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O MAL QUE NOS RODEIA

por defelix


					    
Era sábado! Acordei por volta das 9 da manhã, me espreguicei na cama. Não tinha compromissos… nada para fazer. Abri a cortina e a janela de correr. Lá fora o dia estava tão nublado como minha vida. Os prédios em frente estavam tão cinzas como as nuvens lá no alto. As ruas tão nuas como eu dentro do meu pequeno apartamento. Olhei para a cama desfeita, revirada depois de uma noite de sonhos que não me recordava. Me dirigi ao banheiro parando em frente ao espelho. Minha imagem desnuda refletia os estragos dos anos já vividos. Encolhi a barriga tentando me rever com 20 anos menos, mas o espelho foi implacável. Após usar o banheiro fui à cozinha e coloquei água para ferver, retornando ao banheiro para um agradável banho quente. A água quase fervente retirou toda a moleza daquela manhã enfadonha. Divaguei sobre o que fazer, mas qualquer coisa me parecia um simples ato para preencher o meu vazio. Cinema? Museu? Parque? Super Mercado? Tomei o café olhando ainda nu através da janela. Observei as janelas dos prédios. Havia movimento atrás delas. O que estaria ocorrendo lá? Vidas felizes? Dramas? Tristeza? Sexo? Legal ou não? Ascendi um cigarro. Soprei a fumaça para fora do apartamento. Ela rodopiou no ar e se dissipou instantaneamente. Pensei em colocar uma música para rodar, mas o simples fato de escolher alguma no meio de tantas já cansativamente ouvidas me desestimulou. Deveria ficar para sempre ali na janela? Deveria sair sem rumo pela cidade? Há quanto tempo minha rotina semanal me deixava extremamente desmotivado nos finais de semana? Não reclamava do fato de nunca ter me casado, pois sempre curti a vida solitária, mas nessa fase de meia idade a falta de amigos na mesma situação me aborrecia. Os amigos casados tinham seus planos para os finais de semana, os poucos solteiros ou separados também os tinham. O problema era comigo. Olhei para a prateleira de livros já lidos, mais ou menos lidos e os que eu nunca iria ler e isso me deu mais desanimo. Seria bom sentar tranqüilamente junto à janela e ler algo. Por em dia a leitura... Mas para que? Que importância ou diferença faria para minha vida? Abri a gaveta. Escolhi e vesti uma cueca preta e uma meia branca. Passei desodorante e um bom perfume. Depois vesti uma calça jeans, uma camiseta branca e por cima uma camisa xadrez vermelha e preto. Me olhei no espelho e me vi: um TIO. Daqueles que vão rodar os shoppings nos finais de semana. Mas eu não pretendia nem chegar perto de um shopping. Ia só até a padaria da esquina comprar pães, comprar cigarro... e quem sabe dar uma circulada pelas redondezas. Aproveitei o espelho e passei um pente nos bravos e resistentes fios de cabelo que ainda me restavam. Sai. Tranquei a porta. Fui em direção ao elevador. Deveria aproveitar e fazer um exercício descendo pelas escadas? Afinal, eram só seis andares. Antes que eu me decidisse, a porta abriu. Lá dentro Dona Gertrudes acompanhada por Gigi me sorria. Nada mais podia fazer. - Bom dia, Sérgio! E, antes que eu pudesse responder, ela continuou. - Que dia horrível, não é mesmo? A previsão é de chuva logo mais. Estou vendo que vai sair, mas se eu fosse você eu levaria um guarda-chuva. - Só vou até a padaria. - Está muito arrumadinho para ir até a esquina – disse ela com um sorrisinho nos lábios. Gigi em seu colo se agitou. Me olhou fixo e rosnou. - Que é isso, filhinha?! Não ta reconhecendo o tio Sérgio? “TIO SÉRGIO?!”, pensei. Tio de uma poodle? Só me faltava isso para estragar de vez o sábado. Sim, o sábado, pois tinha esperanças quanto ao domingo. Não sei quais, mas tinha. O elevador chegou ao térreo com um solavanco. - Odeio este elevador! disse ela. Me adiantei e abri a porta, me posicionando do lado de fora para que ela saísse. Ela colocou Gigi no chão e esta me olhou e arreganhou a mandíbula. Dona Gertrudes teve que puxar a corrente da coleira para que a poodle a seguisse. Atrasei o passo e ao passar pelo porteiro este me cumprimentou e aproveitei para parar e trocar algumas palavrinhas dando tempo a Dona Gertrudes de sumir na calçada. - Bom dia, seu Jonas. Vou dar uma saidinha e na volta pego o jornal - Tudo bem, seu