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PERDER-SE NA MULTIDÃO



					    
A partir de ter que dizer literalmente “EU-me-perdi-na-multidão”, ELA criou este símbolo, significando pessoas que desaparecem do seu convívio vida a fora. E passou a uma certa insegurança hipotética (pouquinha, em ansiosa dor menor antes de acontecer...), se esta, essa ou aquela pessoa irá viajar para muito longe, abandoná- la, até mesmo subir na balsa de Caronte e depois descer ao Hades, para sempre, sem retorno. Foi assim. Casou e por três anos ainda não conhecia familiares do marido, num Estado nordestino muito grande. Acertaram uma viagem e passou a trocar correspondência com três cunhadas do marido. Baixa instrução perdoa-se, não arrogância, prepotência, despeito e deboche “contra” as capitais do Sudeste. ELES passaram uma temporada de mês e meio no sertão rude, fartura de água naquele ano, verão absoluto, marido e ELA criticados por tomarem dois banhos diários. Poço municipal gigantesco, dois poços naturais em casa. E as roupas?! Na mentalidade dos familiares, não podia nada: “mulher que usa roupa de alça estreita feito barbante, camisola curta para dormir e sandália dourada não presta!” – porque as do sítio não usavam e tentavam passar o atraso mental para as crianças: futura geração. ELA se afinou com os menos favorecidos, os lavradores sem-terra, os que dormiam em redes e cuja louça era de barro, latas de leite condensado transformadas em canecas – sem filosofia complicada de vida, ao Deus-dará sem muitos pensares. As necessidades básicas individuais do ser humano: fome (feijão-arroz-angu), sede (água do rio, do poço, da chuva) e sono (todos ali tinham uma rede). Sexo é social – tem que haver a outra pessoa... Conversavam e riam muito, ao redor da garrafa térmica de café preto, no meio da tarde, que os patrões “davam” e depois descontavam de um salário já miserável. Antropologazinha amadora. Início da viagem. Chegaram na cidade do interior no dia da morte do último “coronel político” (tinha sido superintendente /prefeito/ várias vezes, no passado, votos lacrados num envelope, secretos até para o próprio eleitor, pode?), deixando uma esposa, “no juiz e no padre”, idosa, e três outras companheiras, idem de “igreja” e anos de vida, as quatro por décadas em plena simultaneidade, administrando com “mão-de-ferro” os sítios enormes, na ausência dele passeando pelos bordéis da capital do Estado, o “bafão”, corruptela do francês bas-fond. Na capital do país, filhos políticos recebendo e encaminhando os meio-irmãos... Ao velório choroso, cada mulher a um canto do grande salão residencial, no centro da cidade, filhos ao redor. Tudo bem. Aí ELA perguntou: “E se o poderoso chefão tivesse deixado cinco mulheres? Onde a quinta ficaria?” Os ouvintes riram, disfarçados em tosse coletiva. Ao final de uns 45 “eternos” dias, ELA irritadiça com ironias e deboches de gente invejosa: implicavam com o fato de ser professora e carioca. Foram passear na capital. Encantou-se! Praias lindas (comprou e se exibiu três vezes num biquíni diminuto), mercado popular com “mil e uma” variedades regionais e ageográficas-temporais (vontade de trazer o mercado inteiro para casa). Fotografou igrejas históricas, visitou museus tradicionais e moderníssimos, andou nas ruas onde andara o “menino” MANUEL BANDEIRA, entrou num salão aberto e explicaram espontaneamente sobre maracatu, viu e comprou rendas largas a metro, ouviu e comprou folhetos de cordel, tomou licor exótico, deliciou-se com sarapatel, sururu e o famoso casquinho de caranguejo... Uma das cunhadas do sertão viera também e ELA escutou a critica: “Ô cunhadu, cumué que tu deixa a tua muié falá com o povo na rua, com us ômi das loja que pode num sê gente de respetio (trocam a posição dos sons). ELA vai te traí, ô home!” O marido pasmo, paradão, sem reagir. Contra a opinião da cunhada, porque contra a esposa nunca – “Dormir no sofá, não!” ELA reagiu. Silenciosa, bolsinha a tiracolo, meteu-se