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DESTINO SIM, COINCIDÊNCIA NÃO



					    
“Seu DIOGO, posso sentar do seu lado?” A cara do moleque não me era de todo estranha, mas ali em Campinas (moro em outra cidade, na mesma região paulista), EU não conhecia tanta gente assim; em todo caso, EU não iria ficar sozinho ocupando no restaurante cheio uma mesa de quatro lugares. Puxei a cadeira para ELE. “De onde VOCÊ me conhece?” Ficou muito vermelho, mas disfarçou como pôde, fingindo tossir. (EU fazia muito isso, na escola, pedindo ‘esmolinha’ na prova de matemática.) “Acho que... sei lá... de lugar nenhum, li o nome no seu crachá...” Conscientizei. EU usara a jaqueta dois dias antes por meia hora, no trabalho, cheguei em casa, joguei de lado e vestira esta manhã para viajar. Achei mais natural dividir a minha comida, servida com fartura, quase esfriando. “Sirva-se à vontade, não precisa pagar nada, meu jovem...” Parecia realmente com fome, pois apenas agradeceu com um gesto de cabeça e olhos, e praticamente se atracou com a comida – feijão marrom, arroz, carne assada, alface, metade de um ovo cozido e legumes. “Comida colorida... Que bom! Posso tomar também do ponche?” (Ponche?) Antes que EU dissesse alguma coisa, pegou copo na bandeja do garçom que passava ali no momento e se serviu do refresco, um suco de abacaxi um tanto aguado pois o gelo se derretera quase todo na jarra. Faminto e sedento. Quando conseguiu falar, disse que jogava futebol num time juvenil do Nordeste (não citou Estado nem cidade), mas teve de repente um difunço, fez cafofa num jogo importante, escutou a tribuzana da torcida. O adversário em campo debochou, partiu todo acochado para cima do outro... Resultado é estava suspenso por sete jogos. “Não entendi nada e peço para VOCÊ traduzir... Coçou a cabeça, ficou nervoso, fez muitos gestos, a duras penas ELE conseguiu explicar e EU entendi! Iniciou dizendo que dorme inteiramente nu. Pensei: “E EU também...” Gripe repentina, mas não o dispensaram de jogar, mesmo febril e com o corpo todo dolorido. Chutou fraco, sem força, numa classificação dos times, a torcida o vaiou na maior algazarra, partiu para cima do adversário, e, destemido e valente, acabou recebendo cartão vermelho na hora, desacatou todo mundo, inclusive um diretor de cada time, e foi severamente punido. Pensei de novo: “Esse é macho...” Não ficava nada bem que EU, a cinco anos de fazer cinquenta, expusesse a um jovem desconhecido todas as minhas brigas desde a mais tenra idade até recente jogo entre duas empresas metalúrgicas. Fiz o gol da vitória – os “outros” é que brigaram... “Depois fui no ruco-ruco, ai, como vou dizer? Essas lojas que compram objetos usados. Reúni umas coisas de casa, fiz um trabalho de ajudar um pedreiro... consegui um dinheirinho... e vim.” (Mas EU “conhecia” aquele rosto...) Partilhamos a sobremesa – bolo gelado, recheado com abacaxi e creme de leite. Agradeceu, falei o clássico “não-tem-de-quê”, passei no caixa, paguei, ELE abriu uma velhíssima e vergonhosa carteira, numa fração de segundo percebi uma fotografia que tentou esconder de mim, fingi não perceber, comprou dois bombons, me deu um e foi embora. Foi embora? Quem disse? Para onde? Por quanto tempo? “Seu DIOGO, posso sentar do seu lado?” Dessa vez veio todo feliz, vergonha nenhuma. Moleque esperto. (Ou sortudo?) Praticamente nos dirigimos juntos ao balcão de passagens, comprei a minha para São Paulo, ELE espiou de longe e pediu poltrona ao meu lado. Cara de sedutor (só me contou no dia seguinte), me apontou pelas costas, piscou para a moça que vendia as passagens e foi atendido prontamente. Dizer o quê? “O senhor acredita em Deus? Não tem aquele negócio de Deus escreve torto por linhas certas? Ih... Ou é certo por linhas tortas?” “Não sei, mas acho que hoje Deus não escreve mais: digita!” Rimos de chamar a atenção das outras pessoas. Tinha vindo de