Sérgio. Tem correspondência para o senhor também. Fui para a porta do prédio e antes de descer a escada até a calçada me certifiquei para que lado Dona Gertrudes tinha se dirigido. Ela havia cruzado a rua até um pequeno gramado em volta de uma árvore frondosa há uns 15 metros à frente à direita. Gigi estava cheirando a grama e, antes que ela decidisse fazer o que tinha descido para fazer, virei à esquerda em direção a padaria. - Bom dia! – me disse a graciosa Janete tão logo sentei junto ao balcão da padaria. - Bom dia, Janete! Eu quero uma média sem nata e ... ah! Quero também um pão de queijo grande e... Não! Acho melhor um bauru. - Por que não um pão de queijo e um Bauru? - Melhor não! Estou tentando não me entupir de comida este final de semana... mas... É você tem razão. Com a fome que eu estou pode mandar os dois. Depois dou uma caminhada e elimino as calorias a mais. Ela sorriu e foi buscar o meu pedido. Olhei em volta. Alguns rostos conhecidos de outros sábados. - Aqui está! - Obrigado, Janete. Bebi e comi observando as pessoas que entravam compravam seus pães e saiam. Olhei os preços dos produtos exibidos na placa da parede. Corri os olhos pelos salgados e doces expostos no balcão envidraçado. Tão logo terminei peguei a comanda e fui para o caixa. - Bom dia, seu Sérgio – me cumprimentou o dono da padaria, Seu Roberto – Vai levar cigarro? O de sempre? Dois maços? - Sim, por favor. – Da carteira do bolso traseiro da calça jeans tirei uma nota de 20 reais e entreguei sem esperar pela soma da despesa - Aqui está seu troco, e tenha um bom dia. - Para o senhor também. Sai para a calçada. “O de sempre?” Meu Deus, será que eu era tão previsível. E então me dei conta que todo sábado chovesse ou fizesse sol a história sempre se repetia. Fosse Dona Gertrudes e Gigi, fosse Janete e o simples pão de queijo que se transformava em pão de queijo e bauru, fossem os dois maços de cigarro que eu nunca pedia. Enquanto pensava nisso me vi na situação de estar com um maço de cigarros aberto no bolso da camisa e mais dois sobrando nas mãos. Enfiei um em cada bolso frontal da calça me incomodando com o volume que faziam. Se fosse um dia normal eu voltaria para ao prédio, pegaria o jornal, a correspondência subiria tiraria a roupa, e leria o jornal tomando café e fumando sem parar. Ligaria a tv e ficaria zapeando até pegar no sono ou até o jogo televisionado de sábado começar. Depois iria até o supermercado comprar uns tira gostos e ao voltar ligaria para o Disk Pizza e faria um pedido que me alimentaria até a segunda pela manhã, sempre acompanhado de um refrigerante de dois litros. Então ao invés de cruzar a rua para o meu quarteirão me dirigi na direção oposta em direção da estação de metrô. Faltando uns 30 passos para chegar lá, a chuva começou a cair. No princípio suavemente, mas foi engrossando na medida em que me aproximava da estação, e ao invés de pegar a escada rolante me joguei pela escada comum com os parcos cabelos praticamente encharcados, sem falar na barra da calça e do sapato. Deveria ter voltado pra casa... mas não, havia decidido fazer um sábado diferente e ali estava eu na plataforma do metrô praticamente encharcado. Entrei num vagão sem me preocupar com a direção, pois iria até a última estação e voltaria. Isso daria tempo da chuva passar e minha roupa secar. As estações foram passando. As pessoas entravam e saiam. “Para onde iam? De onde vinham? O que tinham feito? O que fariam? Seriam solitários como eu?”, fiquei eu pensando, observando os corpos, os rostos e as roupas dos meus companheiros incidentais de viagem. Depois de um tempo cheguei ao destino final com uma vontade louca de tomar outro café. Para tomá-lo teria que sair da estação, principalmente por ter que fumar um cigarro após o café, e com três maços de cigarro em meu poder era injusto voltar para casa sem fumar alguns. Sai e verifiquei que a chuva passara e o sol timidamente aparecia entre as nuvens. Olhei o relógio: 11:30. Procurei uma padaria ou um bar qualquer, mas não encontrei nada que me encorajasse a entrar. Fui caminhando por calçadas que seguiam diante de casas, terrenos baldios e obras de construção. Adiante avistei um bar e entrei. Mas, não tinham café. Tomando coragem