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O MUNDO É PEQUENO III: REENCONTRO DE CULTURAS



					    
RUBEMAR ALVES Meados de 1958. Conheceram-se por cartas... ELE viajara para o Egito, militares da farda verde, brasileiros a serviço da ONU desde dezembro de 1956; colocou anúncio em jornal de farta circulação pedindo a tal “madrinha de guerra” para dois canadenses, ELA querendo treinar inglês, mas por intuição e extrema delicadeza escreveu para ELE também. Trocaram breves informações, estrangeiros jamais responderam, em pouco tempo ELA não recebeu dele além da segunda carta ao longo de meses. Apenas o sabia nissei, familiares no norte do Paraná, pequena cidade japonesa até no nome. Perdeu o interesse pois escrevia para muitas pessoas desde o ginásio – mais um, menos um, que diferença? Nenhuma. 1959. Sonho estranho, despertador tocou escandaloso. Jerusalém, Muro das Lamentações, mas havia pirâmides (tinha postais em casa), uma pessoa (parecia uniforme de camuflagem sob uma capa escura) montada num... camelo. Que ELA viu, viu sim, mas nem Freud traduziria. Detestava suas intuições, no geral infalíveis. (Até hoje!) No domingo de Ramos, missa tradicional, em seguida um teatrinho de artistas amadores, Jesus com longos cabelos montado num burro. Foi e voltou rapidinho com a mesma idéia estranha, intraduzível. ELA batia um bolo de chocolate quando ELE bateu na porta. Identificou-se: “Vim conhecer a madrinha...” (Madrinha de guerra incentivando... A idéia teria surgido com os norte-americanos durante a II GM?) Fez café que ELE tomou salgado sem reclamar (podia ser costume familiar dela): nervosa, perto de 20 anos, a garota trocara açucareiro por saleiro. Bolo fofinho. Paulista do interior, crescera no Paraná, morava sozinho no Rio desde antes do quartel. Saíra de emprego em farmácia para ser soldado e depois cabo-enfermeiro em tempo curto. Não tão religioso, mas trouxe para ela bênção papal (uma espécie de ‘diplominha” enrolado e atado com fita - militares em Roma na ocasião do regresso) e acabou ficando para o almoço naquele dia. No domingo seguinte, a pretexto de “Feliz Páscoa”, ELE telefonou e voltou no terceiro domingo. Agora vagamente íntimos, presenteou-a com um Chanel nº 5 (folgas em Paris após não sei quantos dias de ‘serviço no deserto africano...’), camisa de xadrez comprada no Líbano e mostrou fotos – olha ELE sobre um camelo, caracterizado como árabe, espécie de manto preto sobre um uniforme ‘estampadinho’ em verde e marrom, pirâmides ao fundo, igualzinho como no sonho... No Egito. Enfim, é tudo Oriente Médio – fronteiras próximas, distâncias poucas. Acabaram namorando. Não como todo mundo namora. Em plena metade do século XX, ELA só deveria andar quando ELE já tivesse caminhado cinco passos. Costume japonês? Centro do Rio de Janeiro (Tóquio-Hokkaido-Nara, do outro lado do mundo), a passeio, que vergonha! - todo mundo olhando e rindo. “Ué, nunca estaremos lado a lado?” Perdeu-se dele, certa vez, no centro da cidade porque justamente no meio da multidão, sinal abriu, ELA bem atrás, não percebeu que rumo ELE tomou. Depois, cada um em diferente ônibus voltando para a casa dela. Levou-a para jantar numa pensão japonesa, sobrado numa travessa perto da Praça XV, cuja clientela eram em maioria diretores nipônicos de famoso estaleiro com filial no Rio. Ainda não tempo de restaurantes decorados à moda japonesa, com descendentes recepcionistas em trajes, peruca armada e maquilagem branca de geisha. Ternos e gravatas conversando em japonês, riam muito, ela aprendeu na marra a usar os palitos (hashi) ou não comeria nada! Namorado não permitiu garfo. Ainda não viu naquela noite o que era sushi, o que era sashimi – foi yakisoba e tempura de camarão: gostou! Depois ELE a segurou firme pelo braço, demonstrou “posse” perante todos e, numa espécie de depósito atrás de uma cortina vermelhinha, com uma rede esticada, cachos e mais cachos de banana verde, muitas prateleiras repletas de bonequinhos, budas e pacotes fechados, compraram doce de feijão e uma garrafinha de saquê produzido em... Campinas. ELA não compreendeu lá muito bem quando ELE disse precisarem de um ‘nakodo’ (intermediário casamenteiro na cultura japonesa: mulher a serviço da noiva, homem a serviço do noivo) que fizesse contato entre as famílias com indicação para casamento. Visitaria os pais de um e de outro, medindo semelhanças de vida, de status social e econômico, educação e escolaridade, doenças graves ou hereditárias nos ancestrais, e mostrando as vantagens de uni-los, formando nova família. A partir daí, um encontro (‘miai’) em almoço ou chá, em que o ‘futuro’ casalzinho de namorados/noivos seriam “apresentado s” um ao outro. Sempre na presença do intermediário, nunca sozinhos. ELA que se acostumasse a tirar sapato antes de entrar em casa. “Ué, e vou calçar o quê? Andar de meia ou descalça o tempo todo?” Para residência, ELA teria que viver com a família do marido, mas ELE (dizia-se “muito bonzinho e cordato”) escolheria entre a propriedade rural dos pais, região de Londrina, ou a ainda Capital Federal. No Sul, ELA aprenderia a cuidar dos laranjais, dos pés de café... talvez ‘merecesse’ um