Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio BAC

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de Marizé >


FALSO JURAMENTO



					    
O sino da velha igreja matriz tocava diferente. Os fiéis seguiam para a missa mais ordeiros. As mulheres passavam com as contas enroladas na mão e de véus escuros arrendados, a tapar-lhes o rosto. O adro da igreja estava enfeitado com luzes e bandeiras de variadas cores, com paus enfeitados de murta e alecrim, formando arcos bem decorados. Ao fundo dois coretos para as bandas de música, improvisados no recinto e ornados de palmeiras. Tinha havido no dia anterior, um arraial da festa da Santa Padroeira dos pescadores daquela vila. No outro canto do largo da igreja, estava o bazar, que as catequistas se encarregavam de fazer. Algumas delas com as cestinhas nas mãos, ainda rifavam os restos das oferendas que tinham sobrado e uns rapazes desenrolavam papelinhos das rifas que deitavam para o chão: - Avai Móce! Não sai nada! És mesmo um féga! - Cá pre mim na me rale, isto é p’ra ajudar o asilo das crienças!. Perto da porta principal da igreja, viam-se alguns aleijados, rastejando que pediam esmola. Do outro lado do largo, junto ao edifício do Compromisso Marítimo, estava o Ti Zé Fateixa, figura típica da vila cubista, que contava uma anedota ao homem dos bartilheiros - O Ti Manel do Ó. Um outro vendedor, tinha um enorme tabuleiro cheio de “alcagoitas”, rebuçados de mel e pirolitos, que eram o engodo da rapaziada. Era dia de romaria, ainda restavam uns cobres das “partes de fora” - mealheiro que a “companha” deixava para as festas. Junto dos vendedores ambulantes duas ou três velhas vestidas de negro (biocos) cochichavam. O coxo da muleta - o Zé do Levante, pedia esmola à saída das “beatas” caridosas. A caridade era pouco funcional, a miséria franciscana era grande. Por vezes, vinham umas “dólas da Amérca” para a Fábrica da Igreja. Passava o ardina que vendia os jornais. O coxo conhecia toda a gente. Os “moces pequenos” saltavam junto do ardina, para ver os bonecos do “Pim-Pam-Pum” que era um suplemento do jornal “O Século“. Poucos sabiam ler, mas escutavam nos cafés próximos, aquilo que era lido pelos mais letrados. Só os ricos tinham bons livros e rádios. Os pescadores passavam a maior parte do tempo na faina do mar! Era uma terra de mar e fábricas no seu labor. Homens e mulheres trabalhavam nas fábricas muito mal pagos, tal como qualquer operário. Nessa azáfama que caracterizava a vila, aparece no largo da igreja o Jaquim Surdim, que era amigo do Zé Fateixa, e , costumava mariscar na Ria Formosa com o amigo. Ao ouvir o badalar constante do sino, interroga o amigo: - Móce, ó Mane Zé, mai p’ra que sará tantes dróbes? Diabe! - Móce o Diabe dá dobres? Os dobres são p’ra Deus Nosso Senhor! - Olha p’ra ele! Ai! P’ra Deus Nosso Senhor! Tem tona, homem! Então a minha mãe dizia sempre: - “Leve o Diabe alma!” - Mai qual dobres, nem mei drobes! Tu nas ouves que aquile, na são drobes mas repenicos! Responde prontamente. - Ah! Só se forem penicos! Até as beatas já vão de “penicos” agora deixarem os véus, os lenços e vão de chapeletas, móce! - Ah! Bandide! Cada vez está mai parve e surde! - Tu nã vês que o sino tá a repenicar doutro jêto que vai haver um batize daquela menina Roquete... ...................................................................................... No átrio da igreja começaram a chegar o Senhor Farmacêutico Santinho, homem famoso na vila, sua esposa e filhas. A Madame Roquete saía com a menina de quatro anos dum “Chevrolet”, acompanhada do marido! Os sinos tocavam com alegria anunciando o baptizado da menina. - Avai! Gente fina é outra loiça! Mai se o Padre Delgado sabe que o Padrinho Farmacêutico, nem