pedi uma cerveja, não sem antes cogitar um refrigerante. Beber cerveja estimulava bem mais que o café ou o refrigerante o desejo de fumar. De pé junto ao balcão controlava o fluxo de pessoas no bar. O volume no bolso de trás mais os volumes dos maços tanto no bolso da camisa quanto dos bolsos frontais da calça me incomodavam bem mais se eu estivesse nu ali parado. Não era um bairro, aparentemente confiável. Mesmo assim fumei três cigarros antes de acabar a garrafa de cerveja. Me dirigi ao caixa na certeza de que o funcionário não perguntaria se eu iria querer o de sempre: dois maços de cigarro. Paguei e com o álcool já fazendo efeito tentei lembrar o caminho de volta para a estação de metrô. Fui caminhando, tentando disfarçadamente verificar se não havia nenhuma figura sinistra me seguindo. Em certo momento percebi que estava no caminho errado e pior ainda: com uma vontade louca de aliviar a bexiga. Estava há uns seis quarteirões do bar de que havia saído, ou seja, há pelo menos quatro quarteirões além do limite para me aliviar. Não iria dar tempo. E nas próximas dois quadras voltando ou seguindo só haviam residências. Nenhum terreno baldio. Nenhum estabelecimento comercial. Voltei uma quadra e ao chegar à esquina olhei para os dois lados da rua transversal e à esquerda vi um sobrado em construção. Aparentemente uma construção parada em estado de abandono há alguns meses. Fui para lá me certificando que ninguém me veria entrar pela abertura existente entre os tapumes que separavam a obra da rua. Me esgueirei por ali. Havia material já apodrecido e pelo visto muita coisa já havia sido furtada dali. Entrei pela vão onde deveria no futuro incerto existir uma porta. O cheiro de umidade e de dejetos humanos era intenso. Me senti tranqüilo, pois não iria macular aquele lugar. Mas não me sentia à vontade ali. Então subi pela escada interna de concreto ao pavimento superior. Ali estava menos fedorento. As janelas superiores estavam fechadas por tábuas horizontais possuindo vãos entre estas. Em uma delas os vãos eram maiores exibindo maior claridade. Fui para frente desta janela, me posicionando lateralmente a ela, dando espaço para dirigir o jato de urina para uma parede a um metro e meio de distancia. Olhando para fora por entre as tábuas instintivamente abri o zíper da braguilha, enfiei a mão esquerda por ali e enfiando os dedos pelo cós da cueca a abaixei e com a mão direita segurei meu pênis e comecei a urinar. A janela dava para os fundos onde havia um terreno baldio. Na casa em frente do outro lado da rua um homem só de shorts molhava uma esponja num balde e lavava o seu carro, que estava estacionado metade na calçada metade dentro da garagem da casa. Uma mulher saiu da garagem e falou algo com ele. Enquanto ele lavava o carro ela parada atrás dele olhava insistentemente tanto para uma esquina como para a outra. Eu estava quase nas gotas finais quando ouvi o ronco do motor de uma moto e vi a mulher se virar para o lado do som. O homem agora estava de joelhos lavando a calota do carro. Estiquei-me o máximo que pude, sem saber por que. Tentando ver por entres as frestas da janela o veículo que emitia aquele ronco. Não era um barulho alto. Mas naquela rua vazia se destacava no silêncio. Na moto havia duas pessoas. Vinham lentamente descendo a rua. Quando estavam quase chegando próximo a casa onde o homem lavava o carro um movimento brusco me chamou a atenção: A mulher fez um movimento com a cabeça apontando para as pessoas da moto o homem que no momento estava agachado junto à roda traseira do carro sobre a calçada, e depois disto caminhou de costas para dentro da garagem lentamente. A moto parou junto ao carro, o homem olhou para cima e o passageiro da moto colocou a mão dentro da jaqueta de couro que usava retirando uma arma. Apontou para o homem que ainda tentou esboçar uma reação, e disparou cinco tiros, sendo o último direto na cabeça. Depois disso a moto arrancou sumindo em instantes na outra esquina. O jato de urina havia sido interrompido ao som do primeiro disparo, pois eu até então não havia atinado ao que estava para acontecer. Ainda com o pênis entre os dedos vi a mulher sair calma e lentamente para a calçada tomando o cuidado para não