Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio Portal A&L

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de ATHINGANOI >


O ADVOGADO QUE DECLAMAVA



					    
Ouvi falar... ELA trabalhara em escritórios e num destes momentos de sorte (e capacidade!) – é pegar ou largar... – passou no vestibular de uma faculdade federal de Letras. Sem os ordenados antigos, como sobreviver sem precisar a urgência desesperada de dar aulas de português a aluninhos comuns, atrasados ou... quase analfabetos? A princípio, aulas matinais de segunda a sexta. Meio tempo livre. Leu anúncio em que pediam secretária em meio-expediente no horário da tarde. “Cartas para a portaria do jornal X.” Tudo no centro da cidade: faculdade, jornal e escritório. Sim, porque havia um número de telefone (?!) e uma frase que por telefone não atenderiam. Pelos algarismos iniciais, ELA percebeu de cara a região do tal escritório (danadinha, ELA!), ‘chutou’ a rua principal, consultou lista telefônica de endereços, localizou certinho e esperou. Veio o chamado por telegrama, a “detetive” acertara direitinho, o endereço era aquele mesmo. Exatinho. (Caro leitor, livre-se de tê-la como amiga – discreta, calada, mas descobre qualquer segredo, com a honesta virtude de não contar a ninguém.) Subiu, campainha na tal sala, ninguém abriu de imediato. Em minutos, apareceu pela escada do prédio um homem esbaforido. Pediu desculpas pelo atraso pois estivera até então com o “senhor doutor professor emérito juiz” e outro gigantesco palavrório para dizer “...no fórum”. Calculou de 45 a 50 anos. Fortíssimo sotaque lusitano, relógio de algibeira, colete e escudo de time de futebol numa pasta de couro, depois ELA viu na caneta, no telefone e no quadro da parede. Vasco, evidentemente. ELA flamenguista, sem fanatismo. Foi o tempo de sentar e apareceram dois visitantes, robustinhos (chamar de gordo é feio, anti-ético). Medrou por segundos, porém a porta do escritório permaneceu escancarada, presa por um sapo (bichinho que ELA ama!) de louça vestido com a célebre camisa preta e branca mais a cruz de malta vermelha. “Até o sapo... que deve ser amazônico?” – pensou, apenas. Os visitantes abriram para os dois um jornal português editado no Brasil e muito mal a olharam. Começou a entrevista. Nome, idade, estado civil (solteira!), bairro da residência, experiências anteriores, o de praxe. “E o que a m’nina faz no momento?” A faculdade funcionava num prédio que pertencera a uma fundação portuguesa, esta inclusive patrocinava intercâmbios “d’além-mar”. Quando ELA disse onde estudava, grande suspense, porque ELE simplesmente gritou em planos pulmões: “Então, a m’nina é uma filha da......... (os visitantes nem se abalaram, o sapo talvez ou já estaria acostumado?) fundação (completou o nome sério da instituição originalmente lisboeta).........” Com as duas mãos em concha, ELE tomou a mão direita da moça, olhos nos olhos, e balbuciou em voz trêmula: “A m’nina conhece o poema (longo! – ELA observou depois) CÂNTICO NEGRO, de JOSÉ RÉGIO (lágrimas nos olhos sem artifício do colírio teatral)?” Pausa de meio segundo, sem largar as mãos dela: “Toda a poesia dele é fruto de um longo conflito de forças contrárias: Deus e o Diabo, amor carnal e espiritual e muitas outras cargas dramáticas.” Não deixou de estar sendo uma aula bem interessante. ELA lembrou do nome de um livro desse autor (ao mesmo tempo mentalizou sem confusão DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, filme do baiano GLAUBER ROCHA). “Intertextualidade do título ou acaso?” – caladíssima. Mesmo sentado, olhos fechados, começou a recitação em voz possante: “Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu ouvisse / Quando me dizem “vem por aqui”! Recitou tudo. Ao final, “ – Sei que não vou por aí!... “ -, o próprio aplaudiu. E enxugou os olhos com um dobrado e limpo lenço de pano vermelho. A moça, texto de cor, humildemente sabia apenas (nada a ver!) a letra de um único e eterno fado, ficou de pé e recitou PERSEGUIÇÕES, como se fosse também um poema. Curto, poucas linhas. Os visitantes em momento algum se abalaram, sempre lendo o jornal. O advogado quase a esmagou num abraço, beijou-a na testa e disse “muito obrigado”. ELA pegou a bolsa, foi embora. Não a chamou como secretária. “Ué, será que ELE não gosta da famosíssima e queridíssima cantora AMÁLIA RODRIGUES? NOTA DO AUTOR: JOSÉ RÉGIO, 1901-1969, poeta português modernista. Em 1925, publicou o primeiro volume de poesias – POEMAS DE DEUS E DO DIABO, e dois anos depois foi um dos um dos fundadores da revista PRESENÇA, também um dos principais ideólogos do grupo. F I M
Copyright ATHINGANOI © 2012
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 510 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para ATHINGANOI.

Comentários dos leitores

O povo português, quando culto, é exatamente assim melodramático. O poema citado é enorme! Agora sapo amazonense vascaíno?! Já vi um grãozão de café com a camisa (sofredora?) do São Paulo.

Postado por lucia maria em 28-10-2012

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.