Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio KD Inovações Tecnológicas

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de ATHINGANOI >


CURIOSIDADES BRASILEIRAS



					    
RUBEMAR ALVES MINHA AMIGA deu descanso ao Divino e casou com um pernambucano culto, em pleno Rio de Janeiro, somente no civil e pronto! Sem convidados ou festa. “Pra quê?” Acontece que a parentada dele soube da novidade e pediram fotos do casamento. Que fotos? Só na carteira de identidade, pois naquela época a mulher ainda ‘adotava’ obrigatoriamente por lei o sobrenome do marido (ELA renega até hoje) e teve que renovar o documento. Interior brabo, onde o povão só aceita o casamento católico, muitas vezes dispensando o cartório. Sentença fatal: “Só Deus casa de verdade!” ELA arrumou livretos e estudou sobre o Estado onde ELE nascera. De longe, tudo muito simpático e natural... Sentiu curiosidade. Por carta, todos pareciam gente boa, hospitaleira, gentis... Passaram-se três anos. ELA de férias da escola, ELE do emprego, viajaram. Não houve um relacionamento bom com a parentada desde os primeiros dias. Donos de terra seca e improdutiva, ainda que tão semi-analfabetos quanto os apenas lavradores, tripudiavam de todas as maneiras sobre estes, o que deixou MINHA AMIGA horrorizada e logo se tornou mais íntima dos fracos e oprimidos (ou na verdade “espremidos”?), pois não se sentia nenhuma princesa feudal espiando do alto da torre. Diziam lá que carioca e professora não devia se “misturar”! Só que ELA nasceu agindo sozinha e adora contrariar palpite errado das outras pessoas. Ia ver de perto extrair e espremer sisal, acordava cedo na hora de tirarem o leite de vaca e ovelha, lavou roupa num pequeno riacho, assou bolo em forno de tijolos, usou areia para esfregar alumínio etc. etc. etc. Enfim, mais aprendeu muitas coisas que ensinou alguma mísera coisinha. Sabia o lugar muito pobre. Recolhera com amigos, parentes e de si própria boa quantidade de livros para a biblioteca local e principalmente roupas e calçados, ainda em muito bom estado – saíram do Rio com onze bagagens bem grandes, incluindo a mala pessoal e duas sacolas de mão. O resto? Do-a-ções. E como do-a-ção é doação, ia conhecendo as pessoas e dando tudo de graça... num sítio sertanejo onde cobravam até mangas e goiabas maduras caídas ao chão. A parentada não gostou, pois seis meses antes o rapaz viajara sozinho, levara também doações, confiou numa cunhada e esta simplesmente vendera tudo! Não teve coragem de falar com MINHA AMIGA... Uma menina magra, míseras moedinhas na mão, veio ‘comprar’ flores para o enterro de uma bebezinha: sete dias de nascida – pessoalmente, ELA comandou um grupo de garotada que colheu no mato aquela plantinha ‘maria-sem-vergonha’, dá em flores brancas ou roxas, de pouca importância. E uma bromélia lilás do tronco do coqueiro! Deu tudo para escândalo geral até de quem ganhou as florezinhas e a flor bonita. Teoria – “Deus ou a Natureza fez tudo isto de graça.” Para os exploradores da miséria pública, uma revolucionária. GEMINIANA de 30 de maio, dia de SANTA JOANA D’ARC, padroeira dos franceses, no sincretismo religioso filha de OBÁ do candomblé, orixá feminino injustiçada, MINHA AMIGA no dia a dia é calma, tranquila, ao mesmo tempo guerreira e braba! Na passagem de ano, todos foram dormir e somente o marido e ELA romperam a meia- noite com um pedaço de bolo seco e sidra sem gelo (sítio ainda sem eletricidade, na época). Ao amanhecer, deboche coletivo: “Que bobagem!” Ficou louca-furiosa. (A verdade “está” com ELES, não se admitem atrasados.) Havia uma construção de tijolos, sem porta, com muitos pedaços de metal empilhados, de bicicletas e carrocerias, em boa parte carcomidos por ferrugem. Muitos pneus amontoados, um sobre o outro, até perto do teto, sem cobertura alguma. Galinhas criadas soltas voejavam pelos metais, iam até em cima... e ovos ficavam fresquinhos dentro dos pneus, que tanto podia ser o primeiro do chão ou o último lá no alto. Na casa, a mãe gritava que um dos quatro meninos (mais quatro filhos ao longo dos anos, machistamente a pílula era proibida e apenas receitas de chás eram trocadas às escondidas entre as ‘comadres’ - ai que um marido soubesse!) fosse pegar ovos. A tarefa era encostar escada na parede, aí um menino descia pneu, outro pegava os ovos, mais pneu, outros