pisar em nada ensangüentado, olhar para ambos os lados dirigindo depois o olhar para o homem. Seu rosto não apresentava nenhum sinal de desespero e isso fez meu estomago gelar. Os cães da vizinhança latiam incessantemente. Ela então deu um grito e os primeiros vizinhos começaram a aparecer entre gritos de outras mulheres. Apressadamente me compus e silenciosamente fui saindo dali em total desespero. De repente estaquei! Não podia sair assim com cara de louco. Tentei olhar por um vão no canto do tapume frontal da obra para verificar a movimentação das pessoas na rua. Não vi ninguém. Talvez o som dos tiros não tivesse chegado até ali, ou tivesse sido confundido com fogos de artifício ou o escape de uma moto ou carro, mas era impossível não ouvir os gritos desesperados da mulher na rua de trás As pernas começaram a bater descontroladas. Senti um frio no estomago e achei que ia desmaiar. Não pelo crime presenciado, mas pelo fato de estar numa situação deveras estranha num momento crítico. Saí o mais discretamente possível e fui andando calmamente, não ousando voltar pelo caminho que havia usado para chegar até ali. Tudo havia sido muito rápido e só agora as pessoas começavam a sair para a rua, correndo em direção aos gritos. Para passar despercebido acompanhei o sentido que as pessoas seguiam, mas não entrei na rua onde ocorrera o crime. Na esquina acendi um cigarro. A mão tremia. Segui em frente e fui andando quadras e quadras até alcançar uma larga avenida onde fiz sinal para vários táxis até que um se dignou a parar. Entrei rapidamente. - Para onde. senhor? Quase dei meu endereço! Mas, acabei dando o endereço de um shopping não muito perto nem muito distante dali, mas ao lado de uma estação de metrô. Ao descer nem acendi um cigarro. Literalmente corri para a tal estação e embarquei seguindo direto para casa. No caminho tentava não pensar no que tinha visto. Eu era TESTEMUNHA. Mas, vira coisas que ainda não compreendia. Haviam coisas desconexas, fora do lugar. A mulher parecia esperar algo! Seriam, os assassinos? Muito provavelmente, já que indicara a vítima com a cabeça e depois se retirara. E ao sair... mas, por quê? Quem eram aquelas pessoas. Minha cabeça rodava em conjecturas, e quando vi estava chegando em frente do meu edifício. Passei pelo porteiro direto sem quase cumprimentá-lo. - O seu jornal1 Não vai levar, seu Sérgio? Tem correspondência também. - Desculpe, estava distraído nem lembrei. Peguei minhas coisas e fui para a porta do elevador e apertei o botão de chamada. Estava no 10º. andar. Lentamente ele foi descendo. 9º., 8º. 7º. 6º. . Pelo espelho na moldura da porta do elevador vi Da. Gertrudes começar a subir os degraus em frente ao prédio. 5º. 4º. Mesmo sabendo que não adiantaria nada apertei insistentemente o botão de chamada. Tão lentamente quanto o elevador Da. Gertrudes subia as escadas. Estava quase na porta. 3º. 2º. 1º. 1º. 1º. O elevador havia parado no primeiro. Xinguei silenciosamente. Por que não subira pelas escadas. Sempre me esquecia das escadas. Da. Gertrudes já estava entrando. Térreo. Um casal que morava no 10º. andar desceu junto com a moça loira que dividia o apartamento do 1º. andar com uma prima do interior. Me joguei para dentro do elevador. A porta foi lentamente fechando. E então ouvi. - Segura para mim, Sérgio Hesitei, mas só um surdo não teria ouvido o quase grito de Da. Gertrudes. Segurei a porta e a abri. Quase sai, dando alguma desculpa para não ter que ficar seis andares na companhia dela, que pelo menos não estava acompanhada de Gigi. - Obrigado, Sérgio. Esses elevadores demoram tanto para chegar quando se está com pressa. “Eu que o diga”, pensei E mesmo que quisesse o volume de Da. Gertrudes emoldurado pela porta havia bloqueado qualquer tentativa de fuga. - Ainda bem que parou de chover. Saí para comprar pão. Foi dar uma volta ou foi almoçar por aí? Se bem que pelo que sei comeu algumas coisinhas na padaria pela manhã. Olhei com cara de bobo para ela. Ela falava sem me olhar, e sem parar. - Portanto você não foi almoçar! Logo... foi dar uma volta. Não que eu tenha alguma coisa com isso. - Como a senhora sabe que comi “algumas coisinhas”? - Ah! A Janete me contou. Acho que ela tem uma quedinha por você, sabe Sérgio. Ela me disse que hoje você não voltou para o prédio depois do café de sábado de manhã, como sempre faz. “Fofoqueiras!!!!!” E agora? O que iria dizer? Se bem que eu não devesse falar nada. - Fui comprar umas coisas no centro. Acabei deixando escapar. - E não comprou pelo visto. Já que está de mãos vazias. “Velha enxerida” Poderia dizer que já tinha deixado no apartamento e que descera para pegar o jornal e a correspondência. Mas, tinha certeza que ela iria descobrir rapidamente a mentira junto ao porteiro. 