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PÉ SEM MEIA PEDE DEPOIS PÉ DE CHINELO



					    
RUBEMAR ALVES ELE não trabalhava no escritório, mas foi ao escritório entregar a correspondência que, ainda na calçada, recebera das mãos do carteiro. Dela, só conhecia a voz, quando pelo alto-falante dava recados gerais à metalúrgica inteira. Só diziam isto: “Secretária nova, mandona, mandona...” Bom para ELE ‘domar’, pensou até sem ter visto a fulana. “Sou macho, ariano, carneiro brabo sem cabresto!” Iludia-se completamente. Vinha do centro da cidade, a serviço. Super extra hiper metrossexual, galã impecável neste dia - bermuda jeans azul-marinho, camisa branca exibindo certa musculatura, arrumada por dentro da calça, um cinto novo comprado pela Internet no Rio de Janeiro, cor a combinar com detalhe do recém-comprado tênis vermelho e branco, óculos... de sol. Ótima aparência, ELE ora sorriso cínico ora sincero, conforme a necessidade do momento. Estava o máximo! ELA entrou em choque. “Deus grego, só pode ser! Ou cigano!” - tremeu por dentro, caladinha, depois balbuciou ‘obrigada’, fazendo-se de tímida, fina, educada, e femininamente encostou os dedos nos dele, por baixo dos grandes envelopes. O mensageiro improvisado, espertão em outras horas e com outras mulheres, estupidificado de repente (paixão ao primeiro toque?!), não percebeu a malícia da fêmea. Daí em diante, um procurou saber do outro, fingindo desinteresse, perguntando assim como quem não quer nada, na mentirosa e disfarçada intenção de presentear “os filhos” (que filhos?) no Dia da Criança. Ótimo! Ambos solteiros, sem filhos. ELA, tendo acesso a todos os departamentos, espiou ficha dos funcionários um a um, em trabalho cansativo, mas brasileira não desiste nunca, achou-o na letra R, olhou fotos e anotou dados pessoais. “Paulista, ah, as locomotivas do país!” ELA, mineira de Diamantina, astuciosa, que trabalha em silêncio, capaz até de construir uma brilhante nova capital f ederal, como certo primo distante... que ficava só de meia, sem calçado algum, na sala presidencial – verdade biográfica. (Leitores, eu vi!) Que o conquistador “R...” tenha mandado ou não, leitor jamais saberá, porque nem o próprio narrador dos fatos sabe, a moça no dia seguinte recebeu anônima orquídea lilás em caixinha transparente. No outro dia, bombons de cereja. No outro dia (porque três é o limite na vida), uma xícara de louça com o desenho de um Cupido, arco e flecha na mão, olhos vendados. Sempre sem cartão ou assinatura. Sim, mas ELA, a “super sabida”, descobriria. Narrador e leitor coçando a cabeça em descrédito. Na horário do almoço, minutos após meio-dia, saiu de bicicleta mesmo, olhou por fora a casa dele, não muito longe. No jardim, orquídeas (ou bromélias?) enxertadas no tronco de uma árvore. Comum na região, ainda não era certeza. Bem perto da casa, uma padaria não granfina – bombons na vitrine, ELA só não viu de cereja, informaram que “um rapaz comprou o último estoque”. “Ah, foi ELE, tenho certeza!” Comprou um vago sanduíche e regressou ao trabalho ainda com certa fome. Mais alguns dias, reunião no auditório e, antes de começar, todo o pessoal em tagarelice, ELA passou pertinho de propósito e o ouviu falar com um companheiro em “Tétis do pé prateado, ninfa do mar...” Parecia uma cantada pois a moça calçava tênis prateado naquele momento. Pesquisou mais tarde, olhou rapidamente a telinha, texto longo, de tudo memorizou que o sétimo filho de Tétis se chamaria Aquiles. Brincou, voltou à escola primária: “Que eu aquile, que tu aquiles, que ele aquile...” Arrepiou-se toda. Intuição feminina só não adivinha bilhete de loteria... Já uma semana, quinze dias, três semanas... e nunca mais presentinho algum. Procurou e forjou pretextos incríveis para visitar o setor dele, depois recados para que viesse ao escritório com urgência (criativa ou mandona?), ELE não podia largar a máquina, mandava substituto. Complicado inventar assunto técnico em um minuto. Por sorte, sem notarem, sentaram-se lado a lado no refeitório geral, idênticas bandejas com as mesmíssimas comidas, ambos trazendo de casa a mesma fruta, figo. Almas gêmeas ou estômagos gêmeos? (Depois ELA pesquisou