Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio Autores & Leitores

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de ATHINGANOI >


YERMA PAULISTA



					    
RUBEMAR ALVES O pai, não sei se coitado ou culpado, pulava daqui e dali para tentar sobreviver. Infelizmente, alcoólatra. Bebia porque a vida era difícil... e a vida era difícil porque bebia. Círculo vicioso em duplo significado. Uma única filha, *YERMA. A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Não era bem um emprego, demitido sempre daqui e dali, porém arrumou este serviço e fazia faxinas no prédio de uma faculdade famosa, na escola de freiras espanholas e na igreja católica do bairro. Casado, filha já com 5 anos de idade e ELE nunca a registrara. Numa destas faxinas, ou a estante em desequilíbrio ou ELE tentou se equilibrar na estante, caiu um livro de capa verde: YERMA. À moda dele, traduziu ‘mais ou menos’ como “enferma”, YERMA, letra Y, a cabeça confusa não lhe permitiu perceber de onde o livro caíra. “Ah, quer saber? Livro seve mesmo para ca lçar pé torto de móvel.” Alguém o chamou de repente e o livro passaria a noite toda no chão. Em casa, ligou a esmo a tevê, apareceu entusiasmado grupo de teatro amador que representaria... YERMA... em excursão pelo país. Só escutou a diretora do grupo explicar: “YERMA era uma mulher que......................” “Nome bonito”, pensou. Gritou: “A menina... a nossa filha... vai se chamar YERMA.” Registrou a criança, o padre moço, estrangeiro, fez de graça o batizado e inscreveu-a num projeto que distribuía ovos de chocolate na Páscoa e brinquedos no Natal. Colecionou com carinho brinquedos miúdos de ‘casinha’ e principalmente 3 bonecas e 2 bonecos (novos, de loja!), imitação perfeita de bebezinhos rechonchudos, com mudas de roupa, e aos quais chamava “meus filhos”, o representante de Deus sugerindo nomes espanhóis: Isabel, Nina, Adela, Fernando e Pablo, e mostrava *Andaluzia, terra de muitos povos, em estampas coloridas. Explicava: “Terra do *flamenco, das touradas, de gente de sangue quente, ciganos, e mulheres em vestidos vermelhos, sempre carregando leques bordados”. Evidentemente, a menina cresceu. O pai um dia a surpreendeu de mãos dadas com um rapaz, caminhando em sorrisos felizes pela avenida São João. VICTOR, amigo de infância desde o primeiro dia na escola quando dividiu com ELA pão, queijo e algumas uvas moscatel (de uma barraca de importados finos, o pai dele auxiliar do feirante no Largo do Arouche), pobre também, que tinha sido tio-padrinho dos cinco “filhos” bonecos. Bêbado, como sempre, não acertou esbofeteá-la e atirá-la ao chão, seguro por dois homens estranhos que o imaginaram agressor gratuito. “Ó, mulher, precisamos casar esta menina com urgência!” Não demorou muito, o pai conheceu JUAN, caminhoneiro que cruzava o país todo transportando fertilizantes químicos venenosos, ganhando bom dinheiro com isto, sem pensar em nada, inclusive possíveis consequências nada agradáveis para si próprio. Recebeu um bom numerário, praticamente vendera a filha e teceu um plano audacioso com o rapaz, de modo que este não fosse recusado. O novo galã ofereceu uma carona para YERMA, após compras no supermercado, de repente simulou um enguiço qualquer em rua escura a caminho de casa, na Freguesia do Ó, parou o carrão, atacou a moça de repente, beijou- a à força e o pai os “surpreendeu” numa atitude que classificou ‘imoral’. Lágrima alguma, justificativa alguma, nem a defesa do padre confessor absolveu YERMA. Calúnia paterna, covardia materna. “Filha desonrada na minha casa não fica.” Namoro curto, ELE trazia um presentinho das suas viagens, a moça foi-se acostumando à ideia de ter um marido... e filhos, ah, cinco filhos agora de carne e osso. Casaram pela manhã, estranho horário da primeira missa às seis horas, só os pais dele e os dela, padre ocupado com a festa do Divino Espírito Santo que iria acontecer mais tarde, tradicional e famosa na paróquia do Ó. Três dias num hotelzinho do litoral norte - Ubatuba. JUAN tratou a virgem, pouco além de uma menina, com muito carinho e respeito, mas sexo é imprescindível numa união matrimonial. Mãe orientara, não se assustou. Importante para ELA, os filhos, que não se ganha em sorteio de rifa ou barraquinha de quermesse. Marido viajava, ELA sozinha a espera de um filho que não vinha nunca. Sabia cuidar da casa, sempre um vaso magro com uma rosa, símbolo da alegria da maternidade; olhava a rosa, cantarolava, e ao mesmo tempo olhava triste o cantinho onde imaginariamente via um berço. Não. Havia um menino de dois anos, machinho nasce primeiro, tentando carinho num papai nervoso-ocupado- gritão, uma doce menina aprendendo a andar e o berço com penduricalho de cegonha e o recém-nascido. Três anos e nada! Barriga sem crescer. Às escondidas, fez consulta e exames no hospital estadual. Nenhuma falha orgânica, sexo praticado regularmente, cegonhas só existem na Europa... Taí, boa fonte de distração. Lembrou-se do padre amigo, levou um bolo de fubá, café quentinho na garrafa térmica, usou o computador da sacristia, resumiu, embaralhou com certa lógica as informações, rascunhou a lápis como ao início da alfabetização com o padrinho divino (ele guardara o primeiro lápis da menina!), digitou, imprimiu numa folha