6º. andar. Salvo!!!!! - Boa tarde Da. Gertrudes. - Boa tarde, Sérgio. Saí displicentemente, me virando para dar um sorriso para Da. Gertrudes antes que a porta se fechasse totalmente. Ela me retribuiu com um sorriso enigmático, meio de censura e ao mesmo tempo divertido. Ela devia estar pensando mil coisas, mas não poderia nem chegar perto do que realmente havia ocorrido. Fechei a porta do apartamento, virando a chave duas vezes na fechadura e passando as três trancas na mesma. Arranquei a roupa e me atirei debaixo da ducha tentando tirar qualquer vestígio de minha aventura como se isso fosse possível. Nu, fui até a janela e acendi um cigarro. Desde o crime – “Meu Deus... um CRIME”- não havia fumado nenhum cigarro, tão alucinado estava para voltar à segurança do meu mundo, meu apartamento. Deitei na cama resistindo à vontade de ligar a TV. Tentando afugentar a nítida cena que pairava em minha mente, mas ao mesmo tempo tentando descobrir detalhes que houvessem passado despercebido. Como se eu fosse um detetive. Eu não tinha nada com aquilo. Tinha que parar de pensar. Peguei o controle remoto e liguei a TV. O jogo do sábado não começara ainda, não passavam das 14 horas. Fiquei rodando pelos canais ansioso, sem saber se queria ou não, de repente, me deparar com uma noticia sobre aquilo que vira. Mas que tolice... Quem era o cara? Ninguém, pelas circunstâncias do ocorrido. Não era famoso... Ninguém importante... apenas mais um número nas estatísticas da violência nas grandes cidades. Finalmente o jogo começou e tentei me concentrar e acabei adormecendo. Acordei na escuridão do quarto, completamente desnorteado. Teria sido um sonho? Que vã esperança. Levantei e liguei para o Disk Pizza. E após me identificar ouvi: - O de sempre Doutor Sérgio? Olhei para o telefone meio irritado e apavorado. O de sempre era uma pizza grande meia lombo com catupiry e meia napolitana, mais um refrigerante de 2 litros. Mas, estava completamente perturbado para pensar em outros sabores e confirmei o mesmo pedido de sempre. Fui à janela e fumei dois cigarros antes de ouvir o interfone tocar. Me vesti e desci. Desta vez utilizei a escada. De volta ao apartamento digeri dois pedaços de cada sabor sorvendo três copos de refrigerante. Deixei os outros oito pedaços para o almoço e o jantar de domingo. E tão logo havia me acomodado. desnudo novamente, na cama, começou o jornal noturno de sábado. E no meio das chamadas dos assuntos principais do dia... lá estava. - Policial assassinado barbaramente em frente de sua casa. POLICIAL!? Eu estava petrificado na cama. - O policial havia denunciado, há um mês, um esquema de corrupção em sua corporação... Acredita-se que o crime seja vingança... Queima de arquivo já que ele se infiltrou na facção criminosa que envolvia vários níveis hierárquicos da delegacia... “Deus do céu” então era isso!?” Despudoradamente me senti aliviado... - A viúva diz que estava na cozinha, nos fundos da casa, quando ouviu os tiros e ao chegar à porta da casa já encontrou o marido morto... E lá estava na tela a imagem da mulher que indicara o futuro presunto. - A vizinhança não viu nada... só perceberam algo ao ouvir os gritos da mulher... A Corregedoria da polícia civil irá criar uma equipe especial para investigar o caso... “Mas, que vadia!” Tive vontade de ligar para a polícia e fazer uma denuncia anônima, mas como saber se estaria falando com pessoas não ligadas a tal facção. Se minha ligação fosse gravada, rastreada... Eu tinha que parar com aquilo, já estava ficando totalmente pirado e paranóico. - O policial deixa um casal de filhos do primeiro casamento... Não! Não mesmo... havia algo errado naquele crime... a segunda esposa estava envolvida