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UM DIPLOMATA DA TERRA DE CAMÕES



					    
RUBEMAR ALVES Confidências em memória. Há alguns anos, isto. ELA cursava o 2º ano de LETRAS/UFRJ, no centro do Rio. Biblioteca farta, mas os alunos... centenas (500 a cada vestibular), geralmente um determinado livro estava ocupado e com fila de reservas. Saiu para o Real Gabinete Português de Leitura, mais ou menos perto da faculdade, com a aproveitadora amiga (que só assinava os trabalhos), grudada – esta não assimilava nada de nada... Principalmente literatura trovadoresca medieval, em português arcaico. Dizia ‘não-gostar-de-arcas’, pode? “Vontade de socá-la.” (Não podia.) Uma 33 anos, o ‘grude’ pouco acima de 20. Ai, ai, ai, sempre acostumada com o povo português: antepassados longínquos. Há um balcão na entrada do Gabinete e um visitante demonstrava conhecer todo mundo – tapas no braço do varredor, puxava o rosto das mulheres, passava a mão no traseiro de algumas – portuguesas novinhas, elas gritavam: “Ó, o que é isto, senhor doutoire?” Ia para o bebedouro, tomava cafezinho, corria as mesas dos leitores, brincava com todo mundo, mas sem abuso com estranhos a ELE. “Horário de almoço (contou mais tarde, quando ficaram íntimos), duas ou três horas andando na rua, longe do cônsul sisudo...” Pouco além de 50 anos, magro, não bonito, mas de aspecto satisfatório. Minha amiga e a outra chegavam, ELE “enlouquecia”, com gesto cavalheiresco de se curvar todo e imaginariamente tirar o chapéu emplumado. Olhava direto para ELA, a amiga sempre alienada... Não cumprimentava nenhuma outra pessoa assim. Gesto cortês era só com ELA – iam muito lá, pois era necessário estudar a história de Portugal desde os primórdios. Um dia o tal fulano foi direto para a mesa das duas, mostrou passaporte e carteira funcional (ELAS não pediram nada): diplomata de carreira, secretário a caminho de promoção – queria mesmo ir para Brasília, embaixada. Falou dos países onde já trabalhara. Deu o endereço do consulado pela metade, só a avenida, minha amiga completou com o número do prédio. O português endoidou um pouco mais. “Como sabes? A m’nina então conhece?...” Explicou nunca ter ido ao tal prédio, mas um amigo trabalhara lá, há tempos. Imediata comunicação do signo de gêmeos – também diplomata e logo se identifica com todo mundo. Minha amiga é assim. Lusitano disse estar sempre na biblioteca para encontrar patrícios e principalmente brasileirinhas (franco admirador das mulheres, mas eterno solteiro)... As moças informaram que a faculdade era intimamente ligada com certa fundação portuguesa e em meio minuto já se escutou um quase grito: “Então as meninas são também filhas da (suspense geral)......... Calouste!” (Português de origem judaica doou muita coisa a partir de Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.) Falava quatro idiomas além da língua-pátria. Ofereceu-se para ajudá-las. “E não pagarão escudos (muito antes do euro). A inteligência que Deus me deu, distribuo de graça. Primeira vez que ensino a uma brasileirinha (singular? eram duas...) tão identificada comigo.” (A ignorante ignorada ignorou, não percebeu.) Mostraram apostila com alguns textos de cantigas de amor e cantigas de amigo. Pasmas, as estudantes! ELE apenas lia uma linhazinha, fechava os olhos, dizia o autor e o poema inteiro de cor, não importando o tamanho... Abria os olhos, explicava o texto, falava da guerra para formação do país, citava o lendário herói Viriato, castelos, nobreza, conventos etc. etc. etc. Intercalava com certas palavras e expressões inadequadas a ELAS e ao ambiente: “m... p... p-q-p”... Contente, entusiasmado, numa linguagem bastante natural. Levaram dias assim, sentados em trio, ELE explicando a sério. Literatura medieval ainda no princípio da língua portuguesa irmanada ao espanhol, Península Ibérica ‘quase’ um país só, junto ELE ensinava português histórico, também disciplina do 2º ano - as duas anotavam tudo. Bastava lembrarem as cantigas com origem na França, ELE recitava na hora originais em ‘langue d’oc’ (aparece muito em palavras cruzadas). Palavra, um geniozinho intelectual! Certa vez, por conta