ovos... até o fim: reempilhar tudo, igualzinho. ELA assumiu a tarefa pois adorava gema crua misturada com açúcar. Cobria com uma placa de lata, alguém oculto tirava a cobertura, via na manhã seguinte. Comentar com quem? No fundo, estudar BRASIL x BRASIS vai da incoerência pessimista à diversão otimista. Muitas situações tragicômicas na redondeza – não naquele sítio exclusivo. Imitam- se: conscientes ou inconscientes. Na feira de sábado, deputado federal ali nascido, mas que nada fazia pela região, tirou fotos com crianças ao colo, beijou a mão de mulheres idosas, MINHA AMIGA recusou o aperto de mão, disse que votava no Rio, deputado recuou... Acertou com o padre casamento para a segunda semana de janeiro. “Tá!” Dispensável confissão, comunhão. “Melhorou!” Palavra, ELA não casaria, garanto! Levara um quimono comprido até os pés, que ELA havia costurado anos antes. Tecido de algodão, fundo preto, barra e flores coloridas espalhadas. Flor de tecido presa na cintura, meia branca, chinelo de palha. Delineou vagamente os olhos, uma despeitada casada, a quem não era permitido nenhum batom clarinho , ironizou, aí MINHA AMIGA rebelde executou a idéia maldosa de “maquilagem de geisha tradicional”, com muito talco branco no rosto. Sugeriram que fossem todos no caminhão, mas um familiar da capital, em visita ao sítio, ofereceu o carro. Domingo, cidade fechada, parada, ruas desertas, grande silêncio, apenas um botequim aberto e alguns homens no balcão da cachaça. Informaram a inauguração do busto de um violeiro famoso e missa na pracinha, a alguns metros dali. Pelo ritual, missa a meio. Um caminhão com a parte traseira voltada para o público, altar improvisado, tempo de abertura religiosa, mas padre misturava italiano, português e... ainda muito latim. No fundo, devia mesmo era gozar a cara dos incultos que só respeitam o que não conhecem. Chegou a hora da homília (escrevi certo?), padre cedeu microfone para um “filho” da cidadezinha, família tradicional de poetas e violeiros, mas que estudara fora dali e se tornara professor na capital. Bêbado quase de cair! Ou melhor, caindo... Apoiou- se na beirada do caminhão, entrefechou os olhos e falou: “Iracema, a virgem dos olhos de mel e cabelos mais negros que as asas da graúna...” Calou-se. Platéia muda. Uma mocinha sussurrou – “Ih, está falando de mim...” Talvez se chamasse Iracema pois era uma loura oxigenada. Grande pausa. Olhos fechados novamente. “Aurélia Camargo comprou ou não comprou o marido?” Citou o nome desta outra personagem de José de Alencar, mais duas ou três frases desconexas, ‘desacordou’ novamente, sempre agarrado ao caminhão. Estaria por certo se imaginando em sala de aula... Naquela multidão toda, alguém deveria estar percebendo alguma coisa... Platéia predominantemente estática, ouvindo o “discurso bonito”. Nova pausa. Só mudou o autor literário. Agora Machado de Assis. “Capitu, olhos de cigana oblíqua e dissimulada... Ou olhos de ressaca? Pobre Bentinho...” Parou, largou o caminhão, estremeceu, quase caiu para trás, corpo durinho. Da assistência, um rapaz (certamente estudioso turista: naquela Semana de Folclore, cidade cheia de carros do país todo) correu, pulou no caminhão, padre levantou da cadeira e sentaram o professor. Copo com água, bebeu, “acordou” assustado. Platéia entre “ó” de espanto e emudecimento, mas ninguém se retirou. Tal e qual o defensor de uma tese, cérebro refeito, fez a maior ‘salada criativa’ que se possa imaginar, num discurso apoteótico (mais tarde confessou ao marido de MINHA AMIGA este final improvisado em última hora) - falsamente explicou a todos ter citado a mulher brasileira num sentido geral: a virgem gerada na selva e protegida pela natureza, a mulher eterna apaixonada pelo primeiro namoradinho e a terceira injustamente acusada de adultério. Finalizou exaltando a figura da Virgem Maria e foi aplaudidíssimo pelo povo na pracinha, de causar inveja a sedutor político demagogo na tribuna. A platéia toda se deu as mãos (leitor acertou: menos MINHA AMIGA e os turistas universitários, em grande quantidade, que se afastaram) e fizeram uma reza final, hipnotizados, só faltando babarem. Casamento rápido. Apenas dois casais – uma jovem no clássico vestido branco. Igreja vazia, ninguém comparece para assistir, o padre em poucas palavras e sem nenhuma surpresa para o marido ELA não