com certeza pelo que vira... quem eram os caras na moto... policiais envolvidos no tal esquema? Onde ela se encaixava naquilo tudo. Acabei quase fumando todos os maços de cigarro que tinha comigo naquela noite e fui dormir no meio da madrugada. Tive muitos pesadelos apesar de não me lembrar de quase nenhum. Mas, um me fez acordar já com o sol a pino. Eu estava de pé no meio de um vagão de metrô urinando enquanto Gigi puxava a barra da minha calça e Da. Gertrudes com um balde na mão limpava as janelas do vagão com um pano. Enquanto urinava comia um pão de queijo. Janete num canto do vagão se entrelaçava apenas de calcinha e sutiã no colo de seu Jonas. Do lado de fora do vagão o rapaz do Disk Pizza corria na plataforma acompanhando o movimento do carro enquanto carregava uma pilha de pizzas equilibradas de forma desordenada nas mãos. Eles me olhavam e riam. Levantei e fui ao banheiro. Tomei umas duas xícaras de café até ter coragem de me vestir e descer para comprar mais cigarros e pegar o jornal. Coloquei uma bermuda sem vestir uma cueca por baixo. Enfiei uma camiseta surrada e calcei um chinelo velho e desci pela escada sentindo as batatas da perna ardendo. Seu Jonas olhou pra mim e arregalou os olhos. Eu nem penteara os cabelos. Devia estar com cara de louco e vestido daquela forma tão... digamos diferente da minha roupa das manhãs de domingo. Olhei para ele e disse que já voltava, e ao invés de ir para a padaria andei cinco quadras em direção oposta até a banca de jornais da praça onde comprei três maços de cigarros. Mesmo não querendo olhei as paginas frontais dos jornais ali expostas como roupas em varais... e nos jornais especializados em tragédias lá estavam as imagens do cenário do crime. Fiquei tentado em comprar um... mas seria masoquismo demais. Voltei calmamente para o meu prédio e de lá não sai mais durante o domingo. Devorando a pagina policial do meu jornal. Catando o máximo de informações na internet. Até desfalecer de cansado já no início da segunda feira. Acordei com o despertador indicando 6 e 45. Barbeado e de banho tomado, e depois de dois cigarros e uma boa xícara de café, desci. Desta vez pelo elevador e graças a Deus sozinho. Mas, quando cheguei ao saguão me deparei com Da. Gertrudes conversando com seu Jonas. Assim que sai do elevador eles me olharam e pararam de conversar. Antes que eu chegasse perto do balcão para pegar o jornal Da. Gertrudes saiu em disparada para a porta sem me cumprimentar. Aliás, seu Jonas foi muito reticente ao responder meu cumprimento matutino e simplesmente me entregou o jornal com a cabeça baixa. Eu, hein! Que será que Da. Gertrudes anda aprontando pro meu lado?! Fui caminhando calmamente carregando minha valise com o jornal debaixo do braço. Trabalhava há umas 12 quadras de casa. Antes de entrar no prédio do meu escritório acendi um cigarro e fui ler as noticias nos jornais da banca em frente. E então meu mundo começou a desabar. O jornal falava que alguém havia visto um suspeito e dava a descrição: Meia idade, não muito alto, semi calvo, loiro, sem barba, usava uma calça jeans, uma camiseta branca e uma camisa xadrez preto e vermelha por cima. Tinha nos bolsos da calça alguns volumes estranhos. ERA EU!!!!!! Era disso que os dois no saguão estavam falando. Comprei o jornal e sentei num banco próximo. Quem fazia a descrição era o dono de um bar próximo ao local do crime. Dizia que EU havia entrado e tinha agido de forma suspeita enquanto tomava cerveja. Observando tudo e todos. E que depois havia saído em direção a casa do policial sempre verificando se não estava sendo seguido. Ah, Meu Deus!!!! De testemunha a suspeito... ou talvez o próprio criminoso. O pessoal do prédio sabia do meu sumiço no sábado e da roupa que eu estava usando. Tô ralado. E agora!? Trabalhei como um autômato naquele dia. A toda hora acessando as paginas de notícias da internet. Mas, só especulações. Quase não almocei. Quando deu 6 da tarde corri para o apartamento. Graças a deus seu Jonas já havia acabado o turno dele e Da. Gertrudes devia estar enfurnada no apartamento dela com medo de mim. Me tranquei no apartamento e fiquei direto na internet, e assistindo aos jornais. Nem tomei banho e esqueci do jantar. No jornal