própria, ELE passou a Camões que incluíra Inês de Castro em Lusíadas. Pra quê? Foi a empolgação máxima... E repetiu o que ELAS já haviam estudado: “O príncipe português Pedro casara com a nobre espanhola Constança, que trouxera para a corte algumas damas de companhia, entre elas Inês de Castro a quem o príncipe amou de verdade, levou para Coimbra e tiveram dois filhos. O rei perseguiu, mandou matar Inês. Anos depois, Pedro, agora rei, vestiu a caveira da amada com trajes de rainha e a corte inteira teve que beijar a mão de Inês. Lenda ou não, Pedro matou pessoalmente os assassinos dela, arrancando-lhes o coração ainda quente.” Voltemos ao nosso diplomata. Teoria que com a esposa o sexo é apenas ‘papai- mamãe’ e com a amante é ‘vale tudo’, sexo no capricho, e com a prostituta paga é melhor ainda... (Mundo não evolui igualmente em todas as direções.) ELE por certo se baseou nesta filosofia. Começou dizendo que casamento na nobreza era (continua sendo) geralmente arranjado. Recitou Camões: “Estavas, linda Inês, posta em sossego...” Aí, foi-se empolgando, bom representante de Portugal, e entornou a ‘sorda’, isto é, o caldo... Nunca antes sussurrara como deve ser numa biblioteca, passou a falar mais alto ainda. (Imagine-se a cara da amiga da minha amiga!) O que talvez Pedro fizesse com a esposa, ass im, “uma vez por mês”, era obrigação de marido, muito melhor com a “amada amante” (muito obrigado pela licença poética, RC). No entusiasmo, usou palavras pesadas, embora objetivas, para o ambiente da biblioteca. Descrevia as cenas de amor sexual em detalhes - termos chulos, vulgares, muitos gestos... e que gestos! As pessoas olhavam, sorriam, ninguém assim tão escandalizado, mas a aula estava por demais apimentada. A outra ficou fora de si, ameaçou ir embora, e perguntou baixinho se estava sendo muito maliciosa. Minha amiga contemporizou: “ELE está dizendo que Pedro e Inês se amavam muito, só isso; você está escutando errado!” (Coitada!) O diplomata jamais as agarrou, nunca fez proposta ou convite algum, não passou a mão (passava nas funcionárias portuguesinhas) - era a obscenidade característica do país dele, o que se vai fazer? Pelo menos, sem censura de mordaça. Voltaram à literatura trovadoresca. O entusiasmo só se expandia com Inês. (Ah, pulava de repente para D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Dizia-se admirador dos Pedros com suas amantes...) As aulas duraram um tempinho. Os cursos da faculdade tinham programação semestral, ELAS estudavam agora outra literatura, iam com menos frequência ao Gabinete e em horários aleatórios. Não brigaram nem o censuraram na cara, os vexames todos passivos e pacíficos. Divertido, o diplomata poliglota e bastante culto! É um povo agradável, porém mais franco, direto e solto. Brasileiro se resguarda mais, até na linguagem. Minha amiga se dá bem com eles (com certos limites, é claro): mesmo idioma, embora usando linguagem diferente, o lirismo do eterno fado (só em língua portuguesa existe a palavra saudade!), a culinária, chouriços, peixes, bacalhau, doces com muitas gemas... Mesmo não mais o vendo na biblioteca, ELA cruzou com ELE muitas vezes na rua, faziam- se agrados, ELE comprou de repente uma rosa numa florista ambulante, lancharam pastel de Belém e queijo da Serra da Estrela numa doçaria portuguesa, beberam ginjinha (licor de cereja) – não perguntou pela “outra rapariga”. Contou estar por poucos dias esperando transferência para Washington. “Ó, m’nina, as mulheres norte-americanas são muito frias – não conversam com estranhos, como tu que me aceitaste como sou, meio grosso, pois não? Sou diplomata, mas antes de tudo português!” Nesta dia a beijou respeitosamente no rosto, ambos trêmulos e com os olhos úmidos. Nunca mais se viram. F I M
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Comentários dos leitores

Esta biblioteca é muito antiga e linda. Quase chorei pelas minhas gotas de sangue português. Pesquisarei, estudarei os detalhes de tudo isso aqui narrado. Vamos juntos passear na terra dos avozinhos do nosso país?

Postado por lucia maria em 17-11-2012

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