repetiu nada, criou por conta própria as expressões clássicas de “na saúde e na doença, na riqueza” (sei mais lá o quê...) etc. etc. etc. Ai que o padre interferisse! Testemunhas? Pior. Só dois cunhados assinando como testemunhas - mulher nunca. Sim, por ‘padrinhos’ ELA renegou. No sítio, horas mais tarde (ELA recusara apoteose: não foi ouvida!), almoço geral – gente e mais gente. Muitos chegam para comer sem mesmo perguntar a razão do convite, não cumprimentam ninguém, atracam-se com o prato, depois vão embora. Descobriu neste dia e confirmou num almoço a que foi convidada uma semana depois. Idade Média no século XX. Mesa muitíssimo comprida de tábuas brutas ao ar livre. Primeiro os donos de terras, homens velhos, mais moços depois, não importa o tamanho do sítio, desde que sejam proprietários: pratões cheiões... Filhos adultos. Aí chamam os lavradores: mesma quantidade. Os homens acabam, só então é a vez das mulheres proprietárias, geralmente viúvas herdeiras da mão do macho, as filhas e as criadas. Crianças se previnem com frutas porque pode não sobrar comida para ELAS. Filhos são os lavradores mirins, ninguém os defende ou protege nunca. MINHA AMIGA jamais viveria num lugar assim, o marido francamente fora daqueles costumes eternizados, diferenças sociais e de sexo gritantes e agressivas... ELA pegou o prato moderado, levou para o quarto (ai que marido chamasse!) e passou o tempo fazendo palavras cruzadas. Impressão de que ninguém percebeu sua ausência, sentiu falta da “noiva”... Saberiam o motivo daquele almoço? Sim, existe isso – ou a pessoa é DO ambiente ou não é. Visitantes estranhos são intrusos... ELA, uma intrusa, ainda que diplomática, comunicativa, versátil, adaptável, que “vê” caneca numa latinha com asa, capaz de dormir no chão puro (“Dormir é só fechar o olho.”) ou no colchão de palha seca do sítio, que acha pessoa branca igual a negra e vice-versa, para quem o general, pai da amiga no Rio, ou o porteiro do prédio ou o padeiro lusitano são iguais. Curto intervalo em que amou Recife – hospitalidade, respeito, civilidade máxima. Museu ia fechando no horário de almoço, permitiram entrar por meia hora. No largo de São José, fotos da igreja; lojinha com bandeiras de maracatu em exposição, perguntou, teve aulas de todo tipo. Incríveis compras no mercado popular – frutas, licor regional, literatura de cordel, um quadro esculpido em madeira, muita coisa... Olinda indescritível – gostou muito também. Foram de trem a Jaboatão dos Guararapes, demoraram-se andando na rua, o trem de saída parou por um minuto para que subissem de volta à Recife: ELA, o marido e três sobrinhazinhas dele. Mais um tempo torturante de volta ao interior, questionamentos internos sim, brigas não, voltaram para o Rio antes que ELA fosse condenada à fogueira. Do Sudeste para o Nordeste, ônibus cheíssimo, mais homens que mulheres, as pessoas se perguntavam por papel sanitário ou comprimido para dor de cabeça ou canivete para descascar laranja... havia na sacola, imediatamente ELA fornecia ou emprestava por minutos e logo foram apelidados de Moça Rica do Tem Tudo (tudo?!) e Camisa Azul (marido explicou hábito com pessoas desconhecidas); não se envaideceu, acatou. Descobriu na viagem de retorno. Poucas pessoas a menos – homens recrutados para a construção civil, uns não quiseram continuar no Rio ou em São Paulo, voltaram para casa em dezembro. Agora, alguns dos anteriores (reconheceram-se no ônibus em risadas) e novos contratados chegando em fevereiro. Para lá, travessia noturna, muitos dormiam. Para cá, grande emoção ao passarem sobre as águas largas do Rio São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, e ainda muitíssima emoção maior ao verem o verdadeiro mar pela primeira vez, veículo passando pela Ponte Rio – Niterói. Enfim, é o BRASIL todo diversificado, enraizado, regionalista teimoso, mas o nosso país! F I M
Copyright ATHINGANOI © 2012
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 525 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para ATHINGANOI.

Comentários dos leitores

Percebi que este conto antecede PERDER-SE NA MULTIDÃO - ela é a mesma pessoa, um tanto louca, versátil, mas acima de tudo humana. Geminianos/geminianas somos ma-ra-vi-lho-se, quem discorda?

Postado por lucia maria em 12-10-2012

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.