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SONHOS DE MAR



					    
Vivia à rés da costa o velho arrais. De rosto moreno, tostado pelo sol e pela maresia, era figura popular naquela aldeia de pescadores. Todos lhe perguntavam pelo tempo! O Mestre Manel Marujo subia a açoteia, olhava os astros e lá dizia: - Tá sueste! Tá levante! Bom tempo, bom tempo é p’ra quem se est’riça ao Sol! Figura simpática, afável e bondoso, quando cozia as redes ou arranjava “o aparelho” as crianças rodeavam o Ti Manel, que lhes falavam das estrelas, dos astros e lhes contava lendas e histórias muito belas. E quando alguém lhe fazia, a velha pergunta: - Ti Manel como vai o tempo? - Ora, ora ... eu sei mais que o “ Boletim Mentirológico” - dizia com certa malícia. Depois... ele lá dava os seus esclarecimentos, tão utéis, como a folhinha do “Borda d’Água”!... é que o Mestre de Pescas, nascera mesmo à beira-mar e outra vida não tivera se não a vida do alto-mar! As crianças, tal como ele, falavam com as estrelas nas noites de luar! Fitavam a abóbada celeste e cada uma dizia sempre esta lenga-lenga, para fazer qualquer pedido: - Estrela que eu estou fitando, e tu me estás a fitar, diz-me estrelinha, sem sair do teu lugar, se o meu pescador tornará a voltar, ou se irei com ele casar, que eu oiça cães a ladrar, portas a bater e homens a assobiar... O pescador quando as crianças faziam os seus pedidos, assobiava, sem que elas percebessem... era então uma alegre algazarra em que diziam: - Mestre Manel, a estrelinha vai atender o meu pedido! Ele adorava aquele “bando de passarinhos” que faziam castelos de areia, na sua praia e fazia-lhes barquinhos de cortiça para brincar! É que aquelas crianças não tinham brinquedos, se não os que a sua imaginação e arte compunham: bolas e bonecas de trapos, loucinhas de barro moldado por suas mãos, papagaios e barquinhos de papel... que se desfaziam na água... que os barquinhos do Mestre Manel, dançavam na água sem se desfazer!... E o amor com ele os pintava! E de vez em quando fazia a sua trova... Ti Manuel a fabricar... P’ra aliviar a preguiça Um barquinho de cortiça Para os meninos brincar... Mas... apesar de brincalhão, o velho pescador sensível à Natureza, meditava... olhando o mar com os olhos vidrados pela saudade da vida ausente que levara, quando fizera as suas travessias pelo mar até ao Brasil, a Angola onde havia cumprido quatro anos de serviço militar, porque era necessário combater no Ultramar. Mais tarde após a queda de Goa em 1961, ainda estivera um ano na Guiné. Depois fora tentar a sua sorte como emigrante, percorrendo diversos países do estrangeiro, onde aprendeu que a vida nem sempre é fácil ao homem do mar, em qualquer parte do mundo! Que recordações! Para onde o levara o velho sonho de marinheiro! O seu sonho de mar levou-o sempre mais longe. Recordava o seu avô que lhe ensinara de pequenino alguns segredos dos anzóis e de rotas, e o levava para a pesca do atum. Olhava a velha ilha onde decorria o copejo... verdadeiras touradas no mar! Via junto das barracas de colmo, os velhos apetrechos a um canto, pousados, como esqueletos, empoeirados e retorcidos, as velhas ferramentas enferrujadas pelo desuso dos pesqueiros que agonizavam... Também ele voltara de novo ao mar, de marujo a pescador, o mar é o seu Senhor! Comprara um barquinho, onde se entretinha após e reforma, no pesqueiro junto à ria. Sempre dava para o gasto da casa... Mas tudo tem um fim e a sua barca também acabou por ficar ancorada no extenso areal, onde o pescador vira sucumbir a sua amada... Quantas vezes a pintava com amor como se fosse uma donzela...retocava-lhe os olhos pintados à proa, e a farta cabeleira da lancha afagava ternamente... Deslocava-se diariamente à praia onde admirava o mar