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COMO PERDER UMA SECRETÁRIA E



					    
Rubemar Alves Ouvi numa rua em LISBOA, após noitada de vinhos e fados no velho arábico bairro de ALFAMA: “Não mostres a outro o copo onde matas a tua sede!” (Inteligente filosofia lusitana. E quem disse que português é burro? Nada. Achou o Brasil, que os fenícios abandonaram, misturou sabiamente e com muito bom gosto as raças, montou botequins, usou tamancos e roupa rasgada, batizou times de futebol, enriqueceu, continua em franco progresso, igualzinho até hoje ...) Pois é. Exibi três vezes o copo... e dessa água insossa continuei sedento. “Ora, pois pois..” Tenho uma profissão séria, sou advogado, falo inglês e alemão. Acontece que todo ser humano é DR. JEKYLL e ao mesmo tempo MR. HYDE, isto é, *o médico e o monstro. Adoro literatura. Às vezes sou contista, exponho trabalhos, edito, publico através da mídia. Ora, onde o escritor busca inspiração? Na vida. Entre um processo e outro, viajo, observo pessoas, escuto as mais fantásticas confidências, memorizo acontecimentos de preferência os mais bizarros. Uma amiga me convenceu a entrar para o mundo literário do erotismo, disse que as mulheres apreciam textos eróticos leves, apenas insinuando sexo, eliminando longas descrições demasiado objetivas, quase obscenas e vulgares. Escrevi inicialmente dois contos com estes limites, ela aprovou, arrisquei um terceiro, um quarto... Só um esclarecimento e não uma aula de português – passei logo do “quarto”, ordinal, para a idéia de “quarto”, substantivo. Quartos e camas existem em todos os cantos do mundo. Não se fala de sexo sem o pensamento num par e numa cama. Eu queria especialmente cenas de cama – não sexo em pé ou no carro ou no escurinho do cinema... ANÚNCIO EM JORNAL: “Precisa-se de uma SECRETÁRIA, não necessariamente jovem e especializada, mas que aprecie filmes na televisão e saiba descrevê- los oralmente. Dispenso fotografia. Dr. ROBERTO LUÍS, advogado. Cartas para Caixa Postal.........” Choveu correspondência de todo tipo, já que o anúncio não era (nem podia ser) explícito demais. Contadas uma a uma, 321 cartas que li pulando trechos. Havia muitas cartas ofensivas, outras mulheres se ofereciam para faxineira (“tirar-todos-os-dias-o-pó-do-aparelho”), também candidatas a esposa e futura mãe, algumas fotos até de biquíni e muitas moças de fato interessadas em trabalhar. Selecionei sete, entre as de melhor linguagem e comunicação clara, para entrevista. Uma veio com uma prancheta e ao final da conversa bateu na minha cabeça; outra, já meio gaga, saiu do escritório falando mais atrapalhada ainda; ho uve uma que aproveitou a ocasião para me beijar de surpresa sensualmente e chamar de “doutor sedutor”, mas recusou o emprego, desconfiada. Fiquei com a sétima; mesmo porque, sempre achei 7 o número da “minha” sorte. Escutou atentamente as minhas teorias. Para provar eficácia e eficiência, falou tudo sobre um filme romântico norte-americano, um drama português (se inventou, não sei...), contou nos mínimos detalhes os dois mais recentes capítulos das novelas do momento. O trabalho era simples. Assistir ao máximo filmes eróticos e me reproduzir, apenas falando, o que mais a impressionasse na tela grande da televisão, e também vídeos na telinha de um notebook exclusivo para esta finalidade – meu lado MR. HYDE. Horário comercial no escritório de advocacia, ela ficaria mais ou menos perceptível a todos, atrás de um biombo japonês, de seda muito fina, quase transparente. Havia há três anos uma secretária para o serviço sério – minha representação do DR. JEKYLL. Japão? Era a entrega do primeiro copo com água. “Patrão, patrãozinho, descobri! Sites eróticos japoneses. São os melhores. Eu conto só uma ceninha e o senhor (tal a sutileza e gravidade da função que ela exercia, exigi desde o primeiro dia esse tratamento cerimonioso: senhor, senhorita – austeridade é bom, às vezes) escreve o resto.” Contava rapidamente a cena “mais apimentada”, dizia ela, que vira e anotara. Estória longa a mim não interessava, não seria plágio. Eu só queria