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A LITERATURA ETERNIZA O HOMEM



					    
RUBEMAR ALVES Sonho recorrente. Sonhava sempre estar dentro de um casarão velho, caindo aos pedaços, portas que rangiam como um castelo mal assombrado. Muito vento morno, como um sopro de dragão cansado. ELE “sabia” ter três ou quatro andares. Cinco ou seis pessoas velhas, feias, homens e mulheres, longos cabelos cinzentos desgrenhados. Tocos apagados de velas, morcegos cortando o ar, cheiro de enxofre misturado a muito éter. Entontecia no sonho, em passos trôpegos, febris, e fala pastosa. “Sabia” que era Rio de Janeiro, onde nunca estivera, bairro tradicional de Santa Teresa, que vagamente conhecera pela televisão e por fotos dos Arcos. Medo. Não achava saída para a rua e uma mulher como que lhe adivinhou o pensamento: “Largo do Guimarães....” - gargalhada sinistra. “Não, nada disso, o moço tem que saber a informação certa. Largo dos Guimarães...” - outra gargalhada. ELE nem teve tempo de piscar, as duas mulheres se atracaram, por minutos na cena clássica feminina de uma puxar o cabelo da outra, uma arrancou totalmente os cabelos da outra, sem uma gota de sangue, e em seguida outra arrancou de uma o nariz, as duas agora inteiramente transfiguradas. “...uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão...” - lembrou-se de uma leitura ainda no tempo de ginásio, “O BEBÊ DE TARLATANA ROSA”. Um homem vestido de cigano chegou perto das duas, um punhal em cada mão, matou-as sem piedade e foi limpar as unhas com a ponta de um canivete. Viu-se fora do casarão, numa praça, uma placa em frente á outra, nas paredes, Largo do Guimarães e Largo dos Guimarães. Bondinho elétrico passando sobre trilhos. Folheto gratuito numa loja - um tal Castro vendera a chácara a um tal Guimarães, no ano de... 1856. A cena mudou súbito. Um enterro, alguém informando que cerca de cem mil pessoas, nas ruas, acompanhava o enterro até o Cemitério de São João Baptista (acentuando bem a pronúncia do ‘p’) e acrescentava - “...um oitavo da população do Rio”... Ora, cemitério de “povão” mesmo nunca é granfino como este em Botafogo, zona sul da cidade, pelo menos era o que os noticiários mostravam. Dizia NELSON RODRIGUES na peça BONITINHA MAS ORDINÁRIA, 1962: “Caju (avenida Brasil), cemitério de cabeça de bagre”... “Mas quem morreu?” - perguntou educado. “Quem morreu?” - gritou. Aparecia um homem gordo, porém elegante, muito bem trajado, colete (nota do narrador - nenhuma inovação em uniforme de ministro ambientalista no século XXI), também chapéu-panamá, aba larga, com uma fita, elegância dos dândis da época e ao mesmo tempo símbolo da malandragem da Lapa antiga (narrador outra vez - bairro hoje cultuado pela arte e pela música - ah, e pelos atemporais chopinhos!) - “EU! EU morri. EU, fascinado pelo submundo, que em 1908 defendi o direito de qualquer greve, que divulguei OSCAR WILDE da velha Londres para o Brasil, serei imortal nos livros. Nunca me esquecerão.” Muitas vezes meu AMIGO beijou o escandaloso despertador matinal em agradecimento. Aí, dois meses, um mês, quinze dias, lá vinha o sonho novamente. Cada vez mais incomodativo. Aterrorizante. Psicótico. O que sobretudo o impressionava eram os detalhes, as minúcias. Lera, sim, um conto de terror na aula de português - cenário de carnaval, fantasias nada sutis, muito álcool. Corpo sem cabeça ou cabeça sem nariz? AMIGA carioca informou que existia d e fato este largo em Santa Teresa: 1856... Depois 1908 - o povo pode defender a greve? Sindicato ajuda ou a polícia abafa a cacetadas? Inglaterra, capital Londres. Tentava relembrar quem tinha sido OSCAR WILDE. Oscar, não o comediante espanhol das chanchadas brasileiras nem o arquiteto internacional das linhas curvas, não o basqueteiro, não a estatueta de cinema... Sobre WILDE, achou vago comentário. “Criou o dandismo. O belo como antídoto para os horrores da sociedade industrial, sendo ele mesmo um dândi.” Ás vezes sonhava a primeira metade: o casarão. Acordava, um gole de água gelada, não sabia se continuara sonhando, acordava tranquilo. A segunda metade aparecia na noite seguinte, acordava cansado, puxando pela memória. Ou duas partes na mesma noite - sim, terror absoluto. Numa noite romântica, acordou com os gritos da namorada cujo nariz ELE apertava. A moça começou a gritar e fugiu num táxi em camisola de dormir. Tentou difamá-lo, mas ELE era mulherengo, infel, as pessoas diziam “s im, sim”, sem acreditar nela. Briguinhas, talvez... Consultou psiquiatras e pai-de-santo. Não é um problema edipiano (Freud). Encosto de egun (alma) também não. Psicólogos, hipnotizadores e mãe-de-santo: “Você tem que chegar à origem do trauma.” Abandonara namorada grávida? Medicina clássica, medicina alternativa. Tarjas pretas, chás, massagens, teosofia (grego, a sabedoria de Deus - mas nem o Divino estava a fim de ajudar). Nada de melhoria ou cura! Pediu férias do emprego. Sair “pelo mundo”. Pelo mundo, não: muita coisa! Pegou parte da poupança: Rio de Janeiro! Em pleno aeroporto, ainda em São Paulo, encontrou um velho AMIGO fiel que não via há... (contaram nos dedos) “sete anos”! Voos como sempre atrasados, falaram de estórias antigas e deram boas risadas AMIGO lembrou da misteriosa febre que ambos tiveram no Araguaia, um febrão dos diabo s, além dos quarenta graus, em dias alternados hotel-hospital, hospital-hotel. “Pois é, mano. Nenhuma distração mais emocionante. Pescaria, banhos de rio, muito mosquito, depois enfermeiras bonitas, a maioria freiras. Havia uma biblioteca farta, você leu o mesmo livro repetidas vezes, com febre e tudo, nos últimos dias é que o médico viu e proibiu. Mandou desacordar você à força, éter no algodão. A enfermeira-chefe disse que ELE jogou o livro na água e os peixes imediatamente devoraram. Existe piranha ali? O tempo passa depressa... Sete anos.” Era pouco mais do sonho recorrente. Apertou o braço do AMIGO, em desespero. “Por favor, me ajude, você lembra o nome deste livro?” “Eram contos. Contos e biografia de JOÃO DO RIO. Parece que você já conhecia uma das estórias, a de um bebê colorido, acho................... Ei, aonde você vai?” “Para casa. Esqueci de apagar a luz do quarto.” Estava curado. ------------------------------------------------------------------------------------------------ NOTA DO AUTOR: JOÃO DO RIO - Pseudônimo de João Paulo Barreto, 1881/1921. Carioca nascido no centro da cidade, rua do Hospício (atual Buenos Aires). Jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1910, foi o primeiro a tomar posse usando o hoje famoso “fardão”. F I M
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Comentários dos leitores

No início do século XX (novela das 6), os cavalheiros eram mais cavalheiros e a dama nem precisava pedir orquídea........... No meu sonho recorrente, não aparecem fantasmas e sim um Gigante cantador. Ótimo e instrutivo conto.

Postado por lucia maria em 14-02-2013

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