casado pela igreja é! Vai havê-las! - E chamem aquile Santim... ele é mai um grande diabim! O coxo da muleta era muito divertido e também alcoviteiro. Tentou entrar na igreja pela porta lateral, para avisar o padre. A igreja estava cheia de povo. O padrinho era um homem ateu, que nunca frequentara a igreja e nem casado religiosamente o era. Entretanto, já o padre se dirigira para a Pia Baptismal. O padrinho segurava a velinha da afilhada. O padre já havia iniciado a cerimónia: - Eu te baptizo, em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo. O Zé do Levante, colocando-se em frente do Padre, benzia-se e ao mesmo tempo que ele fazia o sinal da cruz, fazia uns sinais significativos, para alertar o padre que não o compreendia... E o coxo dizia: Em nome do Espírito Santo de Orelha! Repetiu tantas vezes a frase, que o prior quando finalmente a ouviu, exclamou: - Estás a brincar com a orelha? Mas o mal não tinha remédio! A criança estava batizada! Entretanto, este acercando-se mais do padre, pode finalmente dizer-lhe: - “O Espírito Santo de Orelha”, é que o Sr. Padre foi enganado. O padrinho da Menina, não é casado por igreja, saiba reverendo! O padre ao saber que fora ludibriado pelo farmacêutico, dirige-se imediatamente a ele, dizendo: - Então o Senhor teve o arrojo de me enganar? O farmacêutico que era reinadio, e tinha um grande espírito de humor e resposta pronta, diz-lhe de imediato: - Também o Senhor me engana que faz hóstias de graça e eu não vendo as minha com a sua concorrência! O farmacêutico era muito perspicaz e facilmente compreendeu que o padre não era para brincadeiras, não teve outro remédio senão ouvir o sermão do sacerdote. - O Senhor não sai da igreja sem me fazer uma promessa - disse o Padre. - Tem de me prometer, aqui neste altar-mor, que vai casar-se por igreja, senão o baptizo esta anulado! Virando-se para o padre, imediatamente com ar malicioso, matreiro como era, enquanto gesticulava com as mãos, para cima e para baixo, de acordo com os gestos significativos, respondia com serenidade aparente: - Eu vou fazer um juramento solene Sr. Padre! Eu le juro que estes dois, ( gesticulava, referindo-se aos dedos, por baixo dos olhos, na posição de baixo para cima) se me ceguem; que estas duas se me partam ( e referia-se em gestos às unhas dos dedos da mãos) se eu faltar à minha promessa! O padre conformou-se com o falso juramento. Só que o coxo que queria ganhar alvíssaras, nada ganhou com isso e ficou a ver navios. O padre morreu antes do farmacêutico e nunca pode ver se o juramento tinha sido cumprido. Fora enganado pelo rei das “petas” É assim certo o ditado popular: “Andam mais de cem para enganar um!” Será que se apanha mais depressa o mentiroso que o coxo? Aqui o coxo não apanhou o mentiroso! Mas o farmacêutico acabou por se converter à religião e mais tarde casou por igreja. A afilhada foi depois a madrinha do padrinho! Coisas do destino! Marizé
Copyright Marizé © 2006
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 957 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para Marizé.

Comentários dos leitores

COMENTAR O QUÊ? TEM ESTILO, É ÓTIMO. PARABÉNS , NOTIFIQUEI-O COM 10.

Postado por ARTÔ em 13-11-2006

Oi, Marizé! Gosto muito deste palavreado da roça. É um povo simples, que toca o coração da gente.

Postado por Annacelia em 09-11-2006

Muito bom! Mesmo muito bom! Dei dez!

Postado por gajomailindo em 07-11-2006

Alô, Marizé! Seu texto é interessante e remete-nos a uma época em que palavras e juramentos eram levados a sério. Os termos regionais dificultaram um pouco o entendimento, mas não impediram apreciar a história. Bons Textos!

Postado por Silvino em 06-11-2006

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.