avião da cidade dele até Campinas, desceu desavisado e o avião seguiu para São Paulo. Conseguiu carona até o restaurante e EU o ajudara com a refeição. Disse morar com a mãe e a irmã pouco mais nova, DÉBORA. Estremeci. Falamos como dois velhos amigos, ainda que com diferença de mais de vinte anos. “E o que VOCÊ vai fazer em São Paulo, sem conhecer a cidade?” “Pois é, preciso muito visitar meu padrinho de batismo, pegar com ELE um certo endereço e fazer surpresa ao vivo a uma certa pessoa... EU acho que ELE tem este endereço...” Fiquei um tanto curioso. “E se não tiver? Endereço de quem?” Sacudiu os ombros, cara de assustado. Não entendi o lado sentimentalóide, mas ofereci o lenço. (Aquele rosto me parecia familiar. De onde?) Conversamos o tempo todo, animados. Em São Paulo, NÓS nos despedimos com um abraço e sem querer observei, no espelho de uma loja, que ELE era assim como um EU mais moço, muito mais moço. Senti um choque, uma mistura de presságio com torpor mental. Mas sou macho, Ariano, sem frescuras de contos de fadas... ELE seguiu um caminho, segui outro. Comprei um jornal que continuou dobrado na sacola plástica da loja. Só que ELE comprou também um jornal, fingia ler e me olhava por um cantinho. Bom, pode ser um jovem carente, sei lá, não me pareceu neurótico, não me assaltou. EU preferi não me abalar com aquela bobagem... Tomei o táxi de um nissei, joguei primeiro a mala (ficaria dez dias na capital, hospedado em casa de um antigo compadre e companheiro de profissão). Quando EU estava quase acomodado, só escutei aquela voz agora familiaríssima: “Seu DIOGO, meu pai, posso sentar do seu lado?” Atirou-se dentro do carro e me abraçou. “DAVI?! De onde você veio? Como me achou?” Contou a estória. NÓS nos separamos e a mãe foi para o Nordeste com as duas crianças. Durante algum tempo EU tinha o endereço deles, tinham o meu, recebiam pensão regularmente através de um banco. Até aí EU também sabia. Tudo às vezes acontece em conjunto. A mãe trabalhava fora, recebeu um ofertão de emprego em outro Estado, esperando ter uma residência fixa para me avisar. ELE era ainda criança e, mesmo agora, não sabia explicar direito... O tal emprego fazia parte de uma mutreta, politicagem atrapalhada, a mãe se assustou, desistiu e explicou que teriam que voltar para Recife. O banco faliu, até altos investidores perderam dinheiro, mais ainda pessoas de valores menores: correntistas nada importantes. Nisto, pelo ano citado, EU também troquei de emprego e de cidade. Um tio- avô negociava com cana-de-açúcar, depois álcool e cana de açúcar novamente, porém longe da capital do Estado: cuidou da educação dos dois em boas escolas. Bom, a conselho de um advogado fui depositando os valores mensais numa poupança. Perda total de contato, de parte a parte. Coloquei anúncios em jornais de grande circulação, sem resultado algum. Disse ELE que sonhou comigo, não sei. Com as mudanças, perderam uma caixa de fotografias, só ficou aquela, velha, amarelada. Entendi tudo num estalo. Minha carteira desaparecida! E uma foto pequena que sumira do porta- retratos na estante de livros... Só notei dias depois de viajarem para longe. Ficamos inteiramente apatetados, “abestados”, como DAVI melhor definiu. ELE conseguiu me reconhecer no restaurante, dúvida acabou no instante exato em que viu meu nome do crachá - não poderia daí em diante me perder de vista. Passou a me conquistar (e conseguiu plenamente), na risada com seu dialeto estranho, por não saber como EU o receberia, assim de repente. Foi fácil que EU dissesse: “Rua Caio Prado, bairro da Consolação.” FIM
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Comentários dos leitores

Como "estória", é emocionante... Pai e filho se encontrando em outra cidade. E o homem de cara não percebeu logo que era o filho? Parabéns!

Postado por lucia maria em 30-11-2013

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