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MEDO COLETIVO NA SEMANA SANTA



					    
RUBEMAR ALVES A MOÇA carioca foi convidada por amigos pernambucanos para passar os feriados da SEMANA SANTA num sítio em Itaboraí, Estado do Rio de Janeiro. ELA, urbaníssima: “Sítio? Como é isto?!” Não houve descrição satisfatória, mas convite é convite! Moravam todos no mesmo bairro do Rio de Janeiro, amigos dela, familiares destes e essa minha AMIGA: educada, porém um tanto xereta. (Só um tanto?! Muuuuuito xereta, sempre.) Ainda quinta-feira, saíram de casa, ônibus até o centro da cidade e em seguida a barca para Niterói. Dali em diante, outro ônibus, agora para o repouso e a diversão. Estrada, caminho longo, saltaram. Num repente, um dos homens gritou: “É a nossa vez!” E por minutos sumiram no mato alto, logo voltaram. Uma das mulheres gritou: “Agora nós!” Mesma cena. Reunidos, disseram com ares de comoção: “Que saudade!!!” ELA perguntou e informaram que era saudade da terra natal, de muitos anos passados, todo mundo usava o mato como se fosse um banheiro. Aí, “em casa de estrangeiro deve-se de cara aprender o idioma”, ELA os imitou: aliviou-se. Um casal mais velho que todos morava na casa. Muitas redes, uma cama grande, duas estreitas, mesas rústicas de tábuas compridas, pregos nas paredes para as roupas, havia fogão a lenha numa cozinha de chaleira e muitos tachos (uns de cobre, outros de barro)... gostou! Para ELA, grande filósofa de frases genialíssimas, “palacete e barracão têm o mesmo número de letras”. Local sem eletricidade, experiência dela a caminho. Tinha sido avisada, levou o radinho de pilha (que nem chegou a ligar). Nada a assusta: ouvira em casa que familiares do passado usavam lampiões e f erro de carvão... passando roupa no capricho. Porque gente muito antiga conserva hábitos mesmo em tempo de progresso. Um menino de doze anos (*idade exata de JESUS em certo momento histórico do Cristianismo), filho da dona da casa, mostrou uma linha de trem abandonada, passearam sobre dormentes, tentaram se equilibrar nos trilhos, caíram! Soltos, pelo caminho, bois mansos e burros pacíficos... Havia perto um casal de alemães, idade avançada, a esposa fazia doces ma-ravi-lho-sos, ELA comprou sidra cristalizada, torta folhada de maçã, o famoso apfelstrudel (respeitosa e milagrosamente, não pediu receita!), também ovos recheados com chocolate, casca pintada em diversas cores, e licor de leite de cabra. Disse que sabia “falar alemão”, contou de 1 a 10 (eins, zwei... zehn) que aprendera com o marido de uma tia... risadas gerais, saiu saltitante. “Auf wiedersehen!” (Até logo.) Em casa, perguntavam-se uns aos outros: “Já pensou?” Respondiam que sim ou que ainda estavam pensando. Minha AMIGA não entendeu nada, mas respondeu igual. Por certo imaginavam que a senhora a tivesse colocado a par do que aconteceria à noite. Lancharam bolo de fubá ao coco ralado e café nas canecas de lata de leite condensado; conversaram; jantaram sopa cremosa de carne com inhame liquidificado que trouxeram desde o Rio. “Ah, por isso enorme bagagem!” - somente pensou. Pernambuco, E LA só conhecia do atlas escolar, de versos rimados e das lendas de cangaceiros ora ferozes ora cheios de perfume e dançarinos de xaxado. Perto das dez horas, acenderam fogueira não muito alta e lampiões em galhos das árvores. Cadeiras em círculo, apareceram um violão e uma sanfona. O dono da casa lembrou a todos (novidade para ELA) hábitos regionais na noite desta quinta-feira, quando deveriam contar estórias fantásticas, ao redor vinho tinto temperado com ervas, fogueira iluminando, esquentando o ambiente e a bebida. Somente então ELA entendeu que o pensar era inventar uma estorinha. Fartura de comidas: pão branco, bolo de fubá, bolo de aipim e castanha de caju, chamado pé-de-moleque, espigas de mil ho e pedaços de cordeiro assados na fogueira, compota de pitanga, creme doce de graviola, goiabada “importada”, laranjas, cerejas de café (ao natural, que delícia!), refresco de umbu, café adoçado com rapadura, muita coisa... Fundo musical sem música específica. Houve o primeiro contista, aplausos, o