Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio Silvino Bastos

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de ATHINGANOI >


A CASA ONDE CABIAM VÁRIAS CASAS



					    
RUBEMAR ALVES Minha AMIGA veio do Rio de Janeiro para um fim de semana e trouxe um envelope que deveria ser entregue em mãos à madrinha de um amigo dela na capital. Perto! Querem saber as cidades? Sinto muito: discreção acima de tudo nessa estória de um tempo um tanto antigo. Edifício não muito alto, nada de espigão. A calçada, uma grade, não conseguimos abrir o portão e fomos vistos através de um vídeo. “Quem são VOCÊS?” Se o porteiro conferiu o número de nossas identidades com a Interpol (exagero!) ou com alguma bruxa Wicca para confirmar a veracidade, impossível saber. Um barulhinho, um estalo... abriu, passamos pelo jardim. Entrada do prédio com vidro blindex um tanto escuro, mas desde fora o porteiro nos pareceu um destes antigos soldadinhos de chumbo (ou do balé Quebra-Nozes?) - roupa toda colorida, um chapéu típico de oficial militar, com debruns dourados. Não falei GOOD AFTERNOON, apenas pensei. Não era Londres! Sudeste brasileiro. Tive dúvidas entre falar ou bater continência - minha AMIGA em choque, muda. Repetimos o assunto anterior desde a calçada - “carta ... entregar em mãos ... “ O homem fez contato via interfone com o apartamento e entramos no elevador. Um apartamento por andar, o elevador parando direto num hall enfeitado com quadros (impossível confirmar a legitimidade, mas um deles me pareceu P-i-c-a-s-s-o!) e vasos grandes com exóticas e mistas folhagens artificiais: já era o apartamento, isto é, a casa da madrinha. Apenas calculei no olhar o espaço deste hall e o “espaçosinho” de meu quarto um tanto grande na minha cidade a quilômetros dali. Uma empregada abriu a porta - vestido azul marinho, avental branco engomado e uma faixa do mesmo tecido azul no cabelo. Calada, inclinou o corpo, fez um cumprimento em reverência e apontou para o interior. Um salão gigantesco sem muita iluminação, porém dava para percebermos uma parede toda espelhada e três ou quatro conjuntos de sofá e duas poltronas, em cores e tecidos (veludo?) ou couros diferentes. Lareira tendo acima enorme cabeça de bicho chifrudo. E os outros cômodos? Caberiam quantas casas dentro daquele apartamento? Apareceu uma senhora, talvez uns sessenta anos, estatura média, esticou a mão e se apresentou com o nome de... Na minha cabeça, a imagem de Papai Noel e renas, escutei “Lapônia”. (Sônia e mais uns cinco sobrenomes, EU sozinho descobri. Como assinar um cheque?) A mulher com um vestido que depois EU soube modelo chemisier (é assim como uma camisa longa), estampado austero em vários tons de cinza, cinto metálico brilhoso, sapatos de salto médio, possivelmente meias finas (detalhe de elegância máxima), cabelos alourados, impecável maquilagem, perfumadíssima. Pediu desculpas pois estava “descansando”... De quê? Com aquele traje? (Só faltava um chapéu de abas largas.) Minha AMIGA com um vestido até bonitinho, cores alegres misturadas, predominando verde e azul, botões de cima à cintura, sentou-se de lado na pontinha do sofá; EU num jeans escuro ainda novo, camisa amarela de malha, mangas curtas, cinto estreito de couro, tênis pouco usado, devo ter sentado masculinamente de pernas abertas. Tudo era chique, pra lá de chique e nós em choque. Não entendo de telepatia, a portadora do envelope depois me contou na rua ter tido o mesmo pensamento - “chique... chique... choque... pára-choque... cheque...” - engoliu a gargalhada. A senhora Lapônia (!) tocou uma sineta chamando a empregada, falou baixo e a moça trouxe uma bandeja de metal com uma espátula dourada. Gestos sofisticados e abriu com extremo cuidado e em longos minutos o envelope. (Em muito menos tempo minha AMIGA já teria rasgado uns dez envelopes iguais.) Leu a carta, sorriu, dobrou, guardou, colocou na bandeja e a moça se retirou. “Carta do afilhado de “mamã” (esperei em vão o quinto fonema)... Coitada, “mamã” está muito idosa e não recebe mais.................” Longuíssima pausa. Nossos olhos foram se acostumando com a pouca luz e vi numa das paredes uma estante com livros uniformemente encadernados. Lapônia seguiu o meu olhar e esclareceu: “Temos Shakespeare, Swift, Cherteston, Byron, Joyce...” Minha AMIGA teve um estremecimento que depois me disse “lânguido” (me soou como teatralmente falso): “Amo Lord Byron, amo Shelley... ah, a doce Mary…” Algo (ou tudo) me pareceu bastante falso porque a biografia desse autor não é nada recomendável para a elite preconceituosa e Lapônia concordou que o admirava também. Acusado de incesto, adultério, muitas coisas. Teria lido às escondidas no banheiro de algum internato na Grã Bretanha? Ou na Suíça? Perguntou se aceitávamos “sherry brandy” (com “s” ou com “c”?) e bolo. Tive momentânea dúvida entre conhaque e licor, sorri para minha AMIGA (que lê até o fundo meus pensamentos mais ocultos), usei “NÓS agradecemos (na minha cabeça o epílogo “Mui respeitosamente” de carta comercial).........” Dispensei a tal bebida e veio somente o bolo (inglês?): seco, pedaços de frutas cristalizadas, sabor de Natal, daqueles dois meses antecipados, embrulhados em papel de cera até o café da manhã do dia 25. Dois garfos infinitamente pequenos, o meu desaparecia na mão de macho Gigante - Lapônia riu, falou que EU pegasse com o guardanapo de papel. Conversamos, ELA assumiu gostar de fevereiro ou março no Rio, assistir ao carnaval junto “com todo mundo” (não traduziu se povão ou gente dela, granfinos) da ar- qui-ban-ca-da, silabou bem pausada, e consultar certa cartomante discretíssima no bairro de Jacarepaguá. Fiquei pasmo! Nada surpreende minha AMIGA, seja confissão de austeridade ou gandaia, apenas chocada pela artificialidade e sofisticação do ambiente. Lapônia pediu licença, levou minha AMIGA, fingiu mostrar os livros ingleses e deram típicas risadinhas de mulheres mancomunadas. Falou baixinho e escreveu o endereço da tal cartomante; escutei ‘Estrada dos Bandeirantes”... (Bandeirantes?) Em seguida, falamos de sol e chuva, montanha e mar, futebol e críquete. As DUAS trocaram receitas (mulher é “forno e fogão” sempre): UMA ensinou cuscuz paulista e a OUTRA torta de camarão com palmito. Descemos pelo elevador, sem conseguirmos descobrir onde era a escada do prédio. Claro que existia, provavelmente oculta por uma porta com aspecto de armário embutido. Na rua, dois minutos de êxtase sufocante e em seguida muitas risadas. Um senhor de andar bamboleante, chapéu preto arredondado e sapatos à la Carlitos (artista britânico), ia passando e nos pareceu censurar: “Muito riso, pouco siso.” Rimos mais ainda. F I M
Copyright ATHINGANOI © 2012
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 466 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para ATHINGANOI.

Comentários dos leitores

Li às gargalhadas. Todo ser humano e ao mesmo tempo lord/lady ou pé-no- chão. Você é um desvendador de almas?!

Postado por lucia maria em 30-09-2012

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.