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O REGRESSO DA ESCOLA



					    
Alertando o “cavalo do tempo” o velho relógio cuco, continuava a cantar repetidamente… sem nunca parar… a avaria do relógio de estimação ainda não havia sido consertada. - Valha Deus! - exclama a Mariana entrando em casa. A minha mãe esqueceu-se de levar o ao relojoeiro para o consertar. - Tenho de ir ao Infantário buscar o Pedro, mas vou já parar este cuco que não pára de cantar! E pensava em voz alta: - Vou primeiro buscar a Isabel! Isabel era uma linda rapariguinha de cabelos castanhos encaracolados, faces rosadas e olhar sorridente. Tinha apenas onze anos de idade e havia iniciado o ensino básico. A escola onde frequentava o 5º ano, distava da sua residência cerca de dois quilómetros aproximadamente. Situava-se junto de uma estrada de enorme afluência de trânsito. A mãe – a Mariana, mulher sempre receosa, nunca estava tranquila, pois sabia os perigos que corriam as crianças que frequentavam aquela escola. Por isso, ia sempre esperar a filha à saída escola. Ao ver aquela enorme fila de transito engarrafado, exclamou: - Bem queria ela vir de bicicleta para a escola! Deus me livre! Com tantas desgraças por essas estradas e tanta inconsciência de alguns condutores. E as faixas do piões mesmo no cruzamento das ruas! Era uma mãe consciente dos inúmeros problemas deste mundo tão agitado. Procurava ser uma mulher prevenida e vigilante. Naquele dia, Mariana atrasara-se um pouco. Dirige-se ao seu automóvel vermelho que estava estacionado frente à sua porta, entra no carro e põe-o em movimento. Depois de um ligeiro percurso de dez minutos, pára junto do portão da entrada principal do estabelecimento de ensino. Nesse momento, ouve-se um toque de sineta, talvez de saída. A Mariana aguarda ansiosa a chegada da filha, como era hábito. As crianças saíam da escola como passarinhos em bando… acolá do outro lado do bloco principal um enorme enxame de abelhas diligentes, sorridentes como o sol radioso do Algarve, alegres, buliçosas, corriam… corriam… Por toda a parte um mundo multicor! Olhando à sua volta, via um arco-íris colorindo os seus sonhos! Mais além um grupo de alunos rodeavam um professor e, acercavam-se dele, com um enorme à-vontade, quase impedindo-o de entrar para o seu carro que estava estacionado dentro da escola. - Eh!... Professorinho! Gritava um eufórico com ar de chacota. - Não faça o teste muito difícil! Veja lá se nos quer tramar! Alguns de maior timidez, jogavam ao “berlinde”…Mariana ficou a recordar e idade em que também saltava à corda, jogava à cabra cega, ao Padre Cura, ao mata, ao balhe- balhe, ao Jardim da Celeste, no recreio. E as rodas com as cantigas populares! E o hino nacional que tínham que aprender! Enfim… dentro do seu carro, via à sua volta um novo mundo! Enquanto aguardava perdia-se nas “dobradiças do tempo”… Aquele era o palco das mais lindas cenas infantis da nossa vida! Lá ao fundo avistou a Sandra, companheira de Isabel que ao vê-la se dirige e exclama: - A Isabel, vem já, está a acabar o teste… Sabe, foi muito extenso e complicado. - Obrigada Sandra! Queres vir connosco, entra ! –murmurou. - A minha mãe ficou de vir hoje buscar-me e eu aguardo, obrigada! – acrescentou. Não teve outro remédio senão esperar, ligou o carro para ouvir o rádio e o noticiário regional fez ouvir-se. - Vão iniciar na próxima semana as aulas de recuperação. Os novos cursos de alfabetização também estão abertos a concurso em todas as escolas algarvias… - Ainda bem! - murmurou com alegria - Na minha terra ainda há muita gente analfabeta! Vá lá que eu ainda fiz a quarta classe. E ficou a pensar… também para se ir à escola não havia transporte como hoje! Os estudantes tinham de apanhar o comboio, muito cedo para