no meio do povo, a “multidão”, como passaria a dizer mais tarde. Lema da “liberdade para as borboletas” (filmoteca norte-americana, um clássico eternizado, 1972). E borboleteou sozinha. Entrou em diversas lojas, outra vez no mercado... e no balcão de pássaros vivos (engaiolados!) encontrou um jovem... paulista. ELA, 38 anos e meio, GEMINIANA. ELE, acabara de completar 22, AQUARIANO. Signos de ar - mentais, ambos. Raciocínio que voa, intuitivo, intelectual, abertura mental, comunicativo, logicidade, objetividade... ao mesmo tempo, reflexivo e ponderado... “Quase” mãe dele. Quase, mas não era. E se fosse?! ELA esclareceu estar fugindo do marido e de uns familiares dele, muito ‘chatos’; ELE fugia da mãe ‘chata’ que deixara dormindo no quarto do hotel granfino. “Dizem” que Rio de Janeiro e São Paulo não se combinam. Riram muito: oposição apenas entre letras e números – ELA formada em Português-Literatura, ELE cursando Engenharia. Acertaram o que dizer, parentesco de um amigo ou uma amiga, se marido ou mamãe (viúva, classe alta, filho único) aparecessem de repente e foram passear ali mesmo. De mãos dadas, braços sacudidos. Olhos nos olhos, encantados. Suco natural de graviola com gelo moído. “Cachorro-quente” de presuntada moída, pão comprido, latas vazias penduradas na carrocinha, como chamariz. Riram, “... não é o rabo, é o vômito do cachorro”... Comeram com gosto e euforia. UM pagou o lanche do OUTRO. Igualzinho. Deram-se de presente. Na loja de tecidos, ELE jogou por cima dela uma renda e juraram fidelidade – no mínimo, UM lembrar do OUTRO para sempre, “nossa aventura em Recife” (ELA apenas esqueceu o rosto dele). Mamulengos numa pracinha, violeiros em outra. Cigana fez previsões na leitura das mãos, UM longe do OUTRO: sorriam-se. Vida de AMBOS mudaria toda em quatro horas (a dela realmente mudou drástica: marido em enfarto súbito - mãe fez um contrato matrimonial e comercial, ELE foi morar na Inglaterra). Livraria. Livros e gravuras. Desfolharam Corydon, de André Gide, admiraram o impressionismo de Degas, comentaram sobre Sartre e Simone com o vendedor, estudante de filosofia. Ganharam folhetos. ELE em fluente inglês britânico - nestas raras horas de liberdade (infância repressora, não podia nada por causa do sobrenome famoso!), tirava do bolso e usava óculos sem grau, lente azul, redondinha, pura curtição, “turista recém-chegado de Notting Hill, charmoso bairro londrino”. Ninguém os abordou como mãe e filho, namorados ou amantes. Eram apenas DUAS pessoas, ou seja, UM homem e UMA mulher, UM casal?! Mas duas horas depois nem marido nem mamãe apareceram. Tempo de caírem na realidade. ELES olhavam placas de rua. Extintas ou ainda com os mesmos nomes? Evocaram do poema rua da União, do Sol, da Saudade, da Aurora, dos Mascates. Trocaram e memorizaram endereços – pelo menos cartãozinho ao final do ano. Marido, irmão e cunhada serenos (ou se fazendo de...), bancando indiferentes, num restaurante pequeno, popular, às voltas com peixe frito comido com a mão, vinho tinto (tinto com peixe?!), bem perto do lugar onde ELA aparentemente “se perdera na multidão”. Gaiola aberta, passarinho acaba voltando... (Nunca se perderia – sabia de cor o endereço onde estavam hospedados... casa de outro irmão e outra cunhada.) A mãe pegando receitas na cozinha do hotel, serena (ou se fazendo de...), bolos pé-de- moleque, de rolo e Souza Leão, batidas de umbu e de acerola (mãe só bebia às escondidas, dama que não pode perder a pose) - “Oi, meu anjo, foi passear sozinho, foi?! Não fiquei um só minutinho preocupada. Namorou muito?” F I M
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Comentários dos leitores

Vida deles de fato mudou em 4 anos, eu sei, 4 horinhas não. Comportamentos bonitos e decentes - a alegria de um perder-se poético, em mútua companhia alegre: pássaro de gaiola aberta volta sem mancha e feliz. Parabéns!

Postado por lucia maria em 19-10-2013

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