Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio BAC

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Apresentação de trabalho publicado

Caro leitor,

Sinta-se à vontade para ler este trabalho e deixar seus comentários.

Bons Textos!




< Visite a Página Pessoal de ATHINGANOI >


AMOR DO OUTRO MUNDO



					    
RUBEMAR ALVES Acordei cedo. Bobeira. Ficar depois zanzando pela casa ainda escura, como se EU fosse um fantasma da noite, distraído no amanhecer, esquecendo de voltar para “lá”... Afinal, que “lá” (ou lar) é esse? Ouvi de um amigo. Conheceu-a num baile de formatura. Afilhada de batismo terminando enfermagem e ELE, como padrinho, foi obrigado a participar das diferentes solenidades (catolicismo, judaísmo, colação de grau, discursos, choradeiras, homenagem póstuma, tudo...) : esta, a última, finalmente. Dançar Strauss e talvez todos terminassem a noite numa boate, amanhecer na praia com o sol. Sempre atento a detalhes, colocara no carro uma sunga escocesa (desenho chamativo), a prancha tailandesa e a camisinha chinesa. É... Tudo nesta noite, para ele, era -esa. Só faltava conhecer uma francesa... Riu. ELE um “pingüim” feliz – simplesmente adorava smoking. ELA num traje comprido, tecido fino, brilhoso, sem rendinhas, pedrinhas, um tanto diferente dos vestidos longos das outras moças. Com belas asas brancas, ELA seria (talvez?) um anjo recém caído do céu. Bonito como metáfora, mas ELE não acreditava em nada disso: morreu, morreu, e está tudo acabado! Mortos não voltam nem para dizer “boa noite”. A moça espiava por trás de uma cortina, parecia esconder-se, e ninguém se dirigia a ELA, perguntando “Como vai?” nem chamando para dançar ou algo parecido. “A princesa (psicose de –esa!) tem nome?” Ela sorriu, balbuciou ‘boa noite’. Alteou um pouco a voz: “Tinha, quero dizer, tenho – SIMONE.” Com o som alto da música, as outras pessoas pareceram não reparar no grito. Ultimamente ELE, num processo estranho, andava chegado a livros de filosofia. Existencialismo. Pouca gente sabia que tal questionamento ‘começara’ em Abraão e Isaac - incrível! -, o pai tendo que escolher entre a obediência (ordem ao divino: sacrifício de seu filho) e a transgressão (racionalismo e ética): certo da onipotência de Deus, ele escolhe a fé, saltando do ético para o religioso. “Por causa da...” - não completou. “Ela mesma. Simone de Beauvoir. Ídolo no meu país.” Deslumbrado, não notou que ELA dissera ‘meu’ – simplesmente escutara ‘no país’. “E EU me chamo JOÃO PAULO.” “Por causa do...” “Jean-Paul de Sartre? Não. Junção de meus dois tios que nasceram gêmeos e morreram juntos, ainda moços, ao final de um setembro... Eram médicos. Deram carona a um menino desconhecido, com estranha roupa vermelha, uma espécie de manto ou fantasia (testemunhas viram e prestaram depoimento), de repente o carro se iluminou todo e caiu na represa de Guarapiranga...” “Ah, conheço eles três. Quero dizer. Saiu nos jornais, li, coleção de papéis antigos, memorizei os nomes...” Conversaram muito. ELA desejara cursar medicina, depois optou por enfermagem, curso mais rápido e logicamente mais barato. “Só que faltando um mês para a formatura, tive pneumonia e...” Interrompeu-se porque em alguma igreja próxima o sino tocou meia-noite. A princesa estremeceu. “Só tenho mais uma hora!” - sentenciou. “Pais muito severos com o horário? Eles estão aqui no clube ou veio com namorado?” “Não. EU não moro mais com eles. Choram muito com saudades. Agora estou num lugar coletivo, muito grande, somos muitas almas abençoadas, ninguém lá vive sozinho, mas as regras são severas, você vai saber também, quando chegar o seu dia.” Assuntos diversos - ambos muito cultos, conversando sem se tocarem. Dela saía um perfume intraduzível, paradisíaco, suave, floral. “Tenho que voltar para o lar. Não é fácil. Lá temos permissão para sair, mas bem rapidinho. Quem atrasa na volta, só pode entrar novamente vinte e quatro horas depois, na hora exata em que saímos na véspera. Fica penando na rua, é ruim... É a Lei Divina e temos que obedecer...” “Mas não vai me dar seu endereço, o número do celular? Como posso achá- la novamente?” “Araçá.” “Sou carioca. Filho do segundo casamento de meu pai que foi trabalhar no Rio de Janeiro, após ficar viúvo bem moço ainda. Não conheço muito bem São Paulo. Tenho familiares em Vila Mariana. Vim apenas para esta formatura. Clara Maria, minha afilhada...” “A Desbotadinha (não sabia que a garota tinha tal apelido na faculdade, carinhoso, contudo, no diminutivo) é sua afilhada? Minha melhor amiga. E você é o falado padrinhão?! Este mundo é pequeno...” Teve a intenção de beijá-la. Pelo menos na testa, em respeitosa despedida. Não deu tempo. Sino ao longe deu uma única badalada. Intervalo dos músicos, estavam na varanda do clube, ELE conseguiu escutar. “Adieu, mon ami...” Num átimo de segundo, ELA simplesmente desapareceu. Magia? Mistério? Coração dele numa estranha paz. Arrumou a mala. Não comentou com irmã, cunhado, sobrinhos, ninguém. Nem se despediu. Tomou um táxi, falou uma única palavra, “Araçá!” – o motorista o deixou na porta do cemitério. F I M
Copyright ATHINGANOI © 2013
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 465 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para ATHINGANOI.

Comentários dos leitores

Sim, é um texto maravilhoso. O sobrenatural existe e convívemos com isso todo dia, sem perceber. São as "energias". Eu, acordadinha, vi um amigo na porta do meu quarto, sorrindo para mim, ele não acreditou. Parabéns!

Postado por lucia maria em 24-03-2013

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.





AJUDE-NOS a manter o bom nível deste portal!

Se você achou que este texto é ofensivo, imoral ou que fere
a nossa POLÍTICA DE USO, por favor, AVISE-NOS!




Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.