a capital algarvia porque só lá existia o ensino secundário e liceal. . As crianças não tinham acesso fácil às escolas, porque estas eram afastadas da sua residência. Algumas caminhavam quilómetros e quilómetros a pé, por vales e atalhos, montes e encostas, caminhos velhos e pedregosos… Como tudo é hoje tão diferente! Observava mais além, junto ao portão da entrada lateral. Um grupo de jovens, fumavam seus cigarros que passam de boca para boca! - Jesus! Virgem santa e bendita! Se a minha avó viesse a este mundo… morria outra vez de susto. E o meu avô? Esse dizia logo: .- “ Neta, não faças isso, quem fuma são as mulheres da vida!” Tudo estas interrogações passavam pelo mente da Mariana. Quantas vezes se interrogou, sem saber que “mulheres da vida” eram essas? Num mundo tão estreito, onde a cultura e a liberdade, eram compartimentos estanques e vedados! Nas escolas, os rapazes nem podiam aproximar-se das raparigas, nem nos corredores, nem havia turmas mistas, nem a duzentos metros da escola!. Associava os seus pensamentos à pouca liberdade dos sexos. Ainda se recordava da bata branca que tinha a prima Zélia que estudava em Faro na escola preparatória e usava um lacinho azul de bolinhas brancas que punham ao pescoço. Era o distintivo das meninas da escola preparatória. O liceu era mais fino. Num repente, surge a Isabel muito corada e agitada. - Mamã! Vamos! Foi um teste que foi um disparate! Ainda por cima, tivemos três no mesmo dia! – explica a Isabel. E acrescenta de seguida: - Mamã, aguarda um pouco, mais uns minutos, que me esqueci de comprar a senha para o almoço de amanhã! Não estou para comprar amanhã mais caro! - Vá lá Filha! Quanto mais depressa mais devagar! – diz a mãe resignadamente. Ficou olhando de novo a saída dos alunos… surge à sua frente, um grupo de jovens de cabelos compridos e viola na mão. Ao ver aqueles rapazes de cabelos longos recordou as suas lindas tranças! E o que chorou ao cortá-las! Guardou-as religiosamente, durante anos, numa caixinha sagrada, aquilo era uma relíquia… Por fim, andou emprestada como “postiço” para o Carnaval e nunca mais soube dela. Relembrava quando a havia cortado, tinha ido no comboio à capital, fazer a primeira “ondulação” de permanente – uns ferros muito pesados sobre a cabeça… era a moda “a carapinha” (ondulado que parecia o cabelo das africanas ) O comboio levava estudantes para Faro que durante o percurso aproveitavam para folhear os livros. As máquinas do comboio eram a vapor, deitavam rolos de fumo parecendo flocos de algodão e lá ia apitando, apitando… fumando as campinas, como se fosse o rei dos transportes… - Que é lá isso? - exclamava um homenzinho carregado de alcofas e cestos que seguia para o mercado. - Já parece o mê burro a zurrar, quando tá a burra nas couves! Era o Ti Zé, vendedor ambulante, sempre folgazão e humorístico, que conhecia toda a gente e nunca estava calado. - Pronto! Já aqui estou! Isabel interrompia de novo o curso dos pensamentos da mãe. - Até que enfim! – disse Finalmente, a viatura inicia o regresso a casa. Pelo caminho mãe e filha, de vez em quando, conversavam e faziam reparos aos sítios por onde passavam. - Já viste Mãe, o bairro que estão a fazer, com uns grandes blocos de cimento na Quinta das Amoreiras? Destruíram as vinhas famosas e a vista da ilha do mar! Olhando o bairro em construção e ao fundo da quinta ainda não tinham arrancado a velha amoreira, onde tanta vez íamos comer amoras quando crianças… Os seus olhos marejaram-se de lágrimas que a custo tentara conter… Comíamos tantas amoras que os lábios ficavam pintados que nem batom e divertiamo-nos imenso! Era lá que a “miudagem” ia buscar as folhas de amoreira para os “bichos de seda” Era um entretimento das crianças de outrora que não tinham outros