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QUE SUFOCO PASSEI NAQUELE DIA!



					    
ELA diz sempre que tem cultura de liquidificador ou de almanaque. Que pode até mesmo se perder nos assuntos, mas sempre por cima, sem escorregar no ‘quiabo’ que as pessoas jogam. ELA contando: EU não tenho essa cultura toda, assim abrangente, sei muitas coisas miúdas e já sabia antes do hábito de computador. Consultar Google? Não havia esta facilidade – era usar olhos, ouvidos, boca, cérebro... e olhe lá! Comecei a Faculdade de Letras da UFRJ em 1970 e tínhamos aulas de português e língua estrangeira três vezes por semana. Tranquei matrícula, voltei no ano seguinte, simpatizei com o nome do professor, Flávio Luís (não o conhecia), encaixei minha matrícula nesta turma de português, por acaso com algumas alunas moradoras da zona sul - “outros” hábitos, oriundas de colégios particulares de alto nível, muito mais acesso cultural, diferente convívio. Não havia essa de ‘virar a cara para o outro lado’, cultura nada mais é do que uma troca de conhecimentos, mas EU tinha meu grupo mais íntimo, quatro ou cinco amigas, entre quem também trancara português ou todas as disciplinas, cada uma no seu motivo - no que ELAS me viram na tal turma, vieram se juntar. Primeiro semestre de 1971, trabalho de semântica em livro de contos do meu amado (respeitabilíssimo!) escritor mineiro João Guimarães Rosa e o jovem professor dividiu a turma em duplas, distribuindo os trabalhos - oral e depois escrito. Que sufoco passei naquele dia! Quando determinado pequeno grupo começou a falar em seminário sobre “Um moço muito branco”, uma das gurias da zona sul (fora deste grupo) comparou em voz alta com o filme “Teorema”, de 1968 - EU sentada ao lado, botou a mão no meu joelho e se dirigiu mais particularmente a mim, que não sabia de nada, tá? Nada, não exatamente: quase nada, ainda. Crítica às instituições e seguimentos da sociedade italiana: futilidade, comodismo e alienação da burguesia - aprendi depois. Filme narra a influência de um indivíduo sobre todos os membros de uma próspera família burguesa. Drama, na própria acepção da palavra. Sabia assim ‘pouquinho’, lera resumo da empolgante estória, e em minutos, que me soaram como “48 horas”, tive que repassar, invisível, parte da biografia e a até então filmografia de *Pier Paolo Pasolini (pintor, professor, poeta, novelista, crítico literário, depois diretor de cinema), geografia (a bota jogando futebol) e unificação política da Itália (monarquia versus burguesia, ao longo do século XIX) - salada sem orégano e tomato/formaggio (tomate/queijo) em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro. Madonna mia! O mais difícil, EU sabia, o mais fácil, não... (Na ocasião, faculdade bem no centro da cidade, quase vizinha da igreja barroca de Santo Antônio de Pádua /Padova, Itália/, que EU freqüentava desde as intermináveis trezenas de minha mãe, ainda bebezinha de colo e mamadeira, acho que ELE me ajudou.) Pouco antes aconteciam as sessões intelectuais do Cinema Paissandu, no bairro do Flamengo, à meia-noite. Morando no subúrbio, bota longe nisso, nunca fui - só ouvia falar ou lia em jornal. Conforme a guria falava que “um elemento estranho surge e desestrutura toda uma família” (no filme), EU dizia “Ó, sim, sim, abalou todo mundo.” - É, EU falara a mesma coisa com outras palavras... “Personagem sem nome”, ELA falou - classifiquei como “um anjo exterminador ou simplificador”, EU falei. - Encaixou. “O carteiro Ângelo o anuncia – quando chega, quando vai embora” - “Sim, um Gabriel estilizado”, acrescentei. “O hóspede misterioso lia Rimbaud” - do nada, lembrei ‘traficante de armas de fogo no norte da África e poeta que deu cor a cada uma das vogais’ - “É, poeta francês que chocava a burguesia da época, com lindos olhos azuis, mas comportamento tido por amoral.” - E EU me saí bem, muito bem, mais uma vez. “Repressão dos desejos de cada um...” - falei um pouco sobre “interioridade”. ELA citou a empregada como representante do proletariado, solavanquei sobre diferença de valores das classes sociais, este a serviço da burguesia. (Céus, isso devia ser capítulo memorizado de algum livro de sociologia...) - Mentalmente EU me bati palmas. “O paterfamília se despe literalmente de seus trajes...” - EU concluí: “Representação dos valores ideológicos.” - Ah, Francisco de Assis! Algumas observações mais, sempre no mesmo estilo. ELA falava, EU complementava com palavras outras, nunca ocas, e assim foi por longos minutos. Filme de tema difícil, quando ELA dizia ‘esta parte não entendi muito bem’, EU revidava ‘entendi mais ou menos’. Ninguém interrompeu: “Também assisti.” “Foi assim mesmo...” “Não foi, discordo em alguns pontos...” Todos calados. Minhas amigas sorriam, quietinhas. (Luta de classes?) De repente, percebemos o silêncio na turma: talvez alunos para quem o assunto seria também novidade ou não queriam intervir em nossa “brilhante” (?) exposição, só nós duas falando... Muita gente fazendo anotações... Rimos, desculpas ao professor e ao grupo emudecido no tablado, aula continuou. As minhas íntimas, todas da zona norte, vieram depois me perguntar sobre o filme e não acreditaram quando falei - ‘aprendi agora!” ----------------------------------------------------------------------------------------------- *Seu corpo viria a ser encontrado no dia 2 de novembro (finados!) de 1975, na praia de Óstia, não muito longe de Roma, misteriosamente assassinado... FIM
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Comentários dos leitores

Estória apaixonante! Suas "centenas" (?) de amigas cariocas existem ou é uma só musa inspiradora com muitas faces? Pesquisarei sobre Pasolini e Proust e Baudelaire para melhor entender o que você escreve... Parabéns!

Postado por lucia maria em 03-02-2013

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