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A EXPERIÊNCIA



					    
- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 7 SOBRE A ÁREA DE COLETA! O alarme fora dado para que todos se preparassem para os experimentos. Luiz continuou a memorização, enquanto aguardava o aviso de Fernanda. Depois de quase meia hora de espera, entrou em contato com Antonio para saber como estavam as coisas na torre de comando. - Antonio, está tudo bem por aí? - Sim! As indicações no console informam que tudo está funcionando normalmente. Contudo, a localização de Corisco I por meio visual está bastante prejudicada. Acredito que, caso você se afaste muito do ponto de espera na direção Norte, eu ficarei impossibilitado de acompanhá-lo visualmente. - É bom saber disso! Mas não se preocupe, pois eu manterei contato pelo sistema de comunicação... A voz de Fernanda interrompeu a comunicação: - RAIO A 1,5 km EM 145! Luiz disparou na direção indicada, acelerando ao máximo o veículo. Quando faltavam uns 300 metros para chegar ao local, Luiz passou por dentro de um grande buraco. O veículo foi arremessado para cima, dando um vôo espetacular, e caiu de lado no lamaçal. O motor de Corisco I continuou funcionando e as rodas giravam no ar. Depois de algum tempo com o veículo naquela posição, o motor parou. Luiz, que estava desacordado dentro do veículo, ficara preso pelo cinto de segurança e, ao voltar a si, não conseguia se movimentar para sair do veículo. Depois de algumas tentativas em vão, Luiz alcançou o botão do sistema de comunicação e pediu ajuda. - Antonio, responda! Preciso da ajuda de vocês. - Está tudo bem com você? Eu estou com a impressão de estar vendo o veículo tombado. - É exatamente o que está acontecendo! Tive um pequeno acidente, Corisco I capotou e eu estou preso pelo cinto de segurança, sem conseguir mover o meu braço direito. Acho que eu o quebrei. - Aguarde que já estamos indo para aí! – foi a resposta imediata. Antonio disparou para a garagem, tendo pedido que o médico e mais um enfermeiro lhe ajudassem no resgate de Luiz. Antes de sair, ele pediu que Henrique assumisse seu posto na torre de comando e lhe ajudasse a localizar Corisco I. Estava muito escuro lá fora e a chuva não dava tréguas. Antonio, o médico e o enfermeiro saíram com o Corisco II em busca de Luiz. Depois de alguns minutos debaixo da forte chuva, pediram orientação a Henrique. A visibilidade era praticamente zero e a velocidade desenvolvida pelo veículo tinha que ser muito baixa. Henrique, de sua posição privilegiada, dava as orientações necessárias para guiá-los. Depois de mais cinco longos minutos, finalmente eles conseguiram encontrar Corisco I. Ao pararem ao lado do veículo de Luiz, Antonio saltou de Corisco II, escalou o veículo tombado, abriu a porta direita e deparou-se com Luiz. - Que confusão você arranjou, hein? – perguntou Antonio, tentando descontrair seu estado de nervos. - Pois é! Eu estava quase chegando ao local, quando passei por uma grande depressão que fez com que o veículo fosse lançado para o alto. - Tudo bem! Fique tranqüilo que nós vamos tirá-lo daqui em pouco tempo. Tente se manter imóvel para não complicar seu estado de saúde. - O meu problema é só o cinto que está me prendendo e, talvez o meu braço. O resto está tudo em ordem! - respondeu Luiz. - Mantenha-se o mais imóvel possível para que possamos removê-lo da forma correta. Por questões de segurança, nós vamos colocá-lo em uma maca e também imobilizaremos o seu pescoço, até que tenhamos certeza que está tudo bem. – disse o médico. Depois de uma operação bastante trabalhosa, realizada sob a forte chuva que caía, os três conseguiram colocar a maca com Luiz, na parte de trás de Corisco II. Enquanto o veículo se dirigia para Tupã I, Antonio solicitou, através do sistema de comunicações, que deixassem a enfermaria preparada para receber Luiz. Pediu também que uma equipe retirasse Corisco I do local do acidente. Alguns minutos mais tarde, Luiz passava por uma bateria de exames. A enfermaria da Unidade era bem equipada, embora fosse modesta. O aparelho portátil de Raios X fora mais do que suficiente para comprovar que o braço direito de Luiz precisava apenas ser enfaixado. Para o alívio de