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O PROFESSOR, O CÃO E O CAVALO



					    
Em 1747, Voltaire publica “Zadig, La Déstinee”, contendo onze contos de temática oriental, inspirados nas Mil e uma Noites de Galland, bastante na moda na sociedade francesa daquele tempo. Na época em que cursava Letras, fiz como exercício literário, algumas versões destes contos como se fossem causos brasileiros. O que lhes apresento, é o de minha preferência. Certa vez, um renomado professor, desiludido da vida em si, principalmente a amorosa, resolveu retirar-se para a clandestinidade do campo; deixar seus estudos de física e dedicar-se ao dos animais e plantas que lá viviam. Em pouco tempo de vida campestre, o Professor, já havia adquirido tanto conhecimento sobre a natureza da qual, agora, fazia parte, que via mil diferenças onde os outros nada viam. Ora bem, estava o Professor, certo dia, a andar pela mata, quando “deu de cara” com um sertanejo seguido de vários soldados da polícia. Andavam de um lado para outro, a olhar através do mato, como se procurassem por algo muito precioso, que fora perdido. — Caboclo – disse-lhe o sertanejo, que ia a frente dos demais como um guia – não viu por aí o cachorro do Coronel Epaminondas? — Não é um cachorro, é uma cadela, respondeu o Professor. — Tem razão – retrucou o sertanejo — É caçadeira, e por sinal muito pequena – acrescentou o Professor – deu cria há pouco; manca da pata dianteira esquerda e tem as orelhas muito compridas. — Ah! Então, você a viu? – perguntou o sertanejo, ofegante. — Não — respondeu o Professor — nunca a vi na minha vida, nem conheço o Coronel Epaminondas, e muito menos se ele tinha ou não uma cadela. Nesse mesmo tempo, aproxima-se do local, outro sertanejo e outros soldados. O segundo sertanejo vai logo lhe perguntando se não vira, por acaso, o cavalo do Coronel que também se extraviara na mata, motivo pelo qual a cadela foi colocada em seu alcanço e acabara se perdendo. — É - respondeu o Professor — um cavalo de bom galope; tem dois metros de altura e os cascos pequenos; a cauda tem um metro e meio de comprimento e as ferraduras são de prata. — Que direção ele tomou? Onde está? — perguntou o segundo sertanejo. — Não o vi — respondeu o Professor, — nem nunca ouvi falar nele. Os dois sertanejos e os soldados não tiveram mais dúvidas de que o Professor havia se apoderado do cavalo e a cadela do Coronel Epaminondas. Deram-lhe voz de prisão e conduziram-no perante o delegado; que o mandou perante o juiz; que o condenou a passar o resto da vida na prisão. O juiz, mal acabara de proferir a sentença, quando foram encontrados o cavalo e a cadela. Viu-se na dolorosa obrigação de reformar sua sentença; mas por um capricho seu, condenou, o professor, a desembolsar dois mil reais, por haver dito que não vira o que tinha visto. — Não aceito passar por mentiroso, meritíssimo, exijo o meu direto de defesa – atalha o Professor revoltado. Após consultar seus auxiliares, o juiz lhe concede a licença para se defender, porém, como é de costume, primeiro foi preciso pagar a multa. O Professor iniciou a defesa nos seguintes termos: Já que me é dado falar perante esse tribunal, eis o que me aconteceu: Passeava eu pela mata, quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram as de um pequeno cão. Sulcos leves e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, revelaram-me que se tratava de uma cadela cujas tetas estavam pendentes, e que, portanto não fazia muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas muito compridas; e, como notei que o chão era sempre menos amassado por uma das patas do que pelas três outras; compreendi que a cadela do mancava um pouco. Quanto ao cavalo, divisei, no mesmo local, marcas de ferraduras que se achavam a igual distância, próprio de um cavalo que tem um bom galope. A poeira dos troncos, no estreito caminho, fora levemente removida à esquerda e à direita, a um metro e meio do centro da estrada. “Esse cavalo — disse eu comigo — tem uma cauda de um metro e meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos troncos”. Vi, debaixo das árvores, que estas formavam uma cobertura de dois metros, e pelas folhas recém-arrancadas, concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça e que tinha, portanto, dois metros de altura. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em algumas pedras, descobri eu que eram de prata. Pasmado pelo tamanho conhecimento do professor e tomado de profundo discernimento, o juiz reconheceu a inocência do réu. Determinou, então, que lhe fosse restituído o dinheiro da multa, porém, como é o costume, mil e quinhentos reais ficariam retidos para pagar os custos do processo e o restante como gratificação aos assistentes do juiz pela hora extra. O Professor reconheceu a indulgência do juiz e compreendeu como era, às vezes, perigoso ter um pouco mais de conhecimento que os outros mortais. “Como é lamentável, meu Deus, — dizia ele consigo, — ir a gente passear numa mata por onde passaram a cadela e o cavalo do Coronel! Que perigoso chegar à janela! E como é difícil ser feliz nesta vida!”. Jurou consigo que, na próxima ocasião, nada diria do que por acaso houvesse testemunhado. ______________________________________________ A tradução do texto original que deu origem a esta versão e de Nélson Jahr Garcia (1947-2002). Agradeço a leitura e, antecipadamente, qualquer comentário. Se você encontrar erros (inclusive de português), por favor, me informe.
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Comentários dos leitores

De fato, é complicado observar, tirar conclusões científicas e descrever o que se "viu" sem ter visto concreto. Adorei seu conto!

Postado por lucia maria em 23-11-2012

Alô, Edward Teach! Grande conto! Daria um bom curta metragem! Parabéns!

Postado por Silvino em 27-09-2007

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