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SAPATEIRO "DELA": UM LEPRECHAUN?



					    
Amanheceu um céu azul tranquilo, sem a menor nuvem branca. Segunda- feira, retorno a toda e qualquer atividade da casa. Entre outras coisas, ELA reuniu calçados para conserto. Sem intenção de trocadilho, riu sozinha, pois arrebentara a sandália rasteira dourada, justamente assistindo a um emocionante concerto (com a letra -c-)... de Chopin. Música suave, altamente conhecida, toca até em telenovelas - anotou o nome: “Noturno Opus 9 nº 2”. E, sentada no teatro, tanto simulou passinhos de balé que as tirinhas finas soltaram. Marido estava de excelente humor, levou-a de colo até o carro, diretos para casa. Gulosa. “Puxa, nem um sorvetinho hoje?” O melhor sapateiro do lugar era o senhor Eric, de idade indefinida, mas perto de 60 anos. Alto, louro de olhos azuis, corpo robusto, espírito ágil. Incrível! Conhecia grego e latim antiquíssimos, quase atemporais, comprovados por um doutor da USP, profundo conhecimento de Linguística comparada... Pilheriava de si próprio que, muito além da mistura contemporânea, era um puro e verdadeiro (?) celta... e tinha a idade da formação do planeta, “...origem perdida nas brumas da Antiguidade”. Todos riam imaginando vaidade de sessentão solteiro, assumidamente sozinho, e vocação para humorista de tevê. Ao lado, no assoalho antigo, rotineira garrafinha vazia desde bem cedo. Difícil distinguir entre a (possível?) verdade ou a ficção alcoólica... Não recebeu a moça com o sorriso de sempre. “Doente?” “Não... Triste, muito triste longe dos meus campos e bosques verdes, dos pubs, de Dublin...” Sapateiro deu uma aula e tanto: “Ontem, 17 de março, foi a minha data nacional! No meu país, a Irlanda, feriado para homenagear o padroeiro, São Patrício, bretão, conversor da nossa grande ilha, que teria esmagado cobras com o seu cajado. Foi missionário e bispo, e “explicou” a Santíssima Trindade utilizando um trevo de 3 folhas, até hoje planta importante na nossa cultura. Nesse dia, as pessoas se vestem de verde, ‘traje oficial’ (fitas e trevos já eram usados no século XVII), e saem pelas ruas em longa caminhada festiva: em 1996, prime iro evento anual de 3 dias, 4 dias em 2000, 5 dias em 2006. Grande consumo de cerveja e uísque irlandês.” Fez um ar nostálgico e parou de falar, disfarçadamente enxugando uma lágrima que um cisco improvisado provocara de repente... ELA costumava brincar que era bruxa wicca e ELE contestava como invenção do século XX, imitação de cultos celtas milenares. As “mágicas” da moça eram atrapalhadas, marido feliz porque nunca davam certo, mas ELE parecia um perfeito mago, tanto ‘tirava’ trevo das orelhas femininas, farta clientela, ou pagava pequeno pãozinho na padaria da esquina, sempre com moedas, a pessoa recebia o dinheiro, colocava na gavetinha da máquina registradora, freguês ia embora tranquilo, depois o dinheiro que o sapateiro entregara, sumia da gaveta misteriosamente. Valor tão baixo... Prejuízo pequeno. Deixavam ficar, querido da vizinhança toda. Assunto daqui, assunto dali, ELA perguntou se existiam de verdade os tais elementais que apareciam no cinema. Ah, ELE se indignou e ficou em pé, rosto vermelho de tão zangado: “E como é que EU não existo???” Ficou de pé, esqueceu que a garrafinha já se esvaziara, levou na direção da boca. Nova lição: “Você está falando por certo do LEPRECHAUN ou TUMME. Na mitologia folclórica da Irlanda, é um homenzinho de 30 a 50cm, sempre ocupado em trabalhar num único pé de sapato em meio às folhas de um arbusto ou sob uma folha de labaça (sim, a moça lembrou que às vezes ELE trabalhava na calçada, sentado nas raízes da amendoeira...), tido como o sapateiro das fadas e só faz um par por ano (de fato, ELE fabricava uma botinha feminina, de camurça verde, era só enfiar o pé, a parte de cima como duas orelhinhas curvas, e a presenteara num 16 de junho, dizendo que era “prenda festiva de Leopold” e ELA, deslumbrada e hipnotizada, aceitou sem entender: mais tarde, o marido ‘traduziu’). Guardião ou localizador de vários tesouros escondidos, normalmente um pote de ouro, tem na bolsa uma moeda mágica de prata que volta para a bolsa depois de pagar algo. Sempre alegre