Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio Autores & Leitores

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Galeria de Autores & Leitores

Caro leitor,

Este é um trabalho já aprovado pelo público!

Sinta-se à vontade para, depois de lê-lo, deixar seus comentários.

Bons Textos!

> Ler outro conto <   < Ler poemas > < Ler crônicas >

ENTRE VERSOS

por defelix


					    
Caminhei seguindo o aroma de velhice que exalavam as prateleiras, misturando-se ao meu próprio. Olhei ao redor procurando por algo novo entre tantas lombadas com os títulos dourados semi apagados. Olhei para o cartaz, também em cartolina mofada, tentando focalizar a seção. Apalpei os bolsos em busca do óculos, que cada vez mais insistia em sumir nos inúmeros compartimentos vestuários. Encaixei-o no rosto e espremi os olhos. Ah! Ali estava! POETAS LUSITANOS. Quantas vezes ali estive, debaixo daquele mesmo cartaz, diante da mesma prateleira, dentro daquela loja, na mesma rua tantas vezes percorridas, na cidade que me engolia e regurgitava diariamente. Olhando os mesmos livros, ávido por novidades. Mas, eram sempre os mesmos livros. Não haviam mais novidades, eram sempre os mesmos poetas, os mesmo poemas, os mesmos versos. Como se a arte se tivesse extinguido há quase 100 anos. Se haviam novidades antigas elas estavam em bibliotecas particulares, aguardando talvez o passamento de seus proprietários para que os herdeiros oferecessem-nas ao prazer de pessoas como ele, em troca de algumas notas de mero valor financeiro, quando para muitos aquilo teria um valor inestimável. Mas, tanto tempo se passara e nada mudara naquela prateleira que eu desconfiava que realmente a poesia havia morrido. Os livros permaneciam na mesma posição de sempre. Aquele era um canto intocado. A seção de best sellers ao contrário era a mais movimentada da loja. Durante todos aqueles anos poucas vezes ali parei. Mesmo por que era quase impossível procurar algo ali devido a quantidade de pessoas paradas defronte as prateleiras. Meu canto era outro. Todas às quartas-feiras tomava meu café de pé na sacada de meu apartamento inalando o ar frio da manhã. O ar poluído daquela cidade que acordava. Olhava do alto do 15º. andar para o asfalto molhado todo marcado pelos pneus dos ônibus e carros que seguiam seus caminhos em direções rotineiras. As pessoas como formigas se entrelaçavam num belo, absurdo e macabro balé nas calçadas lá embaixo. Após o banho, passava afoitamente os olhos pelo jornal do dia aguardando o horário certo de sair do apartamento, seguir até o elevador, que sempre demorava uma eternidade para chegar, cumprimentar o porteiro falando coisas deveras cotidianas e enfadonhas. Saia do prédio empedernido como se fosse para a missa ou para o cadafalso. Seguia por 10 longos quarteirões enveredando por travessas esguias e sombreadas por altos e antigos prédios. Aquilo era um cenário apropriado para minha missão. Parava na esquina e observava a loja recém aberta. Naquele horário não haviam clientes. Meu coração disparava. Iniciava a última etapa de minha aventura. Alcançar aquele recanto de cultura. Adentrar o templo após longa jornada sob o sol escaldante do deserto urbano. O frescor daquela caverna iria acariciar minha pele. Andaria por ela entre altas colunas de papel e couro até o altar único e intocável há muito tempo. Se pudesse me ajoelharia diante dos poetas ali esquecidos. Conhecia-os todos. Já possuía intimidade com suas obras e vidas, sendo que algumas eram bem melhores que as outras. Vidas ou obras. Um sino tocou em minha mente. Virei-me para a porta esperando ver alguma figura conhecida do lugar. Mais algum aposentado desocupado sedento de leitura e prazer poético. Nada! A figura postou-se a porta, com a imagem recortada pela luminosidade que vinha do lado externo do mundo literário, até que a porta fechou-se atrás dela. Retornei os olhos para as conhecidas camadas de pó entre o volumes que jaziam na áspera superfície de madeira crua. - O sr. tem algum livro com as poesias de Florbela Espanca. Os anjos haviam cantado. Aquela voz macia , jovem , havia atravessado o mar de livros e alcançado meus ouvidos como a espuma de mares nunca dantes navegados. Olhei aflito para os livros a minha frente. Sabia a resposta. O único livro que continha as obras daquela poetisa eu o havia comprado há 5 anos atrás. Esgueirei-me tentando vislumbrar a dona daquela voz e daquele desejo. Lá estava ela, miúda diante ao dono do estabelecimento. Vestia uma blusa branca colegial e uma saia curta azul marinho, meias ¾, sapato preto envernizado. Meu Deus! Pensei. Enlouqueci?! Adormeci e voltei no tempo. O que quer uma adolescente em busca de poesia lusitana? Trabalho escolar? Não! Isso ela consegue na biblioteca pública. Ela quer comprar um livro. Comprar? Poesia? Espichei-me ao máximo para admirar suas curvas. Seu cabelo negro e longo como cascata escorria por seu belo crânio espalhando-se magnificamente pela blusa branca, que numa análise mais próxima a apurada não era mais branca. Era creme e seu generoso decote eliminava a aparência de colegial. A saia era Jeans e o sapato de salto.... Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... diria Florbela. Não só as lábios. Queria falar-lhe não só com palavras. Que sentimento era aquele que se apossava de mim? Será que era isso que eu esperara durante todos aqueles anos diante daqueles mesmos livros. Algo inusitado. - Não tem?! E Almada Negreiros? Tu chegas sempre primeiro... Eu volto sempre amanhã... Os versos bailaram em minha frente. Quem era aquela pessoa... Que não pedia por Fernando! Que não era vulgar fazendo pedidos óbvios da cultura popularmente disseminada. Acerquei-me dos livros de Filosofia para admirar seus lábios entreabertos solicitando a resposta que eu conhecia. - Também não. Estúpido vendeiro! Podia dizer “Talvez! Precisa procurar na seção correta.” E ele me daria a oportunidade de estar ao lado dela entabulando uma conversa culta pela primeira vez naquele recinto. Olhava embevecido para aquela mente cercada por um corpo. Queria ter a oportunidade de ler em seus olhos a poesia da vida. Declamar os versos contidos nas linhas da palma de sua mão. Usar seu corpo como papel para escrever um poema alexandrino. Ela baixou a cabeça em agradecimento. Que belo movimento corporal! Girou lentamente em direção à porta. Vi sua silhueta quando a abriu, tendo o sol emoldurado novamente suas carnes. Olhei suas pernas. Eram brancas e usavam meias de seda. A brancura da pele me confundira a mente criando uma meia ¾ inexistente. Deixei meu refúgio e a segui com o olhar até que a porta nos separasse. O dono da loja ainda tentou argumentar ser cedo ainda, pois acabara de chegar, e normalmente só sairia por volta do meio dia, mas não lhe dei atenção. Deve ter achado que alguma dor no peito ou no estomago me impelia de volta às pressas para casa. Sim meu peito arfava. O coração descompassado. O estomago em pânico de perdê-la de vista. Olhei para os lados e finalmente a vi parada na esquina esperando o sinal abrir. Segui-a apressado tentando acompanhar os seus passos lépidos e juvenis. As pessoas passavam. Me perguntava o que eu queria. Que estranha atração aquela jovem exercia sobre mim. Eu, um velho, que poderia querer com alguém como ela. Parei. Ela estava à minha frente olhando uma vitrine. Virou o rosto, me olhou e sorriu, com seus lábios se abrindo lentamente, descobrindo os seus alvos dentes. Devolvi o sorriso, não tão branco e não tão natural e original. E tomando coragem disse a minha musa: - Obrigado! - Não há de quê! , respondeu ela com outro movimento de cabeça maravilhoso, fazendo o sol brilhar em seus cabelos. – A vida é muito mais que isso. Entre estar vivo ou morto apenas um mísero segundo basta, entre tantos de uma vida inteira. Ela me olhou, girou e partiu. Nunca mais a vi. Talvez ainda busque seus livros e suas almas pelos sebos da cidade. Nunca mais entrei num. Nunca mais li apenas poetas lusitanos. Agora sento no parque e leio ao sol qualquer tipo de literatura. As vezes penso vê-la entre as árvores, no balanço, na gangorra, passeando com um cão. Apenas sorrio e estranhamente nenhum verso me vem a cabeça pois nem preciso. Estou cercado de poesia.
Copyright defelix © 2008
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 1186 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para defelix.