todos, nada mais sério fora detectado. Contudo, apenas por precaução, o médico recomendou que Luiz passasse algumas horas em observação na enfermaria. Tratava-se de um procedimento médico rotineiro para assegurar que o paciente não apresentava mais nenhum outro problema. - Que droga! Agora só teremos mais um período de tempestades para tentar obter um resultado positivo. - praguejou Luiz. - Corisco I está avariado e você está aí de molho, com um braço machucado. Acho que pagamos um preço relativamente baixo pela lição! - respondeu Antonio. - Eu não vi lição nenhuma! A única coisa que eu estou vendo é que o tempo está se esgotando. - Na verdade são várias as lições: os experimentos só devem ser realizados de dia; não adianta tentarmos forçar a situação; e, principalmente, precisamos dar um jeito nos buracos da área de coleta! - É, pensando bem, você está certo! Acho que você realmente incorporou a função do tio Fábio, até com relação às conclusões. - Estou fazendo o melhor que eu posso! - respondeu Antonio sorrindo. - Embora concorde com você, acho que estamos cada vez mais pressionados pelo tempo. Teremos apenas mais uma seção de tempestades. Estou muito preocupado! - Fique tranqüilo! Descanse um pouco e deixe o resto comigo. - disse Antonio, retirando-se logo em seguida. Antonio saiu da enfermaria e foi direto para a garagem. Ao encontrar Henrique, recomendou que ele deixasse Corisco II e III prontos para uso. Depois chamou Roberto e lhe deu algumas instruções: - Procure a Dra. Fernanda e verifique quando deverá ocorrer a próxima calmaria. Assim que ela começar, quero que você e toda a equipe de manutenção providenciem o reparo da maior quantidade de buracos possível na área de coleta. - Sim, senhor! Mas acho que é uma tarefa bastante difícil, pois o tempo não ajuda e não temos equipamentos adequados. - respondeu o jovem engenheiro civil. - Não seja tão pessimista! Segundo as últimas previsões, deveremos ter uns três dias sem tempestades. Quanto aos equipamentos, existe um galpão nos fundos de Tupã I, onde estão guardados os tratores que prepararam o terreno. Nós decidimos mantê-los aqui até o final da temporada de chuvas, pois achávamos que o seu transporte seria problemático. Os caminhões que deveriam levá-los embora poderiam ficar presos na estrada enlameada. - Assim as coisas ficam um pouco mais fáceis. - Inicie a operação de reparo a partir do centro da área de coleta. Cuide para que a área em torno do ponto de espera fique com o menor número de buracos possível. Estabeleça turnos de modo que possamos cobrir a maior parte possível do terreno nessas 72 horas sem tempestades. - Sim, senhor! - disse Roberto, saindo para tomar as providências necessárias. No meio da tarde da Segunda-feira, conforme Fernanda havia previsto, a tempestade acabou. O tempo ficou encoberto mas, vez ou outra, era possível ver parte do céu. O Sol, que aparecia raramente, iluminava as máquinas que trabalhavam incessantemente na terraplenagem da área de coleta. Conforme Antonio previra, o trabalho era duro, mas possível e, em pouco tempo, os resultados podiam ser notados. Boa parte das enormes poças d'água deu lugar a um solo úmido e mais plano. Aproveitando o tempo em que estava na enfermaria, Luiz tentava se programar mentalmente para ver como melhor aproveitar a última tempestade. Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Carla: - Passei por aqui para saber como vai o nosso chefinho. - disse Carla sorrindo. - Eu vou bem! Estou um pouco avariado, mas nada sério! - Fiquei muito preocupada quando soube do seu acidente. Na verdade, eu estou preocupada desde a hora em que você disse que faria essa loucura. - Pode ter sido loucura mas era necessária! - respondeu Luiz, tentando ser convincente tanto com Carla como consigo próprio. - Acho que você precisa dar mais valor a si mesmo! Um sacrifício desse tipo dificilmente poderia resultar em alguma coisa positiva. Imagine quantas coisas ruins poderiam ter acontecido. Os benefícios eram muito pouco e, embora você não tenha pedido a minha opinião, acho que não valiam a pena. Todos nós perderíamos muito se você tivesse sofrido um acidente mais sério. Tente ver com bons olhos tudo isso que eu estou lhe dizendo, pois