sensacionalista, de um determinado canal, o apresentador dizia que havia uma nova testemunha que estava depondo naquele momento na delegacia, mas que as informações não haviam sido divulgadas. Que era para ler os jornais do dia seguinte. Nem dormi naquela noite esperando o ultimo jornal, mas não houve nenhuma nova noticia. Teria que esperar o sol raiar. Passei a noite em claro e lá pelas 6 sai para pegar o jornal. seu Jonas nem olhou para minha cara. Subi apressado e li: “Um motorista de taxi havia se apresentado à polícia para prestar depoimento, em que revelava ter feito uma corrida para uma pessoa como a descrita pela outra testemunha. Que o passageiro estava nervoso, suando, e meio descontrolado, e embarcara próximo a casa do falecido. Que havia pedido para ir a um Shopping etc. e tal. Quase desmaiei. Comecei a suar frio. E agora. Comecei a pensar na Da. Gertrudes indo depor e falando coisas escabrosas de mim... Me joguei debaixo do chuveiro frio e fiquei o que pareceram horas ali. Tinha que ir me entregar, digo ir depor e dizer o que havia visto. Coloquei um terno rapidamente e sai do apartamento. Estava sem fôlego para ir pelas escadas. Apertei o botão de chamada. O elevador não demorou a chegar. Abri a porta e dei de cara com Da. Gertrudes com Gigi no colo. Ela levou um susto e recuou para a parede dos fundos do elevador. Quase se espremendo. Gigi tentou rosnar, mas Da. Gertrudes apertou o focinho dela e virou o rosto em direção contrária para não me encarar. Fiquei olhando o mostrador dos andares e tão logo chegamos ao térreo saí o mais calmo que pude. Me adiantando a ela e deixando-a passar. Ela passou por mim e saiu quase correndo em direção ao seu Jonas como se procurasse proteção. Passei por eles e desejei um bom dia claro e sonoro. Parei um taxi, embarquei e dei o endereço da delegacia. Era longe. Nem me preocupei com o trabalho. O motorista avisou que não era possível parar em frente à delegacia, pois estava cheio de carros de emissoras de TV. Sai do carro pensando que Da. Gertrudes havia ligado para as TVs avisando que eu ia me entregar... mas como poderia ela ter sabido? Fui chegando perto da delegacia e havia um tumulto. Os repórteres falavam uns com os outros. - Quem poderia imaginar? - Estão trazendo... - Daqui a pouco chega o camburão Eu não entendia nada. Quem estava chegando? - O cara entregou bonitinho... - Uma história de arrepiar. Nisso, chegou um camburão. Parecia filme. A polícia fez cordão de isolamento e de dentro saiu uma pessoa coberta por uma capa comprida. De onde eu estava não podia ver nada. Até aquele momento estava acreditando se tratar de outro crime. Mas, então fiquei na ponta dos pés e vi um par de pernas femininas por baixo da capa que escondia seu rosto. Quando ela chegou ao alto da escada, em frente ao prédio da delegacia, ela perdeu o equilíbrio, a capa escorregou um pouco e pude ver o rosto da esposa da vítima. Abri a boca, tal a surpresa. - A própria esposa... - Isso vai dar uma manchete maravilhosa amanhã... Minha cabeça girava. E agora? Fiquei ouvindo as conversas e fiquei sabendo de tudo. Segundo os relatos a esposa tinha um amante e aproveitara a roubada que o marido se metera ao entregar os amigos policiais e planejara o crime para assim culpar o pessoal da facção criminosa. Mas, a polícia acidentalmente havia pego um dos caras da moto numa boca de drogas e o cara acabara entregando tudo. Havia sido muito rápido, haja visto que a polícia tinha obrigação de livrar a cara de sua corporação. Já que eles não eram os verdadeiros culpados neste crime. Neste, pelo menos. Eu não era mais um suspeito e sim uma testemunha apenas. Estava aliviado. Esperei diminuir a agitação e entrei na delegacia de cabeça erguida. Me apresentei e disse o por quê de minha presença ali. Fui levado a uma sala e prestei meu depoimento. Contando que era o homem descrito e o que acontecera e o que vira. Tudo que contei não tinha nexo, pois a história na verdade era surreal. No começo devem ter achado que eu era um louco querendo as luzes dos refletores, mas eles acabaram confiando nas minhas palavras. Meu testemunho foi transcrito e o assinei. Me agradeceram e disseram que estaria arrolado como testemunha. Durante o depoimento