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UM E OUTRO, UM OU OUTRO



					    
RUBEMAR ALVES Já havia um menino mais velho – louro e de olhos verdes, como a mãe. Meu primeiro primo. Certos familiares não acertavam pronunciar o nome (até bem fácil!), virou “TIDE”. Tempo ainda de muita ignorância e superstições, nasceram meus outros dois primos, iguaizinhos – cabelos e olhos escuros, como o pai. De todo lado vinha gente olhar. Como foi? Como não foi? Rezou na hora de fazer? É coisa de Deus? TIDE, ciumento por perder a primazia: “Nunca viram não? Cosme e Damião... Mamãe tem (falava errado de propósito) ‘estauta’ dos santinhos...” Corria no altar arrumado baixinho, piscava para os santos e roubava uma cocada. Forma de se penitenciar, talvez. Piscada em cumplicidade. Dizia que “deixaram pegar” o doce. (Bom, pelo menos nunca reclamaram, nunca falaram nada.) Férias escolares. Em visita aos parentes, no Rio, confesso que eu morria de medo, então TIDE pegava duas cocadas, fazia voz em falsete - Pegue para o priminho também. Eu improvisava coragem e aceitava. Padrinhos escolheram os nomes e o resto da família criou os apelidos – “MANINHO” e “LULA”. Cresceram, aprenderam a falar, andar, fazer muitas peraltices. Um dia, alguém descascou uma banana e jogou a casca no cimentado. Um dos meninos caiu, quebrou uma pontinha mínima do dente da frente, mandavam abrir a boca e mostrar a ‘identidade’: “Ah, este é fulano...” Durou pouco. O outro escorregou num bago de jaca, no mesmo cimentado, conseqüência igualzinha, e agora, quem é quem? Ações e travessuras parecidas, sempre juntos. Temperamentos diferentes. Menos sociável, mais sociável. MANINHO mais seriozinho, circunspecto, reservadão.... LULA divertia todo mundo,circulante, sempre alegre. Um pequeno detalhe – MANINHO não conseguia imitar com perfeição os gracejos de LULA, não enganava ninguém; LULA copiava com perfeição a seriedade de MANINHO e enganava todo mundo. Naquela época, “pé-de-galinha-não-mata-pinto”, mãe pegava um de chinelo, o outro corria, quando mãe pegava o outro, era o um de bumbum já vermelho, ela desistia, dispensava. Ou o ambiente estava um tanto escuro e MANINHO apanhava duas vezes. Certa vez, ao início do ginásio, MANINHO em segunda época de matemática. Pai- contador marcou horário de aula e quase toda noite, janeiro e fevereiro, estudos noite a dentro. Era quase preciso trancar LULA no quarto pois ficava a uma certa distância fazendo caretas para o irmão. Dia da prova, nem os pais souberam disso, LULA se ofereceu para fazer prova pelo outro. Ah, se fosse hoje... DNA sempre existiu, mas não havia ainda esse controle científico de 99,9%... Só falta hoje, DNA denu nciar até pensamento. Insistiu, acabou convencendo a “vítima” e lá se foi para uma prova brilhante: 10. “Garoto, como você ficou assim tão sabido de repente? Diga à sua mãe (coitada, inocente, nem sabia de nada, em casa acendendo velas e abastecendo o prato dos santinhos) que ela é esperta, mas eu também sou...” Professora psicoticamente geminiana, de horóscopo, “aprovou” o menino. Por uma destas complicadas doideiras políticas, começou a faltar tudo no comércio de comida, no Brasil inteiro - óleo (manteiga só no bife, aí sim), feijão preto (carioca se desespera se não comer todo dia), arroz (bem menos orientais no Rio), açúcar (clandestinidade, câmbio nigérrimo), leite, carne... até sal andou sumidinho. Mãe lavando a calçada, encostou um carro com um rapaz bem jovem. “Dona A... (falou certinho o nome dela), eu sou colega do Lula (popularíssimo no bairro todo), minha mãe está ali no carro (uma mulher com ‘cara de mãe’, o que não assegura coisa alguma, diga-se de passagem, sorriu e acenou com a mão), estamos indo fazer compras. Ele mandou o recado para a senhora me dar uma sacola, a lista e o dinheiro... Bom, era assim que se fazia. Vizinhança trocava informações. Nisto, TIDE veio de dentro de casa, radinho de pilha no ouvido. O visitante brincou de tomar o rádio da mão dele e perguntou (imbecil!): “Você é o gêmeo do LULA? Ele falou que você adora rádio.” Frase improvisada? Gracejo casual? Mas era verdade mesmo: dias, tardes e noites, estando em casa – música, notícias, esporte. Embora com eterno arzinho de alienado, TIDE chamou a mãe no canto e alertou, com a linguagem da época: “Mãe, é uma fria, uma furada. Não vê que ele perguntou se eu sou gêmeo do LULA?” Totalmente diferentes, até na altura. Mãe deu-lhe um ‘chega-para-lá’ e entregou o que pediram. Por via das dúvidas, TIDE memorizou a chapa do carro. Gêmeos - um e outro - chegaram juntos, não sabiam de nada, TIDE falou “Bem feito!” À noite, televisão mostrou o aparecimento, em rua bem próxima dali, de um carro que tinha sido roubado na véspera, também no mesmo bairro: moça bem jovenzinha fingindo ‘ trabalho de parto’ e ‘marido desesperado’ distraíram o motorista – olha o tal rapaz na telinha! No banco de trás, a sacola manufaturada de dona A......... Anos depois, adulto, vim ao Rio com minha mulher e um deles estava na fila do banco. Um ou outro? Indiretamente eu sabia sobre eles. MANINHO já casado há algum tempo, filho manhoso que ele chamava “meu gatinho”; LULA solteiro ainda, ultra namorador, enrolando quem ele chamava “minhas gatinhas”. Se era MANINHO, ficou vaga incerteza – contou travessuras do filho, plagiou a piscada de TIDE, para os santinhos. Agora o significado era outro. “Sabe quem sempre me pergunta por você, primo? Aliás, ‘furando’ a gramática, eu melhor diria ‘quens’...” Não precisei perguntar porque acrescentou rapidinho: “Ana Maria e Mariana. Perguntam sempre se existe porão na sua casa atual em Sorocaba. Excelentes professoras de anatomia...” Naquele tempo? Agora? Não ousei perguntar. Nunca esqueci. Duas gemeazinhas que namorávamos, LULA e eu, no porão não muito iluminado da casa delas, aquela coisa de ‘segredo-ninguém-pode-saber’, e LULA me jurara jamais contar a quem quer que fosse, até mesmo ao outro. Ou MANINHO e LULA se revezavam no mesmo papel de “alunos”? F I M
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Comentários dos leitores

Só vi este conto nesta manhã de segunda-feira, Dia Internacional da Preguiça, véspera de feriado, preguiça até para ler e tomar uma cervejinha. Athinganoi, meu amigo doce especial.

Postado por lucia maria em 19-11-2012

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