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O MEU FAMOSO TIO



					    
Não vou explanar sobre a obra de ORÍGENES LESSA porque não sou acadêmico, bacharel ou licenciado em Letras. Mito é mito, seja qualquer for o espaço, o tempo ou a circunstância. No livro TIO PEDRO, aparece a figura “dele”, o tio muito falado que há vinte e cinco anos partira para os seringais do Acre. Assumo que não li tal livro. Pelo pouco que me contaram e EU sei, a sobrinhada pobre (carente, numa linguagem mais moderna, menos agressiva), tristinhos que cobiçavam os brinquedos dos filhos dos vizinhos, o aguardava rico e cheio de presentes... Esperavam muito desse tio, que, na chegada, era mais miserável que eles. Ah, mas EU também “tive” um tio mitológico! Sempre ouvi falar num tio ‘carioca’, nunca esclarecido se irmão de nosso pai ou de nossa mãe. “E vive no Rio de Janeiro, como?” (Já me bastava ser o primogênito e durante muito tempo querer conhecer o... primo Gênito... filho de quem?) Não me respondiam e foi para nós, longo tempo, a criação de um ser supremo e poderoso que chegaria num carrão conversível vermelho, cheio de brinquedos caros e quatro bicicletas, tudo novinho de loja. Entre resmungos e cochichos, EU ouvia a palavra ‘doutor’ e minha mãe baixava a cabeça para esconder uma lágrima. “Saudades? Doutor de quê?” Vi num filme a céu aberto, parede da igreja católica (perto das eleições todo candidato ‘ama’ a população, agrada de todo jeito), e me fascinei com a figura dos jurídicos. “Um dia serei advogado...” Tio, doutor advogado. Está explicado: estudou, leu muitos livros, deve falar inglês e alemão, usa anel de pedra vermelha e é rico. Por certo elegante, alto, forte, solteirão invicto, ainda longe de 50 anos, sedutor e hipnotizador de mulheres, sultão num harém de A a Z. “Vou me espelhar (ou espalhar?) nele.” Ouvi que residia numa casa de três andares, cheio de criados em uniforme branco. Devia beber uísque escocês e vinho italiano em copos de cristal. Por certo me hospedaria. Oportunidade para subir ao Corcovado, viajar no bondinho do Pão de Açúcar, mergulhar no infinito mar das praias cariocas. E ele me compraria muitas roupas e calçados. Talvez me matriculasse numa escola bem granfina e EU nunca mais saísse da Cidade Maravilhosa onde tudo é festa. Pensei apenas em mim. Meu defeito - Ariano que quer o monopólio, estar à frente do primeiro lugar, mas em garoto era apenas um sentimento bobo, não maldoso, somente nada familiar-social. EU queria meus privilégios, não era um garoto mau. Carta dele, não chegava nenhuma. Não havia telefone em nossa casa humilde. Nível do parecer - Quando os valores verdadeiros de uma pessoa ou de um grupo social são desprezados em favor de uma “casca” ou “máscara” instável e enganadora - quando damos mais importância à capacidade do ser humano de camuflagem, como roupa, pintura, gestos ensaiados e artificiais etc. A imagem que se faz de uma pessoa ou sonhos de visitar certa localidade. “Coisa falsa”, refletindo anseios que fogem da normalidade do realismo cotidiano, mais gostoso porque fantasista. Um dia, chegou a nossa casa um homem estranho, meu pai se assustou e minha mãe até conseguiu tapar ao mesmo tempo os olhos das duas meninas, juntas, com um pano de prato úmido. Baixo e gordo, cabeça raspada, orelhas grandes. Não se parecia em nada com nosso pai ou nossa mãe. Ora, amigo não é verdadeiro tio... Roupa inteiriça em azul- marinho, porém não um macacão de trabalho industrial - muito larga, como sendo de outra pessoa ou traje improvisado, perna da calça arregaçada, pano bastante gasto. Num fragmento de conversa, EU escutei um nome de hospital, meu irmão escutou qualquer coisa como esquizofrenia (tem relação com ‘uísque’? - seria um tio alcoólatra?)... “Como é que você conseguiu fugir e viajar até aqui?” Voz enrouquecida: “Carona de caminhão...” Sempre imaginei que advogado rico teria avião particular, como no filme. Anotei vergonhoso e atrapalhadamente as letras da palavra desconhecida para olhar depois no dicionário da escola. Minha avó chegando com algumas compras, dois pães grandes caíram ao chão e ela correu, talvez em fuga. Meu pai não permitiu que nosso tio ‘carioca’ (?) entrasse. Ele se afastou, a princípio de costas. Nível do ser - Quando procuramos e descobrimos nas pessoas, nas coisas e na vida qualidades que viraram defeitos e não levaram a progresso algum - nenhuma preocupação com aspectos passageiros secundários da nossa existência, como vaidade, beleza física, orgulho, luxo... - desprezo pelas aparências falsas, em busca da essência, isto é, do possível aprimoramento do indivíduo e da sociedade. Desilusão após encontro ou viagem. “Chato”, às vezes, mas é o realismo cotidiano, mais cruel e verdadeiro. Desilusões: amigo/namorado à distância; correspondência, telefone ou “propaganda” amorosa; ideia que se faz de um parente desconhecido ou artista ou de uma viagem etc. Há um provérbio popularíssimo: “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.” Gritei: “Tio!” Meu irmão fez coro. O homem distante olhou para trás, acenou com a mão e nunca mais o vimos... nem ouvimos falar dele. Se era o falado e famoso tio ‘carioca’, não sei até hoje. NOTAS DO AUTOR: ORÍGENES LESSA - 1903 / 1986. Paulista - jornalista, contista, novelista, romancista, ensaísta (ufa!) e publicitário. Participou ativamente em 1932 da Revolução Constitucionalista. Curso de Educação Física, instrutor de ginástica da ACM, no Rio. Autor do romance O FEIJÃO E O SONHO, 1938, adaptado para telenovela em 1976. Imortal da Academia Brasileira de Letras. MITO - Fantasia para explicar (ou tentar esclarecer, pelo menos) uma realidade: pessoas, sentimentos, fenômenos etc. Exemplo: Cupido, a flecha que fere = simbologia do amor que faz sofrer. 1-Mitificação de personagem invencível - mais fantasia, elementos agradavelmente positivos: imagem ideal, a máscara falsa - em teoria literária, nível do parecer X 2-Desmitificação da ‘estátua de barro sob a chuva torrencial’ - menos realidade, elementos desagradavelmente negativ os: verdade autêntica, o real - em teoria literária, nível do ser. Alguns mitos modernos (atualidade): na telenovela, Roque Santeiro; no esporte, Pelé, Senna; na política, Tancredo Neves, salvador da pátria, que nem chegou a ser bom ou mau Presidente; na música, Sinatra, Beatles; no cinema, três mulheres, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Ingrid Bergman......... F I M
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Comentários dos leitores

Tio que não era tio... era louco de hospício. E quatro sobrinhos sonhando com presentes... Estória triste. Parabéns!

Postado por lucia maria em 21-09-2014

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