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IMPOSSÍVEL PROVAR INOCÊNCIA



					    
Manhã de domingo, céu azulíssimo. Acordaram cedo, após uma “boa” noite de sono e relativo cansaço. ELE saiu em jejum, direto do banheiro para o jornaleiro, e ELA nem viu a roupa que ‘seu homem’ (típica terminologia portuguesa - lia EÇA DE QUEIRÓS, às vezes falava assim) vestira. “Meu”... sorria sozinha: mas não o comprara na rua 25 de Março, não era objeto de posse, bem ELA gostaria de colocá-lo na prateleira dos bibelôs, junto a um elefantinho arrumado sempre de costas, um gato japonês de louça da rua Vergueiro e um vasinho de barro com uma violeta meio escondidinha em folhas arredondadas. Café pronto, fez chocolate como ELE gostava e torradas com requeijão. “Está demorando... Certamente resolveu comprar pão quentinho e a padaria pode estar cheia...” Na rua, ELE sempre virava a cabeça para olhar o bumbum redondo e saliente de certas mulheres rebolativas. “- Não tem vergonha, não?” E o beliscava com unhas curtas. No princípio, tinha sido assim: ELE, de dentro do carro, já voltando para o interior paulista, “Te ligo.” E ELA, do lado de fora, “Liga agora!” Não resistiu, saiu do carro e propôs que o aceitasse como marido, ELA se fazendo de desinteressada, respondeu por e-mail apenas 3 dias depois, para ambos uma eternidade... Mulher é sempre estratégica: homem só se sente seguro após uma crise grave de insegurança. “Ah, time de futebol feminino, só de freiras, aqui, Sorocaba, mas em que campo? E por que iria sozinho sem avisar? Café apressado no botequim? Será que ELE foi à missa?” Sim, porque o padre, amigo dele de infância, os ‘encostara na parede’ oferecendo até gratuidade para minutos de casamento religioso, discreto, na sacristia. Na cabeça dela, turbulenta e sempre versátil, a estória de Abrahão, dilema de um pai ante Deus, lamentando que tinha sido considerado um exemplo para o povo judeu, seu único filho (Ismael, filho d a escrava Hagar?) ao qual dedicara ensinamentos, se tornara cristão (antes de Jesus, como?), e Deus espelhado no outro, dizendo a mesma coisa... Bem que o pai a avisara desde bem pequena: “Nunca se envolva com paulista.” ELA se envolveu, deu no que deu... Bandeirantes! Por certo foi correr atrás de alguma índia, dispensando a carioca. Desaforo! “Ih, século XXI... Índia onde?” Pensamentos difusos, confusos. “Farei hoje o pudim de doze gemas e um ovo inteiro. JOANA D’ARC falava também a língua dos anjos? Tenho alguns contos dele para corrigir com urgência. Para ÁRIES, amor à primeira vista, faculdade noturna deveria ser exclusivamente masculina, para GÊMEOS, amor é inteligência. Cinquenta anos, meio século, fundado em 1963: aniversário do MAC (Museu de Arte Contemporânea), mas em que dia?” A cabeça dela não para. Dormindo, até sonha corrigir a gramática de textos maravilhosos que ELE escreve! Relógio na parede da cozinha, indiferente a ELA, que o consultava a cada sete, cinco, três minutos. Angústia ou medo? “Será que foi sequestrado por alguma cigana louca? Ou disco-voador, ET de saia?” Começou a se assustar. Lembrou-se (ELA é toda intempestiva, atemporal e ilógica) de ter lido sobre a descoberta recente de dois esqueletos encontrados durante a restauração do cemitério de um convento dominicano - numa tumba, homem e mulher enterrados de mãos dadas: jovens, entre os séculos XV e XVI, rostos virados um para o outro, assim como Romeu e Julieta (Shakespeare, entre 1594/95 - dizia que com base num caso real ocorrido em Verona, 1303). Guardou o recorte sobre o possível funeral romântico em Cluj- Napoca. “Cemitério do Araçá... (Bairro da Consolação?) Nome de fruta pequena, flor hermafrodita. Pesquisarei à tarde, se ELE não ficar pedindo que EU sente ao lado no sofá, carinhozinho nele, guaraná gelado na hora do jogo, pratinho com queijo picado. Tomara que falte luz!” Tentou desviar o pensamento para amenidades. “Será que de fato no Rio de Janeiro irão transformar a Casa da Marquesa de Santos (Museu do Primeiro Reinado), antigo bairro imperial de São Cristóvão, em Museu da Moda ? Historiadores contra, fazendo até manifestos nas redes sociais. Conto de fadas na vida real. Ora, a estória tão bonita de uma paixão... Com tanto imóvel vazio na cidade... O único país sul-americano que teve um rei.” Passava da hora do almoço. ELE deixara o celular em casa. Começou