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O TI MANEL, O RIO E A VIDA



					    
O Ti Manel adorava a labuta do seu rio. Diversas vezes fazia o percurso na sua lanchinha, agora encostada à beirinha da Ria Formosa… Ah! Se ele recordava as velhas fainas das pescas! Partia-se-lhe o coração ao recordar a pesca atuneira, em que ele fora hábil no copejo do atum!,,, Preparava a sua namorada – a lanchinha – pinta-lhe os olhos (sim, porque as embarcações tinham olhos à proa) como se fora donzela na sua “manicure” e ajeitava- lhe a cabeleira, com tanta ternura! Quando as marés eram baixas e o Gilão se vestia de verde pela jusante, seguia o percurso do rio, entre salinas e sapais até à longa restinga de areias brancas, cortada a sueste pela feroz barra. E lá andava o Ti Manel pelo canal afora a “merraça” para dar ao seu burrinho. Fixara a sua residência, uma casa térrea de telhado original, junto à margem do rio. Um palmito de terra que o Ti Manel que já deixara a faina há alguns anos, entretinha- se no amanho das suas terras. A reforma era fraca e ele tinha de se entreter para “curtir a sua amargura. Tivera um filho embarcadiço que conhecera o mundo e os maus vícios. Quis sair da casa paterna levado por uns “estrangeiros” e na sede da aventura… a droga seduzira-o… Quando o velhote se lembrava dele, uma lágrima furtiva, corria pelas suas faces enrugadas, num rosto queimado pelo sol e maresia…. Daquela ponte romana. quantas vezes o Ti Manel ficava a murmurar: - “Já vai tudo morrendo! … Até o meu Rio, a pesca… que é dela? Os peixes? Ah! Condenados! Matam a criação! São os esgotos, os detergentes! Tanta “maineca” ! A pobre da minha mulher fazia “barrelas” e ia lavar a roupa à “rebêra” ! Agora a amêijoa a morrer… ainda faltava mais essa! Na basta a “ladruáge”! Tinha um pequeno viveiro junto das Quatro Águas que só lhe dava apoquentações! Um certo dia, quando estava sentado na ponte romana, cogitava em surdina, quando se acercam dele um grupo de estudantes. - Bom dia! O Senhor pode conceder-nos alguma atenção? O ti Manel senta-se melhor, abre mais os olhos e observando as raparigas, exclama: - São estudantas ? Ou daquela gente dos jornais que anda “por qui e por li” a querer saber tudo? - Somos de facto estudantes e estamos a fazer pesquisas e entrevistas, sobre problemas locais e do meio ambiente! - Olhem minhas donzelas, vocês falam à politica … mas eu não! Nunca andei na escola … e certa linguage de estudes eu não entendo. A “lenguage” que eu percebo é “d’aguáge”, de marés … e agora a maré esta morta! - Então significa… que estamos na baixa-mar? exclamam as raparigas. E continuava … mai quando a maré enche tudo, isto fica tudo mais composto! - Realmente, Tavira com o Gilão, faz-nos lembrar a cidade de Veneza2 – murmuram todas elas. - Se calhar Veneza, não tem mai engrejas que a gente e têm lá o Papa! - Mas tem a Basílica de São Marcos!... diz uma das estudantes. - Mas a mania que esta gente tem de comparar as nossas coisas com o estrangeiro! A gente em coisas que eles tamém na têm! Temos cinco conventos e quinze igrejas e até temos a Casa das Artes! O ti Manel muito amante da sua cidade, repetia… Vejam além meninas… aquelas lindas janelas de sacada, as portas de reixa com escadinhas e os telhados de tesoura! - De facto vocês têm um rico património! – murmura uma das interlocutoras. - Se tem o património, não sei, mas nós temos a capela do Santo António e o Convento dos Capuchos e lá existiu uma Torre de Atalaia para a vigia da costa. Agora até os espanhóis e nortenhos … arrastam aí tudo da nossa quota marítima! - Sim senhor! Nós queríamos saber precisamente acerca desses problemas locais e sobre o vosso passado histórico… diga-nos Ti Manel algo sobre a pesca do atum…lembra-se? - Ah! Se m’ alembro! Não há dia nenhum… e sabe o que le digo…o peixe da nossa costa e do nosso rio… qualquer dia não há nenhum… não vê que os arrastos matam a criação… para não falar das marés negras do pitrol, do gasoile e de tanto carro que anda p’rá aí! Antigamente, ninguém tinha carro! Andávamos a pé , de carro de mula, de burro… agora por isso o meu burrinho já deve estranhar a minha demora! - O Ti Manel tem um burro? Dizem que os burros estão a desaparecer! É verdade, meninas… hoje ainda se vêem alguns pela estrada… mas são usados pelos ciganos. Felizmente, eu ainda tenho um! - Para que quer o Senhor Manel um burro? – perguntaram. - Para que quero? Então não vê que o burro é a minha salvação para transportar os legumes, as batatas, as cebolas… pró mercado? - Ah! O Ti Manel também ama a Natureza! - A Natureza e os anemais! Qualquer dia vou restaurar a minha nora e o meu burrinho há-de tirar água da nora com dantes! A escassez da água é muita… os alcatruzes da nora sempre deitaram