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Serviço no Natal



					    
Aquele era o primeiro serviço que o Tenente Sampaio daria no Natal. “Dar serviço” é o mesmo que ficar de plantão, ou seja, ficar no trabalho, de um dia para outro. Na Marinha, isso significa trocar o aconchego do lar, por um dia de muitas aventuras, quando tudo pode acontecer, desde absolutamente nada até um ataque nuclear (estou exagerando um pouco, um pequeno abuso da “liberdade poética”)! Para Sampaio, isso seria uma experiência totalmente nova, pois o navio em que ele estava servindo, o Cruzador “Fortaleza”, era uma grande belonave, com uma série de diferentes sistemas e equipamentos, além de uma tripulação de mais de duzentos e cinqüenta homens. Aquele serviço no Natal seria realmente algo novo em sua carreira. Mesmo esse “grande” desafio não lhe trouxe o ânimo suficiente para ficar longe de sua família em uma data, digamos, tão familiar. O único alento que o jovem oficial recebera de seus amigos era a informação de que a Noite de Natal a bordo era inesquecível. “Valeria a pena, ficar a bordo, durante o Natal!”, afirmou-lhe o Tenente Barbosa, seu grande amigo. “Você jamais se esquecerá desse dia! Não importa quanto tempo passe em sua vida!” - complementou um outro amigo, que passava por ele, naquele momento - “Além disso, tem a Ceia de Natal...”. Diante dessa notícia alvissareira, o pobre e desolado Tenente Sampaio, juntou suas forças para dar o tal serviço. “Quem sabe, a Ceia de Natal valha realmente a pena!” - tentou se animar o oficial. Na manhã do dia fatídico, Sampaio saiu de casa bem cedo. Antes, porém, deu um demorado beijo em sua esposa e um beijinho em sua filhinha de três anos, que ainda dormia naquela hora do dia. - Querida, - disse o oficial, ao abrir a porta de saída de seu apartamento - esse será nosso primeiro 24 de dezembro que passamos separados, nesses quase dez anos que nos conhecemos. Amanhã, estarei de volta, o mais cedo que puder. Diga à Claudinha, que o papai teve que ir trabalhar. - São os “ossos do ofício”, meu amor! - respondeu Thaís, retribuindo-lhe o beijo - Não fique triste, pois amanhã, nós comemoraremos o verdadeiro Dia do Natal! Desolado, mas cônscio de seu importante dever, Sampaio rumou para seu navio, que estava atracado na Base Naval de sua cidade. Depois de uma viagem de quase uma hora, praticamente sozinho, dentro do ônibus, que se arrastava morosamente pela cidade, ele chegou, finalmente, a bordo. Ao se aproximar da prancha do navio, Sampaio deu uma boa olhada para seu navio e, compreendendo o seu sagrado dever, pensou “Esse é o meu dever! Minha família está em segurança, tranqüila e, afinal, eu só tenho que passar um dia a bordo. Amanhã estarei de volta para minha casa.”. Convencido de que o dia passaria rápido e que, segundo seus amigos, seria inesquecível, o jovem oficial, subiu a prancha, saldou a Bandeira (prestou continência para a Bandeira Nacional - costume de todos militares, que entram no navio, pela primeira vez no dia) e foi para bordo (entrou no navio). Mal ele colocou os pés a bordo e sua rendição (o oficial que estava de serviço na véspera) entregou-lhe a pistola, o apito e um pequeno bloco de notas: - Ei, Sampa! - falou o oficial, ao mesmo tempo em que saudava a Bandeira e baixava terra (saia do navio, em direção à terra firme) - Fique com o material de serviço! ‘Tá tudo bem! Até logo! Desorientado, Sampaio pegou os apetrechos e prestou a continência de despedida para o oficial que, do cais, gritou-lhe: -Ah! Já ia me esquecendo. - falou, enquanto se afastava do navio, em direção ao seu carro, que estava estacionado ali perto - Estão faltando três marinheiros e dois cabos, que não vieram dar o serviço no dia de hoje. Peça ao pessoal, que deu serviço ontem, para dobrar o serviço (ficar de serviço mais um dia)! - O que mais eu posso fazer. - disse Sampaio, para si mesmo, bem baixinho - O problema vai ser convencer essa turma a ficar a bordo, mais um dia. Além de tudo, esses coitados terão que passar a Noite de Natal a bordo, porque alguns irresponsáveis não vieram para bordo, para cumprir com sua obrigação. Como se não bastasse, o oficial que saía, parou seu carro, em frente à prancha e, de dentro do carro, gritou: - Tem mais uma coisinha! Amanhã de manhã, o Comandante vem para bordo, para almoçar com o pessoal de serviço! Vê se você consegue pintar a parte externa do navio, para melhorar um pouco o visual. Eu arrumei uns vinte baldes de tinta (latão de 18 litros). Peça para o pessoal de serviço lhe ajudar. Fui! - Feliz Natal! - foram as últimas palavras gritadas pelo oficial, enquanto acelerava seu