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ELES, ELAS E...(talvez) "OUTRAS"...



					    
Jornal carioca, porém de farta circulação diária no país todo. “Correio afetivo - Não fique só! Homens e mulheres íntegros, responsáveis, cultos. Todos os bairros e nacionalidades. Namoro, compromisso, união. Alguém espera você.........” Em seguida, número de um celular. ELA 1 (psicóloga especializada em gente madura e idosos) arranjou um emprego extra, alternando os dias de ‘cérebros tumultuados que pagavam muito bem’ com um biscate mal remunerado, porém bastante divertido – entrevistar e cadastrar candidatos a relacionamentos amorosos. Inicialmente um apelido, nome verdadeiro só no segundo dia. Marido fingidamente surdo para o que a mulher dizia; na verdade, Ariano à frente do mundo, desinteresse enorme pelo que acontecia além do seu próprio umbigo. Entendeu, alienado, que ela agora também trabalharia numa agência de empregos, ‘contato’ – só memorizou esta palavra - entre patrão e futuro empregado, qualquer coisa assim. Bom capitalista, só pensou em “oba-dois- empregos-mais-dinheiro-entrando-quero-especialíssimo-presente-no-dia-8-de- abril”... Quando ele criava situações ridículas de egoísmo, esposa aplicava a famosa ‘moral da estória’ e repetia contar uma fábula grega, animais procedendo como seres humanos. ELA 2 (professora de literatura e português) corrigia textos de contos e crônicas que o marido – legalmente casadíssimos no civil – escrevia; na verdade, além de musa, na maioria das vezes era quem catava outras inspirações, dava as dicas e ele escrevia o texto grande, raramente meia página impressa. Às vezes alterava para melhor, acrescentava idéias, uma pesquisinha em nota no rodapé, sem a menor intenção de co-autoria. Casos familiares, lembrava estórias antigas, muitas de que apenas ouvira falar, situações em escola, imprevistos na rua, acidentes e incidentes, recortes de jornal e revista, constante ‘contato’ –ele fingia implicar, porém adorava que a mulher fizesse isto – de tagarelice com as mais variadas pessoas em ambientes diversos. Bom pensador, só imaginava que “as-doideiras- dela-geram-para-mim-excelentes-produtos-literários”. Quando ele criava situações ridículas de ciúme, como pegá-la educado pelo braço e afastá-la discreto das pessoas, ou perturbava muito, esposa ameaçava - que deixasse outra na fila de espera porque um dia poderia se encher e requerer divórcio. “Qual é mesmo o número desta lei?” ELE 1 (dono de um restaurante) em casa não fritava um único ovo, embora excelente cozinheiro, especializado em... tudo! Colecionava em papel A4 digitações de receitas que, não escondia, guardava do jeito como aprendera com uma senhora da família da mulher, tudo rigorosamente separado em sacos plásticos de arquivo e arrumados por ordem alfabética numa caixa de papelão: à frente, bebidas, em seguida, arroz, aves, biscoitos-docinhos, bolos-torta-pavês, hortaliças (etc. etc. etc.), terminando em tortas salgadas. Somente 3 livros intocáveis – receitas japonesas, outras da mãe baiana de um cantor famoso e outras da mãe mineira de um frei famoso. Cozinha paulista variada, então eram receitas difusas, não confusas, na tal coleção. Sabia de cor e ensinava, sem esconder nada. ELE 2 (metalúrgico) achava que, Ariano, era o rei e todos os vassalos deveriam lhe prestar homenagens sem esperar nada em troca. Quebrou a cara com uma esposa que possuía uma faca serrilhada capaz de cortar embutidos congelados e queijo duro como pedra – excesso de imaginação de quem trabalha em serviço pesado e escreve textos doces nas horas vagas. Dizia odiar a data 8 de abril, mas anualmente ansiava pelo bolo de aniversário, único dia do ano em que ingeria álcool, rápida golada de champanhe porque morria de medo de ser castrado, como o filósofo Abelardo que amou Heloísa... num tempo muito antigo. Abria o pacote de presente com a ansiedade da criança abrutalhada e amorosa que nunca deixara de ser. Bom, na tal agência, a recepcionista ELA 3 atendia os telefonemas e marcava dia e hora para as entrevistas. Havia uma saleta de espera, uma única entrada para homens e mulheres, logo separados discretamente por um biombo dobrável, estilo japonês, com desenhos orientais. ELA 2 apresentou- se à psicóloga e explicou a finalidade, muito simples: inspiração naquele ambiente para textos do marido e falou rapidamente sobre ele. ELA 1 achou interessante, de imediato concordou e sugeriu que a outra voltasse ao mesmo lugar de onde escutaria alguma coisa, deixaria