azul (menino!) e numa cor de rosa (menina!), envelope verde (símbolo de natureza, esperança e fertilidade); colocaria sob o colchão do casal, como um totem de fertilidade. CEGONHA - Altura 1m, peso 3kg, habitat variado (beira d’água ou telhados), devora pequenos vertebrados. Ave migratória e monogâmica. Filhotes saem da casca na Primavera e mãe os protege da chuva com as asas - põe cerca de 3 a 5 ovos, incubação de 20 a 30 dias, as crias são indefesas e penugentas. Cegonhas procuram ambientes quentes, daí serem símbolo regional da paisagem central portuguesa. Diz-se na Europa (mito e rito de tragédia?!) que macho pune a fêmea infiel com a morte. SIMBOLISMO - Na Bíblia, ora qualificada como “pura” ora “impura”, no geral é ave de bom augúrio. Por que lenda de trazer recém-nascido? Como ave migradora, seu retorno é na Primavera, ave diurna, mas que só acasala à noite. Na Romênia, na chamada “noite das cegonhas”, começo de abril, não noite única, as jovens das aldeias moldávias em total liberdade sexual e nove meses depois os bebês são “trazidos pela cegonha”, crianças concebidas como “filhas do amor” e bem acolhidas pelas famílias. - Mais um ano inútil de tentativas. A amiga MARIA desistiu de sugerir paciência e indicou mãe-de-santo, pertinho de casa, ali na Lapa. Mesmo com 30 anos de experiência, uma espécie de névoa ácida, mal cheirosa, cobriu a imagem que seria a resposta para a não gravidez. Senhora tonteou sem traduzir a visão. Em todo caso, ensinou ‘água de obi’ (noz de cola), uma fava africana: copo virgem, cobrir a fava toda noite com água quente e beber em jejum todas as manhãs. (Função medicinal já comprovada.) Foram seis meses de expectativa , agonia e (des-)esperança. JUAN indiferente, interesse nenhum em compartilhar sua angústia. Uma noite, por acaso, ELA desconfiou. Reportagem num canal educativo. Agrotóxico e consequências possíveis. (Lembrou-se da névoa esquisita sobre o jogo de búzios.) Com ar aparentemente tranquilo, ELE confessou. Estéril, sim, e daí? Contaminação durante anos. Fez um ar cínico e debochado. Em garoto, ajudava o pai na lavoura de tomates; rapaz, caminho neiro de substâncias proibidas, mas que renderam sempre bom dinheiro: carro e casamento. Assumiu ter “comprado” YERMA a um pai alcoólatra. Riu dela, riso amargo e trêmulo, e sugeriu procurar VICTOR, ainda solteiro, eterno apaixonado, e fazer os tais filhos com o amiguinho de infância - sendo marido, registraria como pai. Esposa achou que ELE foi chorar no banheiro, mas em um minuto saiu para a rua e voltou da chuva, como se buscando o banho da fertilidade, impossível certeza de lágrimas nos olhos do macho viril que sempre dizia que a amava desde os primeiros minutos. Não, com doutor VICTOR, agora advogado, jamais! Firme em suas convicções morais e religiosas, na sua honra de mulher casada: nunca outro que não fosse o marido, enquanto este vivesse. E JUAN se garantia nessa firmeza de caráter. YERMA passou a odiar a si própria, por se reprimir e abafar o instinto de maternidade. Se de fato existe a *terceira margem do rio, só a Divina Providência deve saber. ELE foi convidado para uma corrida de canoas daí a meses, setembro, nossa Primavera, pessoalmente construiu uma de vinhático, pequena, espaço apenas para o remador (fora um sozinho e solitário antes de conhecer YERMA). Entrou no rio com os amigos concorrentes e desapareceu. Não levou anos e anos como visão fantasmagórica. Simplesmente sumiu, nunca mais visto na margem esquerda ou na margem direita. Na terceira noite, ELA em desespero de uma possível viuvez precoce (pois é, romântica leitora), VICTOR e YERMA..............Porta do quarto fechada! . Bom, sete anos depois, os cinco filhos estão ai, para quem quiser ver. --------------------------------------------------------------------------- NOTAS DO AUTOR: *YERMA - Peça de teatro do poeta espanhol FEDERICO GARCIA LORCA (1898/1936), escrita em 1934 e logo representada no palco. Obra popular de caráter trágico, em ambiente rural da Andaluzia. *ANDALUZIA - Terra onde se estabeleceram, por volta do ano 1.000 aC, colonizadores fenícios, gregos e cartagineses, mais tarde invasores vândalos e visigodos, ciganos em todas as épocas. O nome provém de Al-Andalus, como os muçulmanos chamavam a Península Ibérica no séc. VIII (ano 711 dC). Região espanhola na parte meridional do país, fazendo fronteira ao Sul com o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, costa ensolarada de 810 quilômetros. Capital - Sevilha. Incomparável gastronomia, à base de muito peixe, azeite e vinho. *FLAMENCO - A música e a dança remontam originalmente à cultura cigana e mourisca, com influência árabe e judaica: violão ou guitarra, palmas, sapateado e dança. *A TERCEIRA MARGEM DO RIO - Conto do escritor mineiro JOÃO GUIMARÃES ROSA. F I M
Copyright ATHINGANOI © 2013
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 463 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para ATHINGANOI.

Comentários dos leitores

Você VIU esta peça no Teatro Artur Azevedo, só pode ser, não negue, porque está uma super intertextualidade. Num final de domingo, ler a "sua" YERMA é marrravilhoso............... Mil parabéns!

Postado por lucia maria em 17-03-2013

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.