sugestões de erotismo casual, sem compromisso sério com os textos originais. “Imagine patrãozinho que o sogro mandou o filho passear na rua com o cachorro, atraiu a nora e...” – descartei a cena violenta, embora sabendo ser ficção. Mas memorizei um detalhe picante como se fosse entre o casal jovem. Aprendeu, esperta GEMINIANA (ascendente em ESCORPIÃO) que a discreção é uma das almas do bom negócio. Adorava mistérios, enigmas, e parecia respeitar segredos. Olhava tudo atenta, olhos às vezes apertados, enxergando as imagens muito bem. Calada o tempo todo, não ria, aprendeu friamente a não se excitar (ou era discretíssima). Fez do biombo a sua segunda morada. Versátil e dupla em seu signo astrológico, passou a vestir-se o mais próximo possível de uma japonesa – ora figurinha exótica de mangá (estória em quadrinhos) ora em tradicional quimono super colorido (imitação de geisha). Olhos agora cuidadosamente maquilados em riscos pretos. Duas vezes por semana encomendava comida japonesa e comia usando hashi (palitinho). Um tanto bonequinha. Na verdade, as meninas que apareciam nos sites eróticos vestiam roupas ocidentais – calça jeans, shortinhos e blusas de alças. Nuas... na hora do sexo. Eu só poderia sugerir a primeira opção, mas preferi não dizer nada. Um dia, sem saber, entreguei o segundo copo com água. Ela comprou um notebook e me pediu sugestões para bate-papo em casa. “Patrão, patrãozinho, quero conhecer pessoas, fazer novas amizades.” Dei três indicações: Idades (escolheu de 20 a 30), Cidades (vacilou entre os estados de São Paulo e Paraná) e Virgens (virou o rosto de lado, passou de sorriso malicioso a estrondosa gargalhada). Em poucos dias, contou ter feito dezenas de contatos – uns interessantes, a maioria inúteis. “Um especialíssimo!” - olhou para o teto, suspirou, não perguntei nada. Cada vez mais oriental. Escolheu quarta-feira para tomar saquê. Comprou uma xícara de porcelana finíssima, sem asa, e passou a tomar chá no meio da tarde. De HELENA, apenas conservou o H inicial, e passou a se apresentar como HIDEKO – traduzia e explicava: “HIDEKO, filha da luz do sol – ko, terminação de nomes femininos ou bichinhos delicados, como por exemplo neko.” E miava com gestos delicadinhos... Entendia-se. Quando raramente saía do biombo, cumprimentava as pessoas com uma reverência japonesa, o corpo curvado para a frente. O escritório se transformara pouco a pouco numa espécie de “consulado”, mas felizmente a secretária HELENA HIDEKO não lidava direta com a clientela. Função apenas de assistir filmes e vídeos nipônicos, sem som algum, bastavam as imagens... discretas. A verdadeira secretária era estudante de Direito, minha aplicada aluna em curso noturno. Nome latino - VICTÓRIA. E seu lema de vida era ‘vim, vi, venci’, frase atribuída a CÉSAR, general romano. A orientalizada passou a se atrasar bastante às segundas-feiras, sempre alegando ter deitado muito tarde, em “horas extras particulares” - “Deitei às três (ou quatro) horas.” Jamais perguntei. Domingo atrapalhado em que tudo é contra nós. Janela abriu na madrugada com a ventania, chuva forte molhou toda a minha sala, liquidificador pegou fogo, geladeira enguiçou, mais nenhuma camisa clara arrumada na gaveta, grave enchente, queimei as torradas, não haveria entrega de refeição em domicílio, improvisei ovos fritos para o almoço e o jantar, exagerei no sal. Idade masculina do lobo, dizem: mais de quarenta anos. Sozinho. Sem filhos. Domingos silenciosos, nem um papagaio ou um cachorro... Mais do que tempo de casar. Namorar antes, claro, mas que fosse um namoro curto, três meses já em tempo máximo. Agenda. Até confundi antigas amigas com ex-namoradas. Uma fazendo mestrado no exterior, mãe atendeu; outra desligou ao conhecer minha voz; outra mandou a empregada me chamar de diabo (eu? um “anjinho”...); outra casara e disse estar muito feliz longe de mim... e assim reuni um festival de infinitas negativas. Pensei na nova secretária que passaria a esposa, dona do lar, dizia de si própria “excelente cozinheira” e pela lógica do momento muita coisa aprendida nos tais sites