aberta a porta da sala – era um tanto distante, não escutou quase nada porque os entrevistados eram em maioria tímidos, mais gestuais e falavam muito baixo. Como fazer? O que duas mulheres juntas ‘não’ fazem? (Na verdade, ou se amam ou se odeiam...) Arrastaram da parede o armário-estante e a curiosa se instalaria ali atrás num banquinho. Entrou um cidadão qualquer, CYRANO, alto, bom corpo, calça jeans azul claro, óculos escuros como único disfarce, foi o tempo mínimo de dizer “vi o anúncio...” e a luz faltou, em inesperado e incrível ribombar de trovões e chuva pesadíssima. Sem lanterna ou vela, claridade apenas vindo da rua, psicóloga experimentada propôs uma entrevista oral de que memorizaria tudo, deixasse o telefone em caso de dúvida na hora da digitação. O cara se apresentou como indo fazer ‘tantos’ (esqueceu da escuridão, ‘mostrou’ com os dedos) anos exatamente daqui a uma semana (era 1 de abril), solteiro, alguém lhe recomendara a agência e estava ali para arranjar uma esposa. Trabalhava numa empresa sanguessuga, muitas vezes com horas extraordinárias até mesmo sábado. Refeições fora de casa, não tinha quem cuidasse dele, quem lhe fizesse um café antes das 6 da manhã, quem passasse suas roupas, quem (falou mais alto nesse momento) principalmente corrigisse erros gramaticais em certos trabalhos literários que produzia. “Mas o senhor quer uma esposa-empregada ou uma professora?” Ele não esclareceu. Disse que era muito envergonhado e não sabia como abordar pessoalmente uma mulher. Caseiro, um ‘quase’ santo... Partindo da idéia feminina de que ‘coincidência não existe’, ELA 1 teve uma ligeira intuição, fez algumas perguntas básicas, escutou tudo, despachou o cara rapidinho, prometendo ligar para ele assim que descobrisse uma mulher adequada. A luz voltou e ELA 2 desaparecera... Em casa, ELE 2 encontrou sobre a mesa da sala a famosa faca serrilhada, mulher já dormia no quarto trancado quando ele chegou da faculdade noturna, futuro advogado, e sobre o sofá um lençol sujo, saído do grande vasilhame de roupas para lavar, nenhuma coberta neste início de outono, um velho travesseiro sem fronha e um bilhete “VIRE-SE” - julgou-se um carentinho inocente que não (não mesmo???) fizera nada errado naquela noite na hora da chuva, no centro da cidade. Bom, mulher Geminiana é binária, talvez mudasse ao acordar. Pela manhã, por acaso ela se levantara às 5 horas para o pipisório – houve café, leite, um iogurte, suco de abacaxi, uma sobra de bolo. (O narrador aqui não sabe se o tempero foi cianureto ou pesado purgante.) E beijinho na porta da rua, agora faltando seis dias para o aniversário dele. Folga da escola, celular é dádiva dos deuses, ELA 2 acertou com a nova amiga que poderia substitui-la nesse dia, ELA 1 a trabalho no consultório – recepcionista ia de segunda a sexta, atender telefone e outros serviços, não ficaria sozinha. Entrou um cidadão qualquer, SENHOR DE BERGERAC, grandalhão, distraído com um avental respingado de molho, terrível cheiro de ovo, óculos enormes totalmente verdes, talvez um disfarce. A mesma coisa. Mesma necessidade de arrumar uma nova esposa; a de casa misturava Freud com Jung, Lacan, Klein, depois falava de lobos e cordeiros e rãs e bois e onças e gatos, ou estaria ficando maluca ou o preparando para um breve divórcio. Trabalhava pesado, faculdade noturna de Nutrição e Gastronomia... e só levava ‘paulada’ (simbólica?) de uma mulher binária. Um dia flor e no outro espinha, um dia Joana-mártir, no outro dia Joana-guerreira... ELA 2 não teve ligeira intuição, teve certeza mesmo. AMBAS de 30 de maio??? Disse ‘delicados’ horrores para o cliente. Que era um degenerado, egoísta, ele e marido dela – improvisada entrevistadora – eram do mesmo signo de “carinhosos rudes”... Blá blá blá. Tentou se defender... “É que a minha mulher é Geminiana e.........” Pior que ela citou Vinícius – “.........que seja infinito enquanto dure” – e para selar a paz ofereceu a ele receita de pudim de ovos. Conhecia. Pudim de origem portuguesa, século XII. Disseram juntos, coro não ensaiado: “Onze gemas, um ovo inteiro e gotas de essência de amêndoas amargas”. A mesma sobremesa no jantar a dois, em casas diferentes, na terça- feira, dia 8. F I M
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Comentários dos leitores

Emocionada! Esse conto é a sua cara, que se faz de inocente anjo carentinho. Adoro... pudim de gemas. Parabéns!

Postado por lucia maria em 08-04-2014

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