eu também estou preocupada com a sua saúde. Acho que já falei demais. Até logo! - Carla despediu-se de Luiz dando-lhe um beijo na sua testa. Assim que Carla saiu da enfermaria, Fernanda apareceu com alguns bombons: - Achei que você poderia estar com fome e resolvi lhe trazer isso. - Ah! Muito obrigado! Afinal todo doente merece receber uns bombons. - disse Luiz sorrindo para Fernanda. - Que belo susto, hein? - Pode ter certeza que, pelo menos para mim, foi um susto e tanto. Até que o prejuízo não foi dos piores! - disse Luiz olhando para o seu braço enfaixado. - É, mas poderia ter sido muito pior! Acho que você deveria tomar mais cuidado com essas reações de mocinho de cinema. Aqui você não tem dublê e, se acontecer algo ruim, é você quem vai entrar pelo cano! Como amiga, eu gostaria que você soubesse que eu me preocupo muito com você e que não gostaria de vê-lo machucado. Acho que não há nada nesse mundo que justifique esses riscos. - Você está se esquecendo que temos uma temporada de raios que está se acabando? - Claro que não! Mas acho que se as coisas não estão propícias para alcançarmos o nosso objetivo nesse curto prazo, de nada adiantará você ficar machucado, aleijado ou coisa pior. Acho que cedo ou tarde vamos alcançar esse resultado e que não precisaremos sacrificar vidas para isso. Agora descanse e pense bem nisso. Como a próxima tempestade só virá daqui a três dias, acho que você vai ter muito tempo para analisar o que eu acabei de lhe falar. Mais tarde eu volto! - Fernanda saiu, depois de dar um beijo no rosto de Luiz. Enquanto Luiz pensava no que Carla e Fernanda lhe falara, acabou adormecendo. O seu sono foi bastante agitado, com sonhos confusos, onde juntos, Alice e Flávio, lhe pediam calma para que tudo pudesse ser resolvido sem sacrifícios. Fábio aparecia em seu sonho e, sobre uma cadeira de rodas, lhe dizia que não se arriscasse tanto para não ficar igual a ele. Carla e Fernanda, em coro, lhe diziam para tomar cuidado. Tudo acontecia em meio a uma forte chuva, cujos raios caíam à sua volta. Por fim a imagem do Diretor-Presidente, com um cronômetro em suas mãos, lhe dizia que o tempo havia se esgotado e que era hora de parar. As cenas se alternavam, repetidamente, até que ele acordou. Ainda com a forte impressão do sonho, ele abriu seus olhos e viu o médico, que segurava o seu braço esquerdo: - Luiz, você já cumpriu o período de observação e está tudo bem. Caso queira, poderá ir para o seu alojamento. Apenas lhe recomendo que evite qualquer atividade que force o seu braço direito. Se tudo correr bem, poderemos tirar a faixa em dois dias. Até lá, mantenha esse braço em repouso. - Tudo bem, doutor! Vou cuidar muito bem desse braço pelos próximos três dias, pois precisarei muito dele na Quinta-feira. Na noite da Quarta-feira, Luiz reuniu-se com alguns membros da equipe, logo depois do jantar, para saber como as coisas estavam indo. Antonio começou o relatório dizendo que Roberto havia conseguido reparar cerca de 50% da área de coleta e que, se a tempestade só começasse à tarde, talvez esse percentual subisse para uns 65%. Depois de explicar que o trabalho de recuperação fora feito do centro para fora, Luiz decidiu que ele limitaria o raio de atuação do veículo, de modo que ficasse dentro da área recuperada. Olhando para Carla e Fernanda, ele declarou que não tinha a mínima intenção de sofrer novos acidentes, nem de correr riscos desnecessários. No final da manhã da Quinta-feira o céu escureceu, anunciando a chegada da última tempestade da temporada. Dentro de duas ou três horas, conforme Fernanda havia previsto, aconteceria uma das maiores tempestades daquela temporada. O braço de Luiz já estava sem a faixa, mas com sua mobilidade um pouco comprometida. Isso não seria empecilho para pilotar o veículo, disse para si mesmo. Às duas horas da tarde, todos assumiram as suas posições. Luiz já estava a bordo de Corisco III, quando ouviu o alarme: - ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 9 SOBRE A ÁREA DE COLETA! Corisco III partiu para o ponto de espera. Lá chegando, Luiz contatou Antonio: - Aqui está tudo bem! Dê meus parabéns ao Roberto! A área está muito bem recuperada, parece até asfalto! - disse Luiz, muito