distante...como se o seu sonho de marinheiro fosse imorredoiro, e murmurava: - Minha linda barquinha! Meu sonho de marinheiro! Enrolava o seu cigarro, olhar vidrado no cenário cinzento-azul do mar sereno. Nuvens não havia, as suas fumaças evolavam no ar em esparsos rolos brancos. Num repente, o silêncio daquele lugar, foi cortado pelo som dum barco a motor que se aproximava da terra, e os pescadores saltavam de bordo do barco, de fato e de sapatos... - Olha lá p’ra isto! Onde é que já se viu! Os pescadores com “farpela” de andar em terra! Sem botas de rangedêra, nem abaiós, nem jampla, nem foquim no braço, armados em “pipis”!... Ao domingo, é que se andava assim, p’ra ir à missa! - Dá-me mesmo vontade de chamar o cabo de mar! - Quer dizer que o delegado marítimo era pior que as “encomendas”, não podia ver aquelas prendas! Até parece que não foi embarcadiço! Até a sua ilha já não era a mesma! Agora... até elas... andam lá “em plão”, como Deus Nosso Senhor as deitou ao mundo! Cruzes diabo! Ao longe, avistavam-se barracas e sombrinhas de várias cores a contrastar com as palmeiras e coqueiros, a areia branca e as casas de alvenaria, davam uma nota de modernismo... - Aquilo... daqui a pouco era um aldeamento turístico! As barracas de colmo eram já raras. Era o progresso... Ou era o retrocesso? - pensava ele. - Ai! Vida! A minha ilha, onde era lindo ver o copejo do atum, agora é tudo deles! Ainda se cuidassem dela com mais amor! - O que resmunga, Mestre Manel? - perguntava um pescador que passava com um xalavar às costas e dois cestos de verga, cheios de conquilhas. - Ai vens da conquilha, Chico? E olhando os cestos... - Tamém tu apanhas a criação, condenado! Já tás a fazer o mesmo que os turistas que arrasam tudo, até o “bregão encócado” apanham! Ainda por cima vão aos “vevêros” alheios. - Para eles as levarem... antes eu, não acha, compadre? - responde este impávido e sereno. - Tudo faz isto, é algumas praias não terem vigias... e falam eles de segurança, a nossa...nem uma bandeira azul tem. - Eu até lhes punha uma encarnada, só para eles não levarem o que é nosso! - E o Cabo de Mar, homem de farda, também não se dá ao respeito! - No meu tempo de marinha, respeitava a farda! A farda e a bandeira nacional! ...................................................................................... Passado algum tempo a ilha tornou-se quase numa cidade - a grande cicatriz do areal. Enquanto isso o Mestre Manel sonhava com a sua ilha isolada do mundo, sem poluição, sem lixos... Imaginava plantar nela um pinhal, um mundo verde-azul dos seus sonhos... Na Barca de Sonhos, O Ti Manel Marujo compunha as suas telas na tela do coração. Naquela calmaria parecia escravo da Saudade! Tudo parece um sonho quando o coração levita e dança sobre ondas suaves do pensamento... Um dia o seu mar galgara a ilha, todo o casario se desmoronou. Um enorme vendaval destruiu tudo! As casas de alvenaria ficaram soterradas com a fúria dum ciclone... Apenas ao longe... o oceano cantava a música do levante... - Deus Nosso Senhor tem grande poder! - dizia o pescador ao mesmo tempo que tirava o boné e elevava os seus olhos ao Céu! Depois o mar serenou numa acalmia, lembrando um lago prateado... Nem as gaivotas sobrevoam o céu! Era a Terra e o Mar em bebedeiras de azul... Ao longe, o pescador vislumbra um barco à vela que se aproxima cada vez mais do cais! E o pescador sai ao seu encontro! E o pescador chorou... porque encontrara a Barca da Vida, pincelando no seu rosto pinceladas de alegria! No seu rosto uma lágrima marina de Saudade! Nesse instante o mar abriu as portas à Poesia! Porque o seu mar é tão imortal quanto ela! E o seu sonho de marinheiro continuará latente em cânticos de mar!
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