Comentários dos leitores

Alguém quer comprar o que é, de uma forma ou outra, um pedacinho da nossa alma.

Postado por lucia maria em 10-10-2012

Fiuei surpreso com sua capacidade de construir um tema a partir de algo tão comum, como a mesmice de uma prateleira de sebo. Sua prosa chega a ser poética. Bela pena!!

Postado por Marcus em 17-03-2011

APAIXONANTE. OBRIGADA POR ESTE LINDO TEXTO. NOS INSPIRA À VALORIZAR A VIDA.ABRAÇOS!

Postado por Erica Sady em 21-07-2009

Parabéns pelo texto tão bom e bem escrito.

Postado por Annacelia em 01-10-2008

Adorei, é difícil hoje em dia encontrar alguém com tanta sensibilidade e sutileza. Lindo...

Postado por em 07-02-2008

Gostei muito do conto. O autor escreve duma maneira que prende o leitor, que quer ler até o final para saber qual será o resultado de tudo o que está ocorrendo. Muito bom!!!

Postado por Liliane em 04-02-2008

Muito bom! Ao que parece a MORTE se apresenta sob várias faces, cativando e iludindo, e isso nos faz refletir como o personagem sobre a VIDA.

Postado por evilelaartes em 04-02-2008

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.


> Ler outro conto <   < Ler poemas > < Ler crônicas >

Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.