satisfeito com o que acabara de ver. - Ótimo! Vou falar com ele assim que puder. Como está o tempo aí? - Chove muito forte e o vento prejudica um pouco a direção do veículo. Mas não é nada que comprometa os experimentos. Conforme combinamos, estou limitando a área de atuação a até 2,5 km de distância do centro da área de coleta. Fernanda já foi avisada... - RAIO A 2 km EM 145! - A voz de Fernanda interrompeu a conversa dos dois. - A caminho! - disse Luiz, disparando na direção indicada. Ao chegar ao local, após 41 segundos, Luiz acionou o botão de disparo. Depois de receber um impacto sobre o veículo bem mais forte que o esperado e ouvir um estrondo também muito mais elevado, deu uma verificada no painel e constatou que, segundo as indicações dos instrumentos, tudo ocorrera da forma esperada. Agora bastava esperar um período de tempo conhecido para se comunicar com Tupã I. Contou mentalmente uns quinze segundos. Ao chegar em quinze, antes de acionar o sistema de comunicação, verificou que sua mão tremia e que todo o seu corpo estava transpirando muito. Subitamente, veio-lhe à mente todo o episódio do acidente em Tupã I, a aflição no hospital e a cena do falecimento de Hélio, totalmente queimado. Suas mãos não respondiam mais à sua vontade, por mais que Luiz tentasse, ele não conseguia coordenar os seus movimentos. Uma pergunta flutuava em sua mente: Teria tudo aquilo acontecido de novo? A luta interna de Luiz o consumia, impedindo-o de agir coerentemente. Era como se dentro dele existissem duas pessoas independentes, que brigassem entre si pelo controle das suas ações. Enquanto ele se debatia contra as reações adversas do seu corpo, o sistema de comunicação fora acionado. - Alô...ZZZZZZZZ Luiz! Responda! Está...ZZZZZZZ.. com você? - a voz de Antonio, em meio a um forte zunido, tirou Luiz daquele estado letárgico. - Si-sim! Aqui está tudo bem! Mas e vocês? Depois de alguns longos segundos de silêncio, a voz de Antonio respondeu: - Exce..ZZZZZZZ..! Segundo as informações...ZZZZZZZZZZ....receber de Carla e..ZZZZZZZ, eu..ZZZZZZZZ..dizer que ........ - Estou lhe ouvindo com muita dificuldade, sua voz está chegando com muita interferência! Vamos diga logo! - CONSEZZZZZZ..! - gritou Antonio – CONZZZZZ..MOS! - Fale devagar! A interferência está prejudicando a compreensão de suas palavras! - C-O-N-S-E-G-U-I-..ZZZZZ..!!! - soletrou Antonio. - É verdade? Conseguimos mesmo? - Luiz estava incrédulo. - S-I-M! - respondeu Antonio. - Estou voltando agora mesmo! – disse Luiz, retornando a Tupã I. Ao chegar em Tupã I, ainda sem estar certo sobre algum resultado positivo, foi direto ao Setor de Armazenamento. Lá chegando encontrou um grande clima de festa. Ao vê-lo, Antonio lhe deu um abraço apertado. Afinal, tinham realmente conseguido atingir o objetivo tão desejado. Ainda confuso, Luiz comentou sobre a interferência no sistema de comunicação. Carla, que também estava lá, lhe explicou que aquilo era resultado da forte interferência eletromagnética causada pela grande quantidade de energia acumulada. Um forte zunido era claramente ouvido nas proximidades dos dispositivos de armazenamento. Segundo Magno, eles haviam coletado um raio muito potente, cuja energia ocupara cerca de 80% da capacidade total do sistema de armazenamento de Tupã I. Finalmente o tão esperado sucesso havia sido alcançado, agora uma série de medidas deveriam ser feitas para que constassem do relatório a ser entregue ao Diretor- Presidente. Lembrando das recomendações daquele executivo, Luiz pediu que providenciassem um relatório resumido, com as principais informações. Esse documento deveria ser levado por um portador confiável, ainda naquele dia para o Diretor- Presidente. Como se tratava de uma corrida entre empresas concorrentes, era fundamental que o resultado positivo fosse comunicado o mais rápido possível à empresa patrocinadora. (Do livro "DOMINANDO O RAIO" - versão completa)
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Comentários dos leitores

ESSE CONTO É UMA EXPERIÊNCIA PITORESCA! PARABÉNS!

Postado por Edemilson Reis em 18-02-2007

Uma forma de divulgar o livro.

Postado por Marcelo Torca em 15-02-2007

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