a entrar em desespero. Por acaso passava um carro de polícia. “Ora, moça, nem ao menos sabe com que roupa seu marido saiu de casa? Ou ELE fugiu de você? (Policial de 1.90, esse é gigantão mesmo.) Só procuramos pessoas desaparecidas após vinte e quatro horas.” Deu o cartão pessoal “para alguma emergência”: doutor em Direito (mais um advogado?), astrólogo (pela dureza de personalidade, por certo um Escorpiano) e pianista (CBH toca violão) - mais um sedutor hipnotizador? Ao final da tarde, quase ao final do sol, ELE apareceu com uma estória absolutamente falsa, “...trancado no apartamento de um amigo..” - tão cretino quanto ELE, um ginasta mulherengo, solteiro invicto, metido a... (sim, a quê mesmo?)... “Impossível provar inocência! EU não acreditarei nunca. Em todo caso, política da paz: voltou são e salvo, o arranhão nas costas EU fiz no entusiasmo da... Censurado até pensar. (Em todo caso, ELA ameaçou.) Acabei de conhecer um advogado bonitão, mais alto que o Gigante Cigano da minha casa (olhou para o teto), especialista em divórcios e que adora pudim de gemas.................” Passara sob a janela do amigo, segundo andar, e este, fabulosa mira certeira, o atingiu com um limão no alto da cabeça. Ofereceu um livro de MARCEL PROUST, interessadíssimo, subiria por meio segundo... No que pegou o livro, sem explicação possível, o doido por certo o imaginou já tendo saído, trancou-o no apartamento. Como sair dali? Celular? Nem o dele nem o do inesperado “hospedeiro”. Telefone convencional, fixo de parede? Mudo, sem linha. Computador bloqueado com senha. Nem ao menos poderia ver o quantitativo de leituras de seus trabalhos publicados. Não ouviu ruído algum no andar. Todos os demais (poucos) apartamentos deveriam estar literalmente sem ninguém - calculou moradores fora no feriadão desde quinta-feira. Foi para a janela, gritou, recebeu gestos femininos de adeusinho e grito masculino de ‘bom dia’; ao mesmo tempo, não poderia sair e deixar o apartamento aberto, num prédio sem porteiro. Passeou pelos recintos. Reparou que o quarto do amigo era pintado e decorado nas melhores cores do sono, suaves, duas paredes em verde, duas azuis, teto amarelo. Amigo também Geminiano, hiper versátil... Viu na parede um quadro, rabiscos de PICASSO e uma frase de conhecido artista televisivo, recorte de jornal: “Nunca vou ganhar prêmio de nada, mas tenho a multiplicidade como característica.” - LÉO JAIME. (Descobriria dias depois: goiano, Taurino do dia de São Jorge.) Por sorte, comprara pão-queijo-presunto-manteiga-sorvete. Na geladeira do ‘amigo-inimigo’, achou um pouco de arroz cozido, um peixe cru, uma empada retangular, exatas 7 (número de mentiroso, dizem...) folhas de alface, geleia de galinha, prato com brigadeiro mole, um litrão de refrigerante. Ah, uma lata de patê exótico (caviar?) e fatias de pão preto de nome alemão - “percebeu” certa loura de Hannover, disputada por ambos tempos atrás. Assistiu ao jogo do São Paulo sem interrupção alguma. Sentiu falta, porém, da enjoaaaaada que sentava ao lado no sofá, sempre com perguntas imbecis - “Gol é sempre gol ou às vezes o bandeirinha foi despachado pela mulher, aí anula?” - e comia todo o queijo do prato dele. Nada agradável pensar na reação da invocadinha quando ELE reaparecesse, são e salvo. Bom, ELA sentia amor e ódio na mesma intensidade, embora logo se distraindo na direção de novos pensamentos; contudo, certa vez dominada pela fúria, o atacara com as unhas, em pé um de frente para o outro - ELE não reagiu pela consciência de culpa grave - “Imperdoável durante séculos!” - disse ELA, para logo em seguida, em estado de paixão, o atacar nas costas com as unhas, ambos deitados de frente um para o outro. “Impossível provar inocência! ELA não acreditará nunca.” ---------------------------------------------------------------------------- FONTES (de inspiração): HQ - Gatão de meia idade - MIGUEL PAIVA - Jornal O GLOBO, Rio, 5/5/13 - A cabeça é a ilha - ANDRÉ DAHMER, idem ibidem. F I M
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Comentários dos leitores

Erro no pudim - 11 gemas e 1 ovo. Que marido é esse que não pulou a janela, quase com risco de perder a princesa para um valente ainda mais alto?! Eu não acreditaria nesta estória! Parabéns!

Postado por lucia maria em 05-10-2013

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