canteiro de rosas se tivesse bom comportamento de esposa e mãe. Se ficassem no Leste, dona de casa (dona?!) e mãe no mínimo de três filhos, menino mais velho para tomar conta de irmã menor. ELA estranhou, é claro e natural: “Ué, mas nós já não estamos namorando há quase quatro meses?” Muito atrevida para o gosto e as teorias (atrasadas!) dele - contou de um a dez em japonês (“ichi, ni, san... juu”)... e calou-se... embora louco- furioso. (“E desde quando mulher se rebela ao marido?” – ELE pensou.) Foi convidado para fotografar uma festa infantil em subúrbio carioca, residência de amigo do quartel. ELA, filha única, sem irmão mais velho (como a mãe dela ousara gerar somente uma criança?) – pai a levou até a gare, entregou a namorada a ELE e tomaram o trem. Pela janela, mostrou a unidade militar. Manhã agradável e normal até a hora do almoço – mulheres trocando conversas, homens discutindo esportes. Alguém comentou que a irmã do dono da casa tinha um olho de ca da cor - castanho, verde-esmeralda -, e ELA foi conferir no jardinzinho. Um rapaz a seguiu. Pelos olhos pequenos e apertadinhos (por acaso e de remota descendência portuguesa, nascera orientalizada), imaginou-a irmã do nissei que apareceu de repente e por pouco não socou o ‘ladrão-da-mulher-alheia’. Pronto! ELA “culpada” pois estava com roupa inadequada, estreante em moda de calça comprida, ainda não ajustada ao corpo, casemira escura... o que os outros poderiam pensar dela? Uma vagab... com “irmão (que na verdade não era) negociante do sexo”... Quando certas situações ficaram insustentáveis na opinião dele, chamou-a por telefone, alegou que ELA (emocionalmente muito cansada e agora começando a se rebelar) era “muito boazinha” (bobinha!), ELE “muito genioso” (irônica verdade!)... e o namoro terminou como se iniciara: à distância, não de um oceano, mas apenas de um fio. Salve, Graham Bell! Nove meses de namoro. Natal. Que presente horrível! ELA chorou e consta que ELE sofreu muito mais ainda - perdera sua obediente bonequinha de mola. Meados de 2012. Trabalhou, empregos diversos, depois faculdade de letras federal, casou, enviuvou, aposentou... nunca mais alunos. Eterna apaixonada por literatura! Arranjou uma tarefa muito interessante – conversar, divertir-se e esquematizar diálogos. Tem um amigo contista e é quase impossível para ELE ter “mil” diferentes inspirações por dia. Ofereceu colaboração. Ajudar é fácil – colocar nome feminino em salas de bate-papo (ELA não gosta de nicks fantasiosos), aceitar os internautas menos pornográficos e agressivos, dar idade jovem, ir desenvolvendo personalidade que “coincida” com hábitos, escolaridade, sonhos e desejos do “amigo virtual” que a ELA se dirigiu. Conversar muito. Depois o tal amigo real constrói e elabora o conto completo. Ih, já fez isso infinitas vezes. Descobriu, inclusive, que o quarentão é sempre um descasado para quem a amiguinha virtual de 25 anos já está... muito “velha”, pode? Assim, para ELA a idade-teto é 22. Geminiana convicta, logicamente multipolar, emprestou a todas as personagens sua própria data de nascimento, 30 de maio, dia de Santa Joana D’Arc, padroeira na devoção católica, concretizada com Obá, orixá feminino do candomblé, outra protetora. Duplamente abençoada! Achou um professor de química altamente graduado, muito mais cientista que educador, com título máximo de doutor. Conversaram várias vezes e pouco a pouco, reunindo os retalhos, ora sendo LILIANA – LAURA – RENATA, pôde fazer a biografia do quarentão. Mais um divorciado, finalmente um sem filhos. Mas, folgas de um feriado numa quinta-feira, em que já tradicionalmente se enforca a sexta, ELE comunicou viagem aérea para o Rio de Janeiro... Ultimamente, ELA “bolsista” da universidade federal, uma biblioteca por departamento, fácil que ELE a localizasse, mesmo não sabendo telefone ou endereço. Fez-se de “filha única de pai severo que detesta paulista, químico, e principalmente quarentão descasado” - não teve jeito. ELE se propôs a procurá-la no balcão de empréstimos da biblioteca. A “estudante” de português-literatura num beco sem saída. “E como EU vou saber que VOCÊ é VOCÊ? ELE, feliz, deu o primeiro nome e acrescentou: “Japonês, de óculos!” (Pior se existir uma LAURA de verdade na tal biblioteca.) Ficou tensa, mas gracejou, digitou por brincadeira umas poucas palavras básicas da língua japonesa (no passado, estudara quase dois anos do idioma) – sakura, konitiwa, banzai, sayonara, arigato, até mesmo (ofensivo?) yakuza................ Jogou com o acaso, arriscou alguns sobrenomes conhecidos, incluindo o do antigo namoradinho que ficou na metade do século XX. Esperava que ELE negasse. “Como é que VOCÊ adivinhou? Meu sobrenome é o segundo da sua lista!...” Citou o nome completíssimo do pai. Pois é! Leitor adivinhando que a estória recomeçou aqui. F I M
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Comentários dos leitores

Conto grande e detalhista, contudo é uma boa estória falando da cultura oriental, com cara de confidência, longérrimo de ficção. Só ruim o final, nada deve recomeçar.

Postado por lucia maria em 17-02-2013

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