tive que desligar meu celular, pois o pessoal do escritório não parava de ligar preocupados com minha ausência. Só pude retornar as ligações após sair da delegacia. Contei por cima o que tinha acontecido e disse que não ia demorar a chegar. Ao sair fui cercado pelos jornalistas que já haviam sabido do meu depoimento. Falei algumas palavras e escapuli. Peguei outro taxi e fui direto pro escritório. Quase não trabalhei, pois passei o dia contando e recontando a minha história. Passei a ser o alvo das atenções. E aquilo me ajudou a relaxar... No fim do expediente tive que me livrar de alguns colegas que insistiam que fossemos tomar umas num barzinho. Estava voltando para casa quando percebi que estava sem cigarros e antes de entrar no prédio fui até a padaria. Lá estava Janete no balcão atendendo. Quando sai de lá ela veio atrás de mim. - Eu queria pedir desculpas, seu Sérgio. - Desculpas? Por quê? - No sábado eu disse para Da. Gertrudes que o senhor não tinha voltado como sempre para casa depois do café aqui na padaria. Falei por falar. Mas depois... - Depois..??? - Ela veio com umas conversas sobre um... - Crime?! - Sim, seu Sérgio. Acho que o senhor já está sabendo... ela andou espalhando coisas... E eu to me sentindo culpada... que fui eu que comecei isso. Mas foi sem querer seu Sérgio. Ela é muito fofoqueira e maldosa. - E você vem falar isso para mim? Não tem medo que seja verdade? - Claro que não, seu Sérgio. A gente conhece as pessoas. E não teria lógica o senhor sair daqui para matar um policial lá naquele bairro. O senhor é uma pessoa boa... e tenho certeza que logo tudo isso vai ser resolvido. - Mas, uma testemunha, aliás, duas pessoas dizem ter visto alguém como eu por lá. - Mesmo que fosse o senhor, tenho certeza que isso não quer dizer que tenha sido o senhor. Olhei para ela de boca aberta. - Obrigado, Janete - Me desculpa? - Claro. No dia seguinte dava em todos os jornais e TVs a minha foto e o meu depoimento. Passei a semana tranqüilo e por sorte não topei com Da. Gertrudes. Seu Jonas me olhava agora todo envergonhado. Sábado vesti um shorts, uma camiseta regata, enfiei um tênis e fui tomar meu café. E antes que Janete perguntasse, falei: - Um café puro e um pão com manteiga na chapa. Ela olhou para mim não assustada, mas feliz. - Janete! O que você vai fazer hoje à noite? E ela sorrindo disse: - Acho que vou ao cinema... depende do senhor. - Você sai a que horas? Voltei para o prédio como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. Meu sábado seria diferente. Subi os degraus em frente ao prédio meio saltitando. Cumprimentei o seu Jonas ao pegar o jornal e ele quase desmaiou. Tava desculpado. Fui para o elevador. Apertei o botão de chamada. Estava no quinto. Olhei pelo espelho e vi Da. Gertrudes chegando com Gigi nos braços. 4º. andar. Ela subiu os degraus. Eu não pensei em fugir pelas escadas. 3º. andar. Ela havia chegado à porta do prédio. 2º. andar. Eu não tinha pressa. 1º. andar. Ela estava em frente à portaria. Térreo. Abri a porta o máximo que pude. Apertei o botão do meu andar e me virei de frente pra porta que lentamente fechava. Ouvi Da. Gertrudes gritar: - Segura para mim, Sérgio! Olhei para ela, acenei um adeusinho e disse. - Animais só pelo elevador de serviço. Tive o prazer de ver sua cara de espanto, enquanto a porta fechava e o elevador começava a subir.
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Comentários dos leitores

Uau, o rapaz foi descrito na perfeição... E depois da crise de solidão (iguala um amigo meu), uma namorada............... Dona Gertrudes pelo menos teve um grãozinho de utilidade.

Postado por lucia maria em 14-10-2012

Muito longo, mas envolvente. Gostei muito.

Postado por Annacelia em 03-10-2008

Assim como o anterior, tenho a certeza de que esse conto também será um sucesso! Continue escrevendo. Parabéns!

Postado por Edylena em 30-03-2008

Nossa, mt bom, suspense, eu nao parei de ler até descobrir o final da história, mt bom, amei...parebéns!!! =)

Postado por nexukka em 02-03-2008

Nossa, mt bom, suspense, eu nao parei de ler até descobrir o final da história, mt bom, amei...parebéns!!! =)

Postado por nexukka em 02-03-2008

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