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A PROFESSORA DO FRANCÊS



					    
Se me contarem recordações, pronto, em minutos já estou criando o texto, escrevendo... EU não sei, não existe como constatar, ver amostra de como era há seis décadas, o rótulo comercial da época para ‘petit pois’ (pequenas bolinhas - pronúncia figurada ‘petí puás’), hoje a popular ervilha, caroços industrializados da leguminosa, que enfeitam pratos como carne moída, arroz de forno e o molho do macarrão; nestas horas, EU não abro a boca para... pedir a receita. Saboreio, até gosto muito. Rio de Janeiro ainda capital federal, escola pública antiga, ginásio laico exclusivamente feminino (ideia estranha!), aulas o dia inteiro, almoço completo para alunas e as demais pessoas. De repente, alguém chamou uma garota em tempo vago de aula e disse que fosse comprar às pressas uma lata de... atrapalhou-se... a aluna já na calçada... (Não vou discutir agora licitação ou se a despesa mínima saiu do bolso de professor exigente ou da caixa escolar.) Eram duas funcionárias para serviços gerais, cochicharam entre elas, uma pronunciou corretamente ‘peti puá’, a aluna já caminhando para o armazém da esquina. “Volta, volta!” Voltou. A segunda funcionária emendou: “Uma lata de (falou conforme talvez as letras na embalagem) ‘petite pois’, entendeu?” A aluna sorriu e em minutos voltou com a compra. A tal mulher que ‘corrigira’ a anterior e pronunciara errado era comentada na escola, entre muita gente, como “professora (particular?) DE francês”; sendo assim, como não conhecia a pronúncia correta da expressão “petit pois”??? Muitas risadas ao retorno da colega de turma, a garotada encarna mesmo, porém logo em poucos dias esta funcionária contou para uma merendeira, no refeitório, a verdade da estorieta, uma aluna escuta, outra também, espalharam a nova versão e o boato ‘cultural’, discutível como se iniciara, logo se dissolveu: “professora DO... e não DE francês”. Ahn, tudo certo agora! Sem explicar detalhes de quem-onde-como-porque, ELA conhecera um engenheiro francês recém-chegado ao Rio de Janeiro, só pronunciando ‘bem’ (ainda assim mais ou menos) “Corcovado” e “as cariocas”. Viera a trabalho, mexer com máquinas importadas não-falantes, tudo certo, mas como se comunicar dentro e fora da empresa? Além disso, precisava de cozinheira - acostumar-se com a comida brasileira. “Bistrô” era do outro lado das águas salgadas - Oceano Atlântico, também Mar Mediterrâneo e Mar da Norte (sou bom de mapas geográficos memorizados). Aqui, nem sempre botequim era satisfatório. Através de gestos (impossível que se adivinhe método e efeito após tantos anos...), ELES se “entenderam”, ELA partiu do rotineiro feijão preto com arroz, bife e batata frita para outros pratos diversificados. E passou também a ensinar palavras soltas, no mínimo apontando objetos... ou através de mímica para verbos?! Apontava aleatoriamente batata, cenoura, cebola (com o passar dos dias, ELE mesmo fez e ensinou tradicional sopa francesa de cebola com creme de leite), ovos, fogão, telefone, caderno, peças de roupa, algumas partes do corpo, ELA bem devagar pronunciava as sílabas em português, ELE fazia o mesmo em francês. Língua latinas, entendimento mais fácil. Aulas mútuas. Detalhes não revelados, mas tratavam-se com respeito, longe da r elação homem-mulher. Pegava com o porteiro a chave do mini apartamento e deixava a refeição prontinha. Dias sem vê-lo, dias com aulas. Tudo às 999 maravilhas - 1.000 é perfeição paradisíaca. Por acaso, uma sexta-feira 13 e ELA saiu da cama com o pé esquerdo descalço no chão que amanhecera frio: ainda sonolenta, espirrou 7 vezes, mau sinal. Aconteceu sem querer, mas não adianta “chorar sobre o leite (acabara de ferver) derramado”. Na rua, neblina súbita, cruzou com um gato preto, pisou-lhe a cauda, e depois o pneu do ônibus furou, completou o trajeto a pé sob repentina chuva miúda e gelada. Claro que deve ter sido um mal entendido. É, foi mesmo, esclareceu-se depois. Pelo sim pelo não, ELE a recebeu logo cedinho com um farto sorriso, fez o pagamento acertado, um pouquinho mais, ELA arrumou na bolsa e ambos se dirigiram ao fogão. Francês meteu a mão por dentro da calça (dele), tirou a mão, e apontou para a frente dela, pouco abaixo da cintura, fazendo com os dedos gesto negativo. “Um convite?!...” - pensou ofendida. A resposta dela, insta ntânea, ‘guilhotinante’, foi meter... a mão na cara dele. Foi embora para sempre. Soube depois. ELE queria saber como era em português o nome daquela peça íntima que os homens usam - cueca. O gesto negativo era “mulher não usa”. Novos tempos, novos costumes, talvez agora usem... “Vive la liberté (d’homme et de la femme)!” ou “Libertas quae será tamen” (liberdade ainda que ardia, fragmento tirado da primeira Écloga de Virgílio - lema da Inconfidência Mineira na tentativa de criar uma república mineira). ---------------------------------------------------------------------------- NOTA DO AUTOR: BISTRÕ - Nome veio da ocupação russa na França durante a II Guerra Mundial quando os soldados soviéticos gritavam em russo: “Bystro, bystro!” (rápido). Bistrô, segundo o ‘chef’ OLIVIER ANQUIER, “inicialmente descontraído, restaurante em ambiente rústico, cardápio de culinária francesa tradicional e bons vinhos regionais, preços médios, equilíbrio qualidade-preço” (seria o nosso botequim servindo refeições populares) - depois, no Brasil, melhorias ambientais e valores hoje inacessíveis; “ideal - diz ele - seria lugar do bairro, tipo pensão, com um prato do dia, almoço para quem trabalha perto”. F I M
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Comentários dos leitores

Coitado do francês esbofeteado, mas bem poderia mostrar cueca da gaveta e perguntar! Bom, o lucro foi trocarem receitas. Você sabe cozinhar? Parabéns!

Postado por lucia maria em 17-08-2013

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