alguma! E a “rebêra” da Asseca tá mesmo quase seca… tantos furos que há para aí , aqui no Algarve muitas águas estavam impróprias para o consumo, mai vá lá que a nossa não! Mai a seca no Algarve é grave e sempre foi assim, mesmo no tempo dos aguadeiros! - Olha que engraçado, não podíamos ir ver a sua nora e tirar umas fotografias? - É só as meninas quererem… Então, venham daí que o Ti Manel vai mostrar-lhes o seu pedacinho de terra. Eu tenho uma nora antiga, mas agora para as regas fazem “furos” e cada vez há menos água… e também muitos desperdícios… essa é que é essa… E lá seguiram acompanhadas do Ti Manel, um excelente conversador que ia muito feliz por poder mostrar as belezas da sua terra e da suas artes. Pelo caminho foi conversando com as raparigas. À medida que avançava ia indicando pontos de interesse. - Vêem além aquele casario? Ali trabalhei eu, no atum. Havia varias armações: a Abóbora, o Barril e Livramento… depois com o desaparecimento do atum. Dediquei-me à pesca com redes e “merjonas” mas depois algumas artes foram desaparecendo… Ainda andei aos alcatruzes em Santa Luzia no tempo que havia muito polvo e depois passei mariscar… conquilhas, amêijoas, berbigões, búzios, carcanhóis… comprei depois um viveirozinho, mas os problemas continuam… a amêijoa morre e ainda nos roubam. Não dás o custo para a avaria! - Bem, já chegámos! Façam favor de entrar! Abriu a portada e levou as raparigas pelos lados do quintal – uma pequena hortinha que ele tratava com esmero. - Isto é tudo talhado à enxada! – diz com um certo ar de satisfação. - O Ti Manel ama a Natureza! – exclamaram as estudantes ao ver aquele maravilhoso recanto de plantações: batatas, cebolas, feijão verde, grão debico, melões, melancias, etc… E que lindo corredor de parreiras enfeitadas com lindos cachos de uvas!... - Venham! Venham cá ! - gritava o Ti Manel com um cestinho enfiado no braço, a apanhar figos numa figueira…vão provar os meus figos “braçajotes” que é uma especialidade! Ali… já eu tenho uns de secar sobre aquela esteira ( e indicava o sitio) para o Inverno meter um figo na boca… olhem meninas, digam lá o que disserem eu não troco nada pelas minhas queridas árvores: as amendoeiras, as alfarrobeiras e as figueiras que não deviam deixar morrer no nosso Algarve! É pena que já não haja pessoal e que estejam a destruir certos campos para a construção! Que falta de espaços verdes! - Mas olhe que em Tavira , o património cultural está a ser preservado! O vosso presidente faz gosto em manter o estilo das casa, os telhados, as portas de reixa! – diziam as raparigas. - Também o que vale é que Tavira é uma das cidades algarvias em que a tradição se vai mantendo! - O Ti Manel vive sozinho, não tem família? – pergunta uma das raparigas. A minha família é o meu burro e um cão. A minha mulher que Deus haja, morreu há dois anos, minada pelo desgosto… e dizendo isto, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos e correram rebeldes pelo seu bondoso rosto. - Saibam Meninas, foi o filho, o filho…os soluços emudeceram-lhe a voz! - O Ti Manel estava tão satisfeito e num repente tudo mudou… agora nós já lhe causámos mal sem querer – dizem as raparigas com mágoa. E o Ti Manel cheio de coragem , exclamou: - Foi o meu filho que se meteu naquilo… foi ele, foi ele,… De novo as lágrimas teimavam em cair pelo seu rosto bondoso num misto de raiva e dor… aqueles malandros… aqueles patifes que estragam a juventude haviam de ser queimados! As raparigas tentaram animar o bondoso Ti Manel e carinhosamente afagaram-lhe o rosto Quantos pais sofrem como este homem a dor de ver um filho perder-se perante os flagelos da humanidade… - Deixe-lá que pode haver ainda uma solução! Nós vamos despedir-nos e um dia voltaremos… quem sabe! Passados alguns anos… o ti Manel recebia a seguinte carta: Ti Manel Recorda-se de nós? Somos aquelas estudantes que em tempos, passámos uma tarde aí na sua casa, ouvindo as suas histórias. Nessa altura estávamos envolvidas num Projecto de Prevenção da Toxidependência . Tentámos averiguar quem era o seu filho, procurámo- lo…e, conseguimos através de uma Instituição de Recuperação o milagre da sua cura. Brevemente irá ter um novo ajudante para a sua linda hortinha. Aqui, tem sido ele que tem plantado as árvores no nosso jardim porque aprendeu a amar também a Natureza. Fazemos votos para no seu Algarve, as árvores que tanta ama, sejam sempre preservadas, como é a sua cidade de Tavira. O seu filho lhe dará uma ajuda. Um xi-coração! Até Breve! Amiga Dedicada Joana E o Ti Manel ficou muito feliz a aguardar o regresso do seu querido filho. Mais vale tarde que nunca! O bom filho à casa volta! “Filho és pai serás, como fizeres assim acharás”
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