segundo, aplausos, o terceiro, aplausos, ELA se ofereceu. Lembrara da mãe repetindo estórias de assombração ouvidas de uma velha tia portuguesa que aprendera com a avó... que também aprendera com a avó... remontando se possível aos primórdios de Portugal, 1139, Castelo de Guimarães. A CARIOCA pensou-bem-pensado, juntou novos elementos, fez uma verdadeira “salada” literária (embrião de futura escritora?!) que incluía alma penada de donas suspirosas e tristes cavaleiros-cavalheiros (aparecem na literatura de cordel nordestina), amores não realizados (tragédia empolga mais que comédia), mouros invasores, lua minguante, gato preto de olhão verde esbugalhado, dragão incendiário, bruxa de contos de fada, trevo de (aqui, errou!) sete folhas (ah, mas 7 é número cabalístico!) e o gi gantesco assustador Golem judaico, homenageando na hora os cristãos-novos da terra de seus avoengos; aplausos; e assim foi indo............... O limite de tempo é meia-noite, não atingir a sacratíssima Sexta-Feira Santa, os outros contadores de estórias diminuíram o tamanho das narrativas. Aplausos, sempre. Acontece que sí-tio-é-sí-tio-e-mato-é-mato, independente da geografia. Começaram piados que atribuíram a uma coruja. Tempo de lua cheia (anos depois ELA descobriu datas móveis seguindo o calendário lunar: sempre assim toda SEMANA SANTA), aquele bolão prateado no céu de bairro sem luz alguma que nessa noite parecia sem manchas - São Jorge e o dragão talvez estivessem do lado não visível da lua, cerveja ou pinga no copo, distraídos com a tevê ou jogando baralho. Morcego abriu as asas em boa noite e sobrevoou de perto o grupo de ficcionistas animados. Grande galo vermelho e azul escuro brilhante fez um co-có-ri-có escandaloso em tom de ópera-bufa napolitana, arrepiou as penas, pareceu agigantar-se. Gato preto arqueou o corpo e se arrepiou todo. Cachorro acordou e uivou na direção da lua. Um cavalo relinchou em outro sítio vizinho. Ouviram da igrejinha um tanto distante as iniciais badaladas da meia- noite, confirmadas dentro de casa em velhíssimo carrilhão que numa das tais narrativas aparecera como herança de um vampiro da Floresta Negra (mentira: fabricação paulista). Há um ditado popular: “Pernas para que te quero.” Saída do ambiente fantasmagórico e mítico em fuga imediata, debandada geral, todo mundo entrando atropeladamente pela porta estreita, ELA foi a última, coração na mão, rápido minuto um tanto indecifrável. No ponto de vista urbano, sem lendas e mitos enraizados desde a infância, apenas reações em cadeia como na fissão nuclear. E do fundo da memória surgiu a figura de um certo professor de 1,80, Gigante como um deus grego, sedutor e hipnotizador como um cigano: “Tetraedro do fogo é a soma de combustível + comburente + calor, cujo resultado pode até ser incêndio em dois corações.” (Nunca um único beijinho, foi cursar doutorado no exterior e pelo correio somente um postal com o retrato de um eterno Peter Pan, como ELE dizia de si próprio, o menino sozinho que nunca irá crescer.) Divagações inúteis. Amanheceu, os homens chamaram as mulheres de medrosas, mas não souberam definir porque foram os primeiros na corrida espEcial (espAcial, não!) da meia-noite. ----------------------------------------------------------------------------------------------------- NOTA DO AUTOR: *Segundo o Evangelho de LUCAS, o jovenzinho JESUS de 12 anos (dizemos hoje pré-adolescente) viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém, como faziam todos os anos, para a celebração do PESSACH, a PÁSCOA judaica, e desapareceu. No terceiro dia foi encontrado pelos pais no Templo, discutindo inteligentemente religião com os sacerdotes, maravilhados com a “aula” de um ente divino ainda imberbe e filho de gente muito pobre. F I M
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Comentários dos leitores

Amo folclore. Adorei! Já participei de uma reunião parecida em que cada pessoa pegava um papel numa sacola e tinha que inventar na hora uma narrativa com saci pererê, iára, boitatá, curupira, lobisomem etc.

Postado por lucia maria em 26-01-2013

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