a simbologia – útero. Figo, constante em muitos mitos, tanto gregos como de outros povos.) Conversaram muito, caíram na asneira (?) de rirem juntos. “Muito riso, pouco siso”, a avó dela sempre dizia. ELA saía mais cedo do trabalho e ficou meia hora sentada no jardim da pracinha, caminho obrigatório para ELE, bancando casualidade, ‘eu-juro-que-não-estava-esperando- por-você’, falou toda dengosa, mentalizando dedinhos cruzados nas costas. ELE cursava Direito e pela primeira vez na vida esqueceu o caminho das aulas. Ambos já deveriam ter casado há algum tempo e discretamente conversaram sobre isto – dividir o espaço de uma casa, ELA super bagunceira, ELE todo certinho; ELA achava legítimo e contemporâneo ‘despesas divididas’, ELE se intitulava ‘macho provedor’; ELA não fritava um ovo,e pagava para que fizessem tudo em casa, ELE aprendera a duras penas a complicada arte de cozinhar, e fazia tudo... ter filhos (grávido só cavalo-marinho!)... Falaram de literatura, cinema, artes em geral. ELA sabia de cor todas as nove musas e respectivas especialidades. ELE, pasmo! “Com essa, ou chicote simbólico, segurar pelo braço, voz firme sem bater, arrastar para fora de ambiente com muitas pessoas, ou muitos beijos...” – pensou. Beijo? Por que não? Virou o rosto dela quase bruto e foi um ardente, inesperado para ambos, beijo na boca. Desmontou-a emocionalmente. Levou-a até a porta do prédio. No outro dia, não se viram, mas sorriam sozinhos, as pessoas reparando sem entenderem. Foi um namoro de muitas alegrias, ELA apresentou os pais, um irmão rapaz, a irmã ainda menina, ELE sem parentes a apresentar. “Aquiles?” Sim, caro leitor, Aquiles vai aparecer, sim. Não o esqueci. Você lembra que ELE (ELA ainda não o sabia “R”...) estreou um tênis vermelho e branco? Pois é. Marcaram um passeio qualquer num feriado e nosso amigo quis ir todo moderninho, esportivo, de chamar a atenção de todo mundo. Atrasado, esqueceu de calçar as meias. Para adiantar os acontecimentos, uma pequena bolha, num pé só, bem no calcanhar-...de- aquiles. Bolha esta que cresceu muito, ELE obrigado a usar calçado de segurança na metalúrgica, pesado, abafado, com bico de aço etc. etc. etc. Inflamação feia, muitas dores (todo homem é sempre frouxo!), uma quase infecção grave, medicina do trabalho, dispensado por três dias (ah, o fatídico três!) , novos etcoeteras. E a faculdade? Teve que ir assim mesmo. Período de provas. Tênis mais velho do lado direito, chinelo ainda mais velho à esquerda, logo o lado do coração. Como ELE sumiu, não telefonou para ELA, não a atendeu ao celular, não escreveu e- mail, a namorada precipitou-se, não o procurou no setor de trabalho e na terceira noite (três de novo?) foi esperá-lo à saída da faculdade noturna. Pensou em rolo de pastel, tamanco holandês, máscara de ferro, “ah-se-houver-outra-mulher-no-meu- caminho!” – não levou nada disso, apenas uma mini-bolsa com o dinheiro da passagem, um lencinho de cetim (no caminho ensaiara uma cena de fúria e outra de lágrimas), um batom e um trevo de quatro folhas, ainda verde, o último presente dele. O quase marido surgiu num andar desengonçado, ELA olhou para baixo e caiu numa incontrolável gargalhada.................................................. Bom, se foram felizes para sempre, obra aberta, cabe ao leitor escolher – este conto (ou relato verdadeiro?) não é um fechado e inatingível conto de fadas. E os presentinhos? ELA perguntou, porém ELE, com olhos oblíquos (de ressaca? - não, ELE não bebia - ou de cigano, de comprovada descendência longínqua???), negou ter mandado. Se havia outro candidato, nem como vice foi eleito... Banco de reserva como no futebol? A menos que houvesse revolução ou morte, porque vice geralmente é apenas um opaco e desconhecido vice. E pior quando não assina coisa alguma. F I M
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Comentários dos leitores

Tadinho! Adorei! Li sobre o maestro Villa: casaca e chinelo, tremendo ácido úrico, palco do Teatro Municipal de São Paulo, 1922, Semana de Arte Moderna. Aí, todo mundo pensou que era traje de existencialista, pode?

Postado por lucia maria em 06-10-2012

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