e vestido á maneira antiga, com roupa verde, barrete vermelho ou estranho chapéu de 3 pontas, avental de couro (como ELE?!), sapatos de fivela (“Céus, só reparei hoje!!!”), cachimbo na boca e na mão um pequeno, velho e gasto martelo. As pessoas malvadas devem capturar um leprechaun sem perdê-lo de vista ou ele desaparecerá no ar.” A casa dele era pequena, três cômodos apenas, sala-quarto, cozinha e banheiro; atendia fregueses por uma janela grande, dava para ver parte do interior. Mesa simples e baixa bastava para refeições e cerveja farta. Numa parede, um galo de bronze maciço, aspecto de pesadíssimo, o rabo em foice, dando impressão de energia e agressividade, imagem mostrada até em museu arqueológico - moedas antigas, estandartes militares e vasilha semelhante a uma terrina de sopa; lado oposto, na outra parede, um bicho misto de águia-coruja, novamente bronze, formas geométricas em semicírculos e triângulos. ELE possuía uma lira e costumava cantar ou recitar com sonora voz de bardo... embriagado. Certa vez adoeceu (sem sintoma concreto, médico diagnosticou ‘nostalgia aguda’) e foi obrigado a chamar um faxineiro em emergência. Ruim, pois o tal homem jurou a todos que a porta estava aberta, viu um anãozinho deitado numa cama bem pequena, talvez meio metro de comprimento, gemendo, e logo se transformou no senhor Eric, em cama bem maior. Outro bêbado visionário? Certa manhã a janela não abriu, mais outra manhã, mais outra. Arrombaram a casa. Toda vazia de móveis e objetos, somente sete trevos bem grandes, sobrenaturais, no assoalho de madeira, e palavras a carvão, em idioma desconhecido; professor traduziu como “Adorei o convívio. Agradeço. Adeus!” No ar, cheiro misto de cerveja, uísque e fortíssimo cheiro de algo “verde”. Qual planta? Ou seria o odor da saudade? NOTAS DO AUTOR: LABAÇA - Planta que serve para desintoxicação geral do organismo - cresce espontaneamente em terrenos incultos ou beiras de caminhos, invasora e de raízes profundas, podendo atingir 1m de altura, caule floral rígido e robusto, folhas com nervuras avermelhadas; interesses culinários (somente folhas), terapêuticos (folhas e raízes) e para tinturaria. Nos dias quentes, folha de labaça no sapato mantém o corpo fresco. CELTAS - Conjunto de povos tribais que se espalharam na maioria pelo Oeste da Europa, a partir do segundo milênio a. C., citados pelo historiador grego Hecateu de Mileto no século VI a. C. - mais tarde, seus territórios foram conquistados pelos romanos. Virtuoses do metal, introdutores do ferro (metalurgia), e da calça na indumentária masculina. Diversos povos celtas: bretões, gauleses, galeses, batavos, belgas, caledônios e outros. Fortes laços genéticos comprovados em 2004 entre os habitantes das áreas célticas: Irlanda, Escócia, Gales, Bretanha e Cornualha - traços menores na Península Ibérica, onde celtas e iberos se mesclaram formando o povo celtibero. A religião era pagã, politeísta animista, ritos ao ar livre, talvez com sacrifício humano. Expressão máxima religiosa era a Deusa-Mãe, ou seja, a própria natureza e os druidas (sacerdotes poderosos) tinham papel de destaque na sociedade. Entre o culto das deusas da natureza, a dos cavalos; entre a divindades masculinas, a do fabricante de cerveja e o deus do fogo. Mais tarde, com a ascensão do cristianismo, houve assimilação entre as crenças populares dos ritos antigos e os cultos de santos. Modernamente, em verdade, a wicca (obra de ocultistas do século XX) e os neodruidas (reestruturação das sociedades secretas da Grã-Bretanha a partir do século XVIII) podem ter elementos celtas, porém apenas como inspiração. JAMES JOYCE - Escritor irlandês escreveu o romance “Ulisses” que narra a peregrinação do personagem Leopold Bloom pelas ruas de Dublin num 16 de junho, até hoje repetido esse festivo Bloomsday no mundo inteiro. F I M
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Comentários dos leitores

Leio sempre sobre a cultura celta e "acho" que fui uma sacerdotisa. Hoje, bruxa Wicca, mas não adivinho nada; quando pressinto, patrãozinho briga, mas fica assustado. Boa pesquisa, estória linda! Parabéns!

Postado por lucia maria em 25-12-2014

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