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O CLIMA VAI ESQUENTAR



					    
RUBEMAR ALVES “QUEM ESPERA NUNCA ALCANÇA” talvez fosse frase do BARÃO DE ITARARÉ, mas a expressão “CAMA, MESA E BANHO” era antiga e ‘dela’ mesma que nos últimos meses se fixara neste pensamento. Foi ao shopping, decisiva, e pagou à vista com o cartão... função débito (huuummm...) uma colcha lilás, para bons fluidos, tamanho casal - ELA ama chenile -, um conjunto lençol- fronhas em cor-de-rosa e branco, uma toalha de mesa com fundo verde e estamparia em peixes e frutos do mar, ah, e duas toalhas de banho, sendo uma azul e uma vermelha. Engavetou - quarto, sala - fora das embalagens. Comprou também um abajur de palha, imitação perfeita de uma gaiola, com dois pássaros-lâmpada, batizou de SARTRE e SIMONE e colocou na mesinha de cabeceira. Casamento é prisão? Lera que até no zoo do Rio programaram para maio de 2013 o casório de um leão solteiro e uma leoa viúva... amiguinhos desde o final do ano anterior. Que sejam felizes! Ultimamente vivia esperançosa, feliz sem nenhum motivo especial, rindo à toa, seu “lado mulherzinha” a deixando mais calma: pé de igualdade com homem só no trabalho, engenheira-metalúrgica - tempo de congelar óvulos? Lema de que tratar os outros com respeito é viver com alegria, sem que nos incomodem. Quanto ao amor, queria alguém que fosse príncipe (ou cavalheiro estilo barroco francês, um poeta Cyrano não narigudo, quem sabe?) e ao mesmo tempo lobo mau - “orelhas grandes para melhor ver, olhos grandes para melhor ouvir”... Criou um sistema próprio de escuta dos noticiários que lhe interessavam: as diaristas que vinham para cozinhar e faxinar o apartamento dele. Não, “não era” nada mandona, embora ‘santinha’ Ariana, porém resolveu por conta própria ser auxiliar de portaria, ou seja, entregar pessoalmente a correspondência dos moradores. Falso exercício - subir e descer escada, ahn! Assim, a princípio apenas escutava o que se dizia dele e agora sabia envelopes que pudessem chegar - extratos bancários e contas mensais de telefone como todo mundo. Nada com suspeito perfume de jasmim ou... Chanel nº 5. Não, “não era” nada ciumenta, apenas cau-te-lo-sa. Um homem daqueles com cara de ímã?!... Tocou a campainha e ELE atendeu enrolado apenas numa toalha, da cintura para baixo, justificou-se, era um sábado, sozinho sem as auxiliares, saíra do chuveiro quente naquele minuto. Bom, não bastasse o dom supremo de voar, para os pássaros - mais para estes que para os seres humanos - o mundo é poeticamente mais colorido, pois além das cores primárias (amarelo, vermelho e azul), eles percebem os raios ultravioletas, inclusive as fêmeas preferem os machos com estes raios refletidos nas penas. De repente, ELA foi acometida por uma lerdeza, uma desorientação, abriu e fechou os olhos seguidamente e começou a “ver” imagens de várias cores, como num caleidoscópio de cacos variados. Lera sobre contracultura dos anos 60, o psicodelismo, clima libertário da época, sentia-se mais ou menos assim, porém a seco: nem bebida nem bolinha alguma (muito perigo!): ELE é que era atraente mesmo - tempo de descongelar óvulos? Deu-lhe de repente uma troca de sentidos - olhou-o, “viu” imaginariamente o frasco e ‘adivinhou’ o perfume de sândalo, perfume de deuses indianos. Antes, só um vago e raro “Bom dia” no elevador. Conversaram assuntos banais, ali mesmo, porta entreaberta. (“Essa toalha não vai cair, não?””) ELE não sentiu assim o mesmo entusiasmo impulsivo, porém convidou-a para o almoço. Perguntou se ELA possuía um vestido azul. Cantina italiana, toalha vermelha (ELA amou!) e branca, enxadrezada, com artesanal pintura de tomate em cada ponta. “Mezzo a mezzo”, pediram caneloni de ricota e peixe assado, alface enfeitando, que devoraram: algo em comum. Divergências - ELA, vinho tinto, pudim de gemas, ELE, água tônica, sorvete de nozes. Tagarelices úteis-inúteis. ELA, celular mudo, muito fechada como ostra. ELE, Geminiano, super comunicativo, toda hora recebia um chamado, permuta de trabalho. Publicitário. Outros comunicavam ideias repentinas, um