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MEU PAI: CONFIDÊNCIAS TRISTES



					    
RUBEMAR ALVES Era o FILHO do meio. Classe social desfavorecida, contudo estudara mais que os outros DOIS, a ambição é que nos impulsiona para a frente. Sempre em escola pública, quatro anos além do primário, educação geral em paralelo a um excelente curso técnico de eletricidade, especialização em montar ou reformar lustres de cristal, aqueles com copos ou mangas de vidro, lâmpadas dentro, correntes de bolinhas transparentes presas por pequeníssimos alfinetes. PATRÃO francês no centro da cidade, loja chique, venciam facilmente as concorrências públicas (hoje licitações) e assim, pessoalmente, ELE trabalhou nos mais importantes palácios e prédios públicos da cidade, incluindo ministérios da antiga Capital Federal. Ah, estudou inglês – conheceu vinhos e queijos importados, aprendeu a diferenciar os variados tipos de patê e champignon. Foi capitão de regatas, jogou tênis e aprendeu boxe – há fotos! Quarta década do “novo” século – século XX, imaginem! Apelidou a namorada de ROSINHA (cor e flor prediletas dela), não houve dinheiro para aliança de noivado, houve economias para o vestido branco, o véu e o buquê, desta vez com aliança. Racharam despesas sem a obrigação de para este dia “quem-deve-pagar-o-quê”. “MULHER minha não trabalha!” – talvez fosse romântico ouvir isto, proposta do vaidoso provedor, na época. Hoje, no primeiro minuto em que se conhecem, o rapaz pergunta – “Trabalha onde? Ah, e cursa faculdade noturna?” Ora vejam... Tempos modernos, atuais. Pouca instrução, operária numa fábrica de cigarros, largou o emprego (início das leis trabalhistas com carteira assinada e férias) para... casar. “FILHO meu em creche de fábrica, nunca!” – o PAI sentenciou. ROSINHA ganhou da tia do marido, costureira conhecida, estilista por vocação e instinto - ensaio e erro -, uma farta coleção de livros da literatura brasileira – José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Bilac e outros. Nasceu a MENINA, de um parto difícil, não haveria outra criança, logo cedo acostumada a assistir corridas de cavalo no hipódromo da cidade (mais tarde, família de TRÊS elementos na inauguração do Maracanã, entrada gratuita, em que cariocas perderam para o time dos... paulistas). PATRÃO um dia reuniu todo o pessoal da loja e propôs a criação de uma sociedade anônima. O adjetivo chocou bastante (“Anônimo é sem nome...”), causou debates e ELE, mais esclarecido, foi encarregado pelo francês de explicar sobre o assunto. Houve a votação... anônima... bastava S ou N no papelzinho (para não reconhecerem estilo da letra na apuração – Virginiano é sempre detalhista e sutil), e pela diferença de apenas 2 votos venceu o NÃO. “Ah, naturalmente você não soube argumentar direito!” E o PATRÃO citou Charles de Gaulle, veterano da Primeira Guerra Mundial, já estavam na Segunda, defensor da aviação militar etc. etc. etc. Era o assunto da época. A MENINA era danada de esperta, ouvia do PAI as notícias através do rádio e corria a vizinhança contando estórias do “General Chuchu”, para ELA um homenzinho verde. Ganhava biscoitos (assim como alguém joga sardinhas para uma foca treinada.) DEMITIDO! Só ELE. Um Tiradentes comercial. Gorda indenização. A meio caminho dos quarenta anos. Sonho. Montar uma loja, trabalhar por conta própria. Bairro da Lapa, apenas miniatura da antiga loja – há fotos! Iluminação em geral, na maioria, também um pouco de louçaria fina: compoteiras, pratos de bolo, taças transparentes. A FILHA encantou-se. Catava letras na máquina de escrever e atendia telefone (incomum na época): “Aqui, Loja Pax, eu sou a secretária. Quer que eu conte uma estória?” Predestinada. Mas aí, sabe como é, dinheiro mais gordo no bolso, descobriu a existência de outras mulheres além da de casa. Uma esperta, separada do marido, virou amante. Duas filhas pequenas, ELE comprava fogos juninos e brinquedos para as TRÊS crianças, dizendo cínico que era “gente boa para fazer amizade”... A FILHA era intituitiva, não entendeu, porém percebeu energias negativas, arrepiava-se, não gostou daquela gente, via a MÃE agora chorando muito e lendo os tais livros cada vez mais, “...para pensar menos”, explicava à FILHA. E na escolinha diziam que ler era “pa ra pensar mais”. Contradições de gente grande. ELE saía para encontrar a segunda, largou a loja por conta de empregado (não era imitando o PATRÃO francês, cautelosíssimo!), passou a deixar papéis assinados em branco, empregado virou sócio, reviravolta, depois empregado virou patrão, faliram! A amante? Sumiu. Fim da guerra. Começaram os novos projetos. A MENINA era danada, do tipo “roubar a cena para si”. Aos sete anos, veio ao Brasil o presidente dos Estados Unidos, campanha da “Política da Boa Vizinhança” (na verdade, interesse de investimentos nos outros países da América Latina), muitas crianças na recepção, dentro do gramado do hipódromo, ELA ganhou uma bandeirinha (na sua vez, só havia verde-e- amarela), aí