eróticos. Teríamos ambos a lucrar. Como abordar o assunto? Por mera gentileza, comprei uma rosa para cada secretária, a mais antiga disfarçou duas lágrimas, a “nova japonesa” perguntou se não havia crisântemo, símbolo do Japão. Chamei-as para almoçar fora, deixei que escolhessem o restaurante, debateram entre elas, acabamos concordando com um restaurante misto, a quilo - almoçamos em mesa a três: bandejas diferentíssimas de churrasco, batata frita, arroz, na terceira yakisoba e tempurá de camarão. EU alternava entre processos judiciários e literatura diversificada, o erotismo de repente ia se tornando monótono e repetitivo. Mas lá vem um dia em que tudo se revela. Pelo pouco tempo de trabalho, a secretária recente ainda não tinha direito a férias. Para agradar, num terceiro e ignorado copo com água, paguei passagem aérea para um feriadão em Curitiba, onde alegou ter parentes remotos, até desconhecidos, mas que a esperariam no aeroporto. Como senha, usaria camiseta vermelha com o desenho de... um samurai. Viajou, “esqueceu” de voltar. Não senti falta. Na mesa que ocupava, achei uma pasta de cartolina com o nome MITSUO, na capa. Li perfil: MITSUO, tradução “homem brilhante”. Brasileiro, 25 anos. Engenheiro agrônomo. Interesses: tecnologia avançada, garotas e erotismo oriental. Bate-papo na sala Curitiba. Li cópias impressas de e-mail. Dois meses no Japão, contratando atores e aprendendo técnicas de filmagem erótica – telefonavam-se aos domingos, às três ou quatro da tarde, no horário de Tóquio. Nestes dias, já de volta ao Brasil. Ahn! Agora devia ser apenas HIDEKO. Nem se deu ao trabalho de escrever. Chegou cartão virtual com paisagem de um templo xintoísta e uma única palavra: SAYONARA. Aí, de repente, uma outra terrível enchente, daquelas em que até os carros viram canoas ambulantes. EU e a eficientíssima secretária VICTÓRIA presos no escritório, sob a luz de velas! Impossível irmos para casa. Violento estouro lá fora, faíscas no poste, agora até a rua sem luz, breu absoluto, talvez um bendito raio tenha caído nas proximidades. Por que bendito? Com o susto e o que nos pareceu um tremor do prédio, por instinto de sobrevivência nós nos agarramos, primeiro em pé, não resisti ao exótico perfume de sândalo, aproveitei o escurinho, beijei-a, ela correspondeu totalmente, depois nos desequilibramos e tudo aconteceu muito depressa, no chão mesmo, em fúria os elementos da natureza e nós, sem estímulo artificial de filme ou vídeo. Na aula natural da vida, dispensam-se professor experimentado e aluna virgem: aprendemos juntos. Disse que me amava desde o primeiro dia de trabalho. Nessa noite, momentos de intenso carinho alternados com a súbita descoberta de uma paixão abafada, a minha. Passei simbolicamente a beber água de primeiríssima qualidade direto da jarra, quebrados os copos. Sou de ÁRIES. Esta é de ESCORPIÃO (ascendente em GÊMEOS), sensualidade máxima até no olhar. Ambos decididos e enérgicos. Signos regidos pelo apaixonado Marte. Intenso fogo sexual. Três anos de convívio profissional e em menos de vinte e quatro horas descobrimos incontáveis afinidades. Defeito comum é que ela não sabe com perfeição fritar um ovo nem alisar uma toalha seca do varal! Prefiro que se aperfeiçoe em outras coisas muito mais interessantes. ---------------------------------------------------------------------------- *THE STRANGE CASE OF DR. JEKYLL AND MR. HYDE (título em português adaptado como “O médico e o monstro”) – autor ROBERT LOUIS STEVENSON – obra científica publicada em Londres, no ano de 1885. Fenômeno das múltiplas personalidades: advogado londrino investiga sobre estranhas coincidências entre seu amigo, DR. HENRY JEKYLL, e o misantropo MR. EDWARD HYDE. F I M
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Comentários dos leitores

Perdeu uma secretária e 'quase' namorada e ganhou melhor ainda. Advogado previsível, Ariano, todo enrolão e enrolado, mas sedutor............. Casar com Geiniana, mesmo ascendente, perigo sério! P a r a b é n s!

Postado por lucia maria em 18-05-2013

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