caderninho, detalhista, anotações com nome do companheiro de criações, data e horário. Saíra em jornal - um em cada dez americanos não largam o celular, como extensão de seu próprio corpo, até na hora de fazer sexo, 9% usando o aparelho na cama com a outra pes soa ao lado, 12% teclando durante o banho, 19% nos cultos religiosos, 33% durante um jantar romântico, 35% durante filme ou peça teatral, 72% dos entrevistados nunca distante do aparelho mais de um metro. Pior - fim da privacidade: 30% das pessoas bisbilhotavam o celular alheio. “E a correspondência” - ELA pensou. Não era especialista em alma feminina e decorara tais imbecilidades matemáticas para impressionar. ELA teria preferido ouvir palavras dicionarizadas pois detestava números ditos ao acaso, só aceitava no trabalho, mas não podia confessar, ainda não muito íntimos. “O mundo de fato está se tornando mais sectário? Ah, tudo triste, tedioso, aterrorizante, economia nada florescente... Isto leva a um enclausuramento.” “Meu cérebro e meu coração reúnem muitos palimpsestos.” “A Barra é hoje a síntese de um movimento que fez do bairro a mais nova fronteira de gentrificação no Rio de Janeiro.” “É a Lei de Murphy.” Fazer sempre cara de que entendeu tudo. Ahn... Debateram sobre ira. Como procediam? Descrever este sentimento, falar sobre raiva faz bem ao coração, impacto significativo na fisiologia do organismo, a frequência cardíaca alterada para baixo. ELA odiava perguntas íntimas; ELE odiava que não lhe fizessem... perguntas íntimas. ELA curiosa de Artes Cênicas: “O fantoche é direto, é o gesto humano, é uma coisa de alma. A marionete é mecânica, mas também trágica, com cheiro de fundo de baú.” Discurso fora do contexto, sem aplausos, mas que a moça filosofou bonito, é verdade. ELE engoliu falar de futebol - recentemente jogara com uns amigos, doloridíssimo na segunda-feira. ELA, em fala pausada: não “festeira”, achava-se ‘uma mala’, uma chata, e concordava com OSCAR NIEMEYER que três pessoas já era ‘multidão’. Ainda que morando sozinha, não sentia solidão. Multidão, solidão, rimou, riram juntos. ELE, alegrinho, apreciava reuniões e festas pouco numerosas. Iam se apresentando e complementando. Polos opostos se atraem. Livros de autoajuda? Jamais. Criavam suas próprias regras. Literalmente correr atrás do sonho? Certo. Mantra do “vou lá e faço, realizo... porque só chuva (também meteoritos e aviões.. .) cai do céu gratuitamente, sem sacrifício”. A felicidade não se busca no papel impresso e também ganhar dinheiro não é tudo, ambos concordando. Vazio na alma? Necessidade de ampliar horizontes? É. Que tal juntos, a partir de agora? Ambos, em segredo, inscritos numa agência de encontros. Compareceram (não se viram) e rasgaram pessoalmente as fichas de inscrição. “Jovem senhor publicitário descomplicado a procura de alma gêmea, doceira, acima de 25 anos. Amizade ou futuro compromisso.” “Morena clara, independente, situação definida, culta, ramo de metais, procura companheiro do mesmo nível para relacionamento ou amizade.” ---------------------------------------------------------------------------- FONTE (sobre cores): Revista SUPERINTERESSANTE - SP. Ed. Abril, dez./1993. TEORIA DAS CORES - Pesquisa e conceituação realizadas por LEONARDO DA VINCI, livro só publicado 132 anos após a morte do artista. ----------------------------------------------------------------------------- NOTAS DO AUTOR: BARÃO DE ITARARÉ, piada com falso título de nobreza - APPARÍCIO FERNANDO DE BRINKERHOFF, 1895/1971. Gaúcho, jornalista, pensador e pioneiro no humorismo político do Brasil. PALIMPSESTO - Pergaminhos ou papiros usados na Idade Média cujos textos eram eliminados para permitir sua reutilização. F I M
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Comentários dos leitores

Na minha casa existe essa toalha de mesa,pintada,copiada de uma reportagem televisiva sobre as cantinas do B'i'xiga... Bom, casal desencontrado e harmônico, ela-valente-Ariana, ele-intelectual-Geminiano. Parabéns!

Postado por lucia maria em 29-07-2013

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