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ENCRENQUEIRO ENCRENCADO



					    
Não tinha culpa da baixa instrução, órfão de pai aos sete anos, segunda década do século XX, naquela época o uniforme já era obrigatório na escola pública, não havia doações governamentais, saiu......... pois o saber ler (escrever, como se diz popularmente, era “outro departamento” mais chique), ainda que pouco entendendo, e contar, no mínimo conferir troco da ‘vendinha’ do português Joaquim /já não bastava água misturada ao leite?!/, era suficiente a nível de... povão. --- Sem sonhos altamente utópicos de prefeito, governador ou dirigir um país. --- Havia escolas profissionais, sim, desde o Império, tempo de Dom João VI, início das indústrias nacionais ainda a nível artesanal; depois, mais de um século, modernas instalações escolares percebidas como necessárias após a I GM, ainda mesmíssimo nome imperial de “artes e ofícios” (muitíssimos antes de SENAI-SENAC)... mas não alertaram a mãe, lavadeira profissional em tanque coletivo num cortiço de gente unida e amiga - centro do Rio de Janeiro, perto do Quartel General, localidade pequena, poucas ruas, nome “Portugal Pequeno”, de serenatas e cançonetas lindas. Daí, que nunca foi aprendiz de nada. Tipo bobo alegre, raciocínio curto em todas as direções, infantilizado, riso fácil. Vagabundo, não. Prestava serviços, como lavar cavalos do quartel próximo e os cães da vizinhança, gente tão pobre quanto ele (pagavam geralmente com bananas ou bolinhos de bacalhau), acompanhar senhoras ‘enfeitadas’ em compras no comércio ao redor e carregar bolsas pesadas, dessalgar e desmontar bacalhau para os bolinhos da tarde (antigos restaurantes inferiores se chamavam “casa de pasto” - geralmente almoços e jantares de comidas lusitanas pesadas)... Bom, no mínimo a troco de... moedas, mas já dava para juntar numa lata de... azeite. Rapazinho, arrumou agora um emprego de verdade - lavar o banheiro e desinfetar com álcool (usava luvas de borracha e em voz alta usava expressões vulgares sobre o que as pessoas faziam ali), varrer o espaço de uma pequena loja de materiais elétricos, dar brilho nas vitrines e despachar caixas de papelão, vazias, ao recolhedor ambulante. Não deu certo - o criançola reunia pedaços de fios, amarrava em chicote... e ‘brincava’ de bater em quem, desconhecido, passasse na calçada. Patrão francês, meninote fingia não entender o que ‘seu’ Jules falava. Acabou demitido. --- Numa caricatura gratuita de feira de diversões, boa publicidade para a clientela animada, camiseta sem mangas e falso bigode, nas duas mãos um garrafão de vinho, assemelhou-se a um português (na verdade, filho de um...) e o dono da Lavanderia Sangue de Camões imediatamente o contratou. Emprego bruto, muita força e pouco trabalho. Ajudante do motorista do caminhão. Na cabeça, trouxas de roupas sujas (toalhas de mesa, lençóis), recolhendo nos hotéis e restaurantes sem lavanderia própria, entregando trouxas de roupas limpas... Tinha onde fazer super refeições gratuitas e ainda trazia muitas sobras de boa qualidade para casa. --- Duas décadas. --- Namorou, casou, talvez sempre muito cansado, toda noite dizia “dorme, dorme...” para a mulher; levou doze anos até lhes nascer uma filha. --- Houve uma estória em família. Existe um sentimento (sentimento???) maldito chamado olho-grande, filho do despeito com a inveja, e é mais ou menos assim: “o-que-não-tenho-ou-não-faço,-não-permito-que-outrem-possua-ou-realize”. Complô de destruição! --- Ora, a moça - sobrinha do tal ‘complicadinho’ -, tivera bons ou médios empregos, ordenado além do satisfatório. Presenteava a priminha, grande diferença de idade - muitos brinquedos. Tentou iniciá-la em assistir teatro, roupa simples como toda a garotada, short, camiseta, peça infantil, a criança adorou, subiu também ao palco, atenta e cantante, ao regresso pai da menina espantado e ignorantão: “Isso é coisa de gente rica! Nunca mais...” --- De repente, foi um ti-ti-ti danado: a moça passou para Letras, demitiu-se do emprego e ficou temporariamente “a perigo”, em linguagem popular. Em todo caso, um cursinho onde dava aulas duas vezes na semana, dinheiro suficiente para pagar o ônibus, um só, entre a casa e a faculdade no centro da cidade. Fim dos presentinhos - a menina compreendeu, o tio não, acabara a mamata, ia deixar de “ser” sobrinha... “Estudava o quê???” --- Por sorte, conseguiu um biscate onde datilografava cartas comerciais e faturas, sem horário rígido, meio expediente quando tivesse aulas na faculdade, integral nas folgas da UFRJ (na parede, placona de metal para quem soubesse/quisesse ler e identificar faculdade pública). De repente, campainha no escritório e surgiu um canalha que ela conhecia há muitos anos - aos 18 