeição. Quem precisa comer o que der, sabe que a fome anula na língua a função do paladar. Moscas, em grande número, começaram a atormentar a criança. Serviram para lembrar a mulher de limpar as suas necessidades. Com enfado, desamarrou o pano pesado de urina e fezes. Usou um pouco da água que tinha para limpar as partes da criança. Com o restante, lavou o pedaço de pano usado como fralda. O retalho encardido foi torcido e reposto, fétido e ainda úmido, sobre o pequeno ventre tomado pelas feridas de sucessivas assaduras. Os grupos à volta começam a despertar e preparam-se para abandonar seus lugares. A mulher recolheu seus pertences, pegou a criança e seguiu na direção da Candelária. A missa das sete horas poderia resultar em algum dinheiro. Vestiu sua cara de sofrimento e entrou pedinte pelo átrio da catedral. Aproxima-se das pessoas contritas em seus bancos de orações, estendendo a mão em forma de súplica. As senhoras bem apessoadas se assustam com a presença, como quem se assusta com uma assombração. Levantam, mudam de banco, pedem providências. Será que não podem exercer sua fé em paz? A resposta chega na prepotência do sacristão, que vem brandindo uma vassoura, impedindo que aquela mulher com a criança no colo continue maculando o seu campo santo. Toca a criatura com sua cria na direção da porta, como quem espanta os cachorros vadios que se metem aonde não são chamados. A mulher protesta, diz que não está fazendo nada, que veio apenas rezar pela criança. O sacristão é branco, frio e duro como as imagens de mármore que imitam os santos. Que ela rezasse lá fora, dentro não podia ficar. Sem argumentos, a mulher apela para o escárnio. Xinga, faz gestos feios, grita. A acústica da nave, coberta de afrescos sacros, reverbera e amplifica a sua revolta. As senhoras ficam mortificadas pela falta de respeito. O sacristão se limita a erguer o crucifixo de madeira que traz no peito na direção da mulher, como se estivesse diante do próprio demônio. Ela sai, vencida pelo bem dos homens. Vai até calçada e enche a sua garrafa com a água de uma poça suja e lodosa. Volta e berra um palavrão, chamando a atenção para que o sacristão e as beatas a vejam despejando o líquido enegrecido na pia de água benta. Depois foge, experimentando a doce euforia da vingança. - IV - O dia vai dando vez a noite. O centro da cidade vai perdendo aos poucos a agitação das ruas. As calçadas começam novamente a receber seus hóspedes para o miserável pernoite. Cada um deles cumpriu a sua maratona pelo limbo da existência desigual. Uns com mais sorte, outros com nenhuma. Começam a preparar seus leitos para o sono que nunca é tranqüilo. O homem chega ao seu canto de sempre e estaciona a sua carroça. Confere a carga e a percebe menor que a de ontem. Cada dia há menos o que catar. Cada dia há mais gente catando. Estica seus trapos para receber a carcaça dolorida. Busca no bolso a guimba com a marca de batom. Tira a rolha da garrafa de cachaça e toma um gole farto. Depois beija a marca de batom da guimba imaginando uma vida que nunca vai ter. Percebe que a mulher se aproxima com a criança. Chega calada e assim permanece. Arruma seus panos junto aos dele e se instala com a criança, que já briga com o sono. Ele não sente vontade de recusar a companhia. Entende que ela cumpriu o trato e só apareceu para dormir na proteção de alguém. Estende a garrafa de cachaça na sua direção. Ela aceita e sorve um pouco de fantasia, repousando a cabeça no ombro dele. O homem olha longamente para a guimba com a marca de batom antes de jogá-la fora. Depois ajusta o seu corpo ao da mulher, para esperar o sono aparecer. Os dois relaxam e aproveitam curto espaço de tempo em que podem contar com alguém. Kinho Vaz©
Copyright Kinho Vaz © 2006
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Comentários dos leitores

Comovente e triste, em especial no mês de dezembro.

Postado por lucia maria em 15-12-2012

Este trabalho está muito bem elaborado. O poema é como uma introdução ao texto que se segue. Não sei se te baseaste em factos reais, mas se o foi estão muito bem escritos e dão-nos uma visibilidade bastante nítida.

Postado por Niafna em 11-01-2007

Parabéns!

Postado por Marcelo Torca em 06-01-2007

DESCRIÇÃO PERFEITA DA SOBREVIDA DIÁRIA DO TIPO-MISERÁVEL EM PAUTA... COM DESFECHO COMOVENTE SEM SER PIEGAS. PARABÉNS.

Postado por ARTÔ em 15-10-2006

Alô, Kinho! Achei fantástico esse conto. Por um instante, transportei-me para junto desses menos afortunados. Sugiro apenas, dividir o texto em mais parágrafos. Parabéns!

Postado por Silvino em 13-10-2006

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