carro, em direção à saída da Base Naval. - Que merda! - explodiu o pobre Sampaio - Vou ter que forçar uns cinco militares a permanecerem a bordo, para cobrir a falta de consideração dos outros e, além disso, vou ter colocar esse pessoal para dar duro, num dia que deveria ser de meditação e descanso. Só falta agora.... - FORTALEZA! Incêndio real na cozinha! - alertou o fonoclama (sistema de alto- falantes de bordo) - Equipe de CAV (Combate a Avarias) guarnecer! - Cacete! - exclamou Sampaio, enquanto corria em direção à cozinha do navio, para coordenar os trabalhos da equipe de CAV - É só eu pensar, que acontece! Felizmente, era um pequeno incêndio, que foi prontamente debelado. Tirando o forte cheiro de fumaça, que iria “temperar” o rancho (a comida), do almoço, o resto estava tranqüilo. Restava, agora, colocar o TFM (Treinamento Físico Militar - uniforme de ginástica), reunir a guarnição de serviço, “convencer” cinco coitados a não baixarem terra e, além disso, fazê-los dar um duro danado, debaixo de um Sol causticante, para dar uma “mão de tinta”, em toda a superestrutura do navio. Se conseguisse sobreviver a isso, já seria um bom presente de Natal! - pensou ele. Ao receberem a notícia, os cinco militares tiveram o impulso de pularem, ao mesmo tempo, no pescoço do Tenente Sampaio. Contudo, o senso do dever e a lembrança de que, se fizessem isso, eles, certamente, passariam o final de ano, presos a bordo, falaram mais alto e fizeram com que os pobres coitados concordassem em continuar a bordo e, ainda por cima, pintarem todo o navio, juntamente com os outros militares que estavam de serviço naquele dia. - Tudo bem! - lembrou-se Sampaio - Mas a Ceia de Natal será inesquecível! O resto do dia passou tão tranqüilo quanto poderia ser, diante daquela tarefa ingrata. Lá pelas nove da noite, todos os militares, queimados de Sol, e com muitas bolhas nas costas, encostaram o material de pintura para tomarem um merecido banho e, como haviam perdido o jantar, fazer sua tão esperada Ceia de Natal. Como era o único oficial a bordo, Sampaio, depois de um bom banho, que contribuiu para lhe arrancar uma boa quantidade de bolhas, de suas costas doloridas, rumou para a Praça D’Armas (local de refeição e de estar dos oficiais a bordo) e, como tudo estava na mais completa escuridão, por um breve instante, deixou-se levar por seu lado imaginativo. Em seu devaneio, o cansado oficial, imaginou que, ao acender as luzes, seria recebido por todos os demais oficiais do navio, que lhe prestariam uma surpresa, em seu primeiro serviço no Natal. Sorrindo, interiormente, ele acendeu a luz e.... Nada! A Praça D’Armas estava completamente deserta e, pior ainda, sem nada! Nem mesmo uma maçãzinha ou um panetonezinho de R$1,99. Não havia nada! Ceia nenhuma! Irado, Tenente Sampaio, pegou no telefone e mandou chamar, urgentemente, o Mestre D’Armas de serviço (militar encarregado de coordenar o serviço de rancho na Praça D’Armas). Dois minutos depois, estava em frente a ele, um pequeno sargento, muito trêmulo, que era o Mestre D’Armas de serviço. O militar tentava argumentar para o Tenente Sampaio, com a cabeça sempre baixa, que o incêndio na cozinha destruíra todo o material de confecção da Ceia e que ele, mesmo tentando “safar” (dar um jeito), não conseguira encontrar nada que pudesse fazer em substituição. A despeito de toda aquela explicação, mais que convincente, o irritado tenente, ordenou ao pobre Mestre D’Armas que levantasse a cabeça e o encarasse. Ao fazê-lo, o sargento deixou à mostra sua plaqueta de identificação, com seu nome: “Sargento Jesus”. Ao ver o nome do Mestre D’Armas, Sampaio levou um choque súbito e, arrependido de toda sua dureza, disse-lhe: - Sargento Jesus! Entendo a sua situação! Quero lhe desejar um Feliz Natal, para você e sua família! Só restou a Sampaio, tomar um copo de leite (pelo menos, ainda havia leite na geladeira!) e ir dormir. Quem teria sido o desalmado, que colocou Jesus de serviço no Natal? - perguntou-se Sampaio, enquanto adormecia. Na manhã seguinte, Sampaio passou seu serviço e, merecidamente, baixou terra, rumo a sua casa. - Realmente, - pensou ele, enquanto fazia sinal para um ônibus, que passava vazio - o serviço no Natal foi inesquecível! (Do livro "MEMÓRIAS DE UM VELHO CAPITÃO" - em elaboração pelo autor)
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Comentários dos leitores

Muito esquisito, mas já escutei que Jesus nos aparece em formas diferentes, ou seja, em mensagens que ser humano algum conseue traduzir. Breve será Natal!!!

Postado por lucia maria em 23-11-2012

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