brinquedos…Guardavam em caixinhas de papelão e tratavam os bichos com muito carinho, no acompanhar das suas metamorfoses! Que teatro de inefáveis venturas viviam na quinta da Tia Luiça! E a velha nora… Tinha sido já aterrada… que tristeza! Mais adiante no caminho velho, um estreito carreiro, onde tanta vez com seu pai, vinha para a escola montada no burro. Vendo aquele caminho de pitas e cheio de pedregulhos, dizia à filha: - Vês Isabel, lá mais adiante aquele caminho pedregoso, além à esquerda? - Por ali, me levava o teu avô à escola, porque ele não queria ter família de analfabetos. - Basto eu, - dizia ele, que tive de trabalhar bem novo para ajudar o meu pai na lavoura, tinha de ajudar nos campos, cavando a terra e semeando, de sol a sol, para termos o pão de cada dia. Por isso nunca pude ir à escola. - Não há nada mais triste que não saber ler! Mas os meus filhos vão aprender, eu juro! Ele compreendia que a pessoa sem saber ler, era ignorante e sabia apenas o que passava sem eu redor. Ele tinha ânsia de saber. Mais tarde, quando os filhos sabiam ler, punha-os à lareira, a ler histórias para ele ouvir1 Ficava maravilhado! Também nos contava que ainda tinha ido aprender umas letras numa escola particular mas a mestra era muito má, batia nas crianças com uma régua de madeira grossa, pesada, quando não sabiam a tabuada, e, punha-os à porta, sentados numa cadeira baixa de tabúa, com umas orelhas de burro feitas de cartão. Era motivo de chacota para quem passava na rua e via aquele triste espectáculo. Esta situação mesquinha e o medo, amedrontava as crianças e assim muitas, tal como ele, haviam desistido de ir à escola. .................................................................................. Bem, Mãe, estamos a chegar! E basta de histórias! – interrompe a Isabel de novo. - Chegámos ao Infantário! Vou buscar o Pedro! Afinal, ali era outro mundo. As instituições sempre contribuem para o enriquecimento das crianças e ajudar os pais. A educadora de infância foi buscar o Pedro, que estava aflito com a demora da mãe. Levou-o pela mão até ao automóvel. - Estava muito impaciente com a espera, mas esteve entretido depois a fazer o nome dele! - Não me diga que já sabe escrever o nome dele! - Sim, ele é muito esperto, veja em casa o caderno. A alegria da mãe era enorme com o progresso do seu filho. Que bom poder deixar os filhos onde a formação se faz de forma diferente, onde há espaço par um convívio alargado no seu mundo infantil. Ela que havia ficado sempre com os avós! Regressava a casa feliz comos seus filhos. Só é pena que os filhos não aproveitam às vezes as facilidades que lhes dão! Com o Pedro pela mão saiu do carro e entram em casa. Entretanto, a Isabel diz à mãe: - Sabes, Mãe, enquanto fui buscar o Pedro ao Infantário. Fiquei a pensar na profissão que vou escolher! - Quero ser Educadora de Infância! Se não fossem as instituições que hoje existem, o que seria das crianças? - É verdade, minha filha, são hoje em dia um bem necessário. A mãe muito feliz no seu regresso a casa, murmurou: - Bem hajam os professores que lutam a favor da instrução! Alfabetizar é educar! Bem hajam os educadores! E o Pedro ainda com cinco anos, murmurou inconscientemente: Amem! Os seus avós, se é que lá do Céu os poderão ver, certamente estarão mais felizes por terem contribuído para assegurar a continuidade dos estudos, com sua maneira de pensar e agir e de transmitir os seus desejos às gerações sucessivas. Como diz o velho ditado popular: “Lá vem de trás quem nos empurra!"
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Comentários dos leitores

Recordar é ficar com um pé no foi e o outro no é ou no será. Bonito Gostei.

Postado por lucia maria em 09-10-2012

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