HT (iniciais do presidente) ainda a botou no colo, porém imediatamente dispensada sem fotografia. Em pensamento, chutou a perna de todo mundo, mas educadamente falou “I’m sorry. Thank you.” Não ganhou biscoitos, o fotógrafo norte-americano riu muito. Foto extra sem o presidente. Emprego fixo não aceitou mais. “Chega de ser mandado.” Mandado por um PATRÃO que o instalara gratuitamente no curso de inglês, ensinara gostos distintos e o encaminhara como conselheiro a diferentes modalidades esportivas??? Não foi um perfeito estrategista, mas tinha sido um excelente eletricista, discreto em nunca denunciar as tais licitações (como se diz hoje) ‘fajutas’. Abria oficinas em porões infectos ou garagens abandonadas: mistura de má sorte e pouco juízo. Ou clientela tão carente quanto ELE, pedindo conserto simples em ventilador ou troca de uma lâmpada em abajurzinho de cabeceira, ou os de melhor nível (até certo compositor musical ainda vivo e um maestro, porque um cliente o indicava a outro) para lavagem e remontagem dos lustres de cristal, que, servidos, avisavam o porteiro do prédio em bairro de elite que o ameaçasse com polícia se “ousasse aparecer para cobrar”. Fazia biscates na profissão que exercia desde novinho, bolso sempre magro. Pelo menos sem vício – bebida ou cigarro. Limitava-se a marcar no jornal os possíveis ganhadores (tem que conhecer até a filiação do cavalo, o haras, as mais recentes conquistas na grama ou na areia pesada...) e a FILHA, esta desde cedo em luta pela vida, de vez em quando o ajudava pagando uma apostazinha, das mais baratas. Poucas distrações – radinho de pilha e jornal aos domingos. Autodidata, lia livros agora universitários, ELA na UFRJ - sabia tudo, brilhava em todas as conversas, opinati vo ético e lógico.. Num elevador, uns rapazelhos caçoaram dele, escutou “old scruffy man” (velho mal vestido), deu um sermão em inglês que deixou os rapazes boquiabertos. Certa vez, num empreguinho como ‘apontador’ clandestino de apostas em cavalos, apareceu um estrangeiro perdido, tomara um táxi, largado em bairro distante – levou-o em casa, ROSINHA deu almoço, depois o recambiaram ao consulado: gratificação em poucos dólares, aceitou com muita vergonha, mas já serviu bastante. Anos e anos de trauma, fracasso em cima de fracasso, e durante muitos anos sempre dizia a clássica frase: “Agora vai certo, ROSINHA.” Nunca deu. A FILHA se fez sozinha, embora bem jovem tivesse escutado “FILHA minha não trabalha!” Trabalhou em diversos lugares. E aprendeu cedo a renunciar ao que não se podia comprar, de cabeça erguida e dizer, da boca pra fora, com muita mágoa, que “nada é importante” – móvel moderno e bonito, enceradeira elétrica, televisão, vitrola, granfinismos... Com o passar dos anos, ELA casou, não teve filhos, enviuvou, agora podia comprar, relutando em comprar, escolhendo tudo sempre bem baratinho... Hoje as pessoas riem e desacreditam quando ELA conta que não havia dinheiro para a latinha de graxa, então ELA “engraxava” o sapato escolar com flores esmagadas: brinco-de-princesa ou mimo-de-vênus, que pegava às escondidas pela grade do jardim vizinho. Ou a parte interna da casca de banana. Escovadelas e o brilho surgia. A cada seis meses, saia “nova” para a escola. Fácil! Muita gente fazia. Virar do avesso, desmanchar costura por costura, tingir de azul marinho e costurar tudo novamente pelo lado contrário. Carente existia e se virava sozinho, sem “bolsas” de ajudas federais e estaduais. Filho/filha na escola? Povão que comprasse o uniforme e o material escolar... Tratamento duplo em família (e ELE muito se magoava) – cunhados, sobrinhos... Deboche: menosprezado pela baixa condição social, pouco favorecido. Inveja: agredido pela boa cultura e nestes momentos virava o centro da conversação, fosse qual fosse o ambiente, a assistência ou o tema da conversa – muito aprendiam com ELE, sempre. Solicitado em família para serviços de eletricidade. Ué, por que não chamavam outro especialista? Porque com o otário, o idiota, era de graça – bastava o passagem do ônibus. Foi acumulando várias doenças, sem que queixar. Em casa custaram a perceber. Quando genro notou, já era muito tarde. Numa noite, sessenta e nove anos de idade, reuniu a MULHER e a FILHA, que morava perto, pediu que ROSINHA segurasse a mão dele e a FILHA o massageasse no ventre, como o massageara nas pernas, ELA ainda garota, o PAI num estranho reumatismo paralisante que logo veio e logo passou. Ficaram os TRÊS unidos por meia hora, resmungou baixinho “EU sou um fracassado!” Comovidos, lágrimas só por dentro. Amanheceu morto parecendo sorrir. Para quem acredita, finalmente descansara. F I M
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Comentários dos leitores

Vida real. Aprendi a ser dura e não chorar fácil, mas "lá dentro" eu me comovi muitíssimo. Você conhece a filha dele? Valente e impossível de alguém abater, pelo que entendi.

Postado por lucia maria em 26-01-2013

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