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OS MONSTROS DA CARA VERDE



					    
RUBEMAR ALVES De repente senti a necessidade de casar. Comodismo. Sob chuva intensa, ter que sair de casa para refeições. Consertar bainha descosturada de calça jeans. Controlar estoque da despensa e do freezer: café, açúcar, pão, queijos, salsicha, pizza e pratos prontos congelados... Pilhas de papéis para arquivar - contracheques, recibos antigos, contas a pagar, extratos bancários, anotações digitadas de meus escritos e depois publicações em sites literários etc. etc. etc. Entre uma secretária e uma esposa (palavra detestável - lembra fidelidade... masculina), melhor a segunda com funções múltiplas, inclusive de cama. Percebi que a vizinha do apartamento em frente, magrela, mas “apertável”, me olhava com insistência e algum interesse. Puxei assunto um dia, ainda não foram conversas íntimas, emprestei o celular, falou com a mãe, “...perdi o meu, um senhor (estou tão gasto assim?) aqui do prédio emprestou”. Procurei saber com o garagista - solteira, secretária bilíngüe numa empresa cinematográfica especializada em estórias românticas, não sabia trocar o bujão de gás, troquei uma vez, e morria de medo de aranha. Que tal a estratégia de um bichinho de borracha? Wonderful, marabilius, idéia maravilhosa, grande idéia... Céu azul, nítida paz. (No mundo?!) De repente, a vizinha do 8º andar - que sempre me ajuda nas reuniões de condomínio cobrando sem piedade as mensalidades que, felizmente uma minoria, os moradores de melhores condições financeiras gostam de atrasar em pura provocação, eu sei - abriu a porta do elevador, travou, lá dentro o marido muito pálido, vagamente curvado, mão na barriga, nem precisou tocar a campainha pois eu estava saindo para comprar o jornal de domingo e ela praticamente empurrou para mim o MOLEQUINHO de 5 ou 6 anos, grande mochila às costas, mordendo o sanduíche da mão esquerda, pacote de biscoitos fechado à direita. “Por favor, depois eu telefono para você!” O elevador desceu - 7º, 6º, 5º.......... e eu ali, sem prática nenhuma de lidar com CRIANÇAS. Atropelo de perguntas: “Tio, você me paga um sorvete? Na sua geladeira tem guaraná, não, não, prefiro suco de abacaxi. Ou chocolate quente? O senhor quando era garoto colecionava figurinhas, minhoca morta ou folha seca do parquinho? Na minha idade já beijava as garotas? A Aninha do 301 é mais grande e me deu um tabefe porque ela só gosta de japonês. Você (alternava o tratamento, por certo esperando bronca) é casado com mulher invisível?” “Mas o que foi que aconteceu na sua casa, afinal de contas? Nunca vi sua mãe tão assustada...” “É que o meu pai sentiu uma dor. A minha mãe está levando ele para o hospital. Não sei se vão tirar o coração dele ou cortar lá embaixo (botou a mão) ou se vou ganhar uma irmãzinha. Meu nome é DAVI, por causa de um *presidente (pesquisei depois), sou judeu, ela está vindo, vai ser a DÉBORA, igual à mulher que sentava embaixo da palmeira, minha mãe falou. Sinagoga é ruim porque eu não sento perto das meninas, sabe, tio?” Gostei do MOLEQUE - esse é dos meus. Bom, coloquei a mochila no sofá e descemos para a rua. Ele tirou do bolso da jardineira uma nota de cem, que a mãe dera para o caso de alguma “emessência” (devia ser emergência) e “sabia” perfeitamente que o jornaleiro não teria troco, sorriu com a recusa sorridente do homenzarrão (dez netos!), assim “não pôde” pagar o meu jornal, desculpou-se, e eu paguei para ele um monte de revistinhas e envelopes de figurinhas. “Dinheiro emprestado, viu, tio? Pagarei ao senhor quando eu estiver trabalhando na CIA. Quero ser astronauta, policial e pipoqueiro... Também estou devendo três milhões ao meu pai. Pagarei com juros, mas não sei o que é isto. Você sabe?” A vizinha (futura noiva?) estava no mercadinho comprando frutas, entrei, improvisei escolher bananas maduras ‘para hoje’, no mínimo entupir a boca do menino tagarela. A quase minha comprometida ajudou, um tanto curiosa: “Seu filho?” GAROTO mostrou a língua para ela e se atrapalhou: “Que boba! Eu sou tio dele... Eu sou judeu e o meu pai........” Paguei as bananas. Arrastei-o para a calçada. E lá fomos nós: Davi, eu e um cacho de bananas sem embrulhar. A mochila era um misto de tudo. Despejou no chão. Lata fechada com etiqueta em inglês, “green mask / jade”, uma aranha de borracha, quatro bombons num saquinho, figurinhas, lápis de cor, folhas soltas de papel, bolas de gude, três carrinhos quebrados (para que isto?), foto amassada (reconheci o casal, certamente alguma recusa ao PESTINHA...), dentes de vampiro, chaveiro com chaves enferrujadas, pequena tesoura, um pião de quatro lados (pesquisei), quatro orelhas plásticas, duas compridas como de coelho, duas arredondadas como de ratos, e uma muda de roupa (terei que dar banho no MOLEQUE?). “Vamos brincar, tio? Você tem quantos anos? Mais de cem?” Senti o BAIXINHO curtindo a minha cara, mas eu - babá de improviso e respeitabilíssimo síndico eleito e reeleito por unanimidade - não podia reagir, jogá-lo pela janela, amordaçar, meu forno nem é tão grande assim... Calculei para mais tarde um almoço na praça de alimentação do shopping. O que se pode dar a uma CRIANÇA desta idade? Eu particularmente gosto de comida colorida - um bandejão com salada de legumes, peixinho ou franguinho ou bifinho (será que ele come pelas próprias mãos ou terei que dar comida na boca do MOLEQUE?), “sobremesa somente se comer tudo” (frase odiosa)... Ele que guardasse a nota de cem. E se eu encontrasse algum amigo? A empresa inteira ficaria logo fazendo piadinhas: “Filho oculto até hoje, ‘papai’ Rubemar?” Sentamos no chão e acabou sendo tudo muito divertido. A primeira coisa foi nos vestirmos de Hulk - ele colocou o short verde que trouxera na mochila, vesti por conta própria minha camisa verde-musgo, bem velhinha, por sinal (cerzideira doméstica será muito bom: eu e meus pensamentos maléficos). Muito calor, sem perigo algum, deixei a porta entreaberta. Percebi uma pessoa entrando. Levantei a cabeça, o MOLEQUE também e escutamos juntos um indefinido grito feminino de terror. Sim, éramos dois monstros - caras e gargantas pintadas de verde (o tal creme cor de jade), um lado com orelha de coelho e no outro orelha de rato, o “filhote” com dentes de vampiro. “Ela é boba, não é tio? Não casa com ela, não.” Diante de mim um profetazinho judeu maroto, GAROTO de apenas 5 ou 6 anos de idade, esperto como aqui o solteirão invicto. Gostei mais ainda do MOLEQUE - esse é dos meus. NOTAS DO AUTOR: DAVID BEN-GURION - Judeu polonês, primeiro chefe de governo de Israel e um dos líderes do movimento sionista. DREIDEL - Pião de 4 lados, jogado pelas crianças durante o feriado judaico de Chanucá ou Festival das Luzes, para se distraírem enquanto as velas queimam. F I M
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Comentários dos leitores

Pois é, o narrador não quer uma esposa - quer uma cozinheira, arrumadeira, secretária etc. E ainda arrumou um secretariozinho desde já mau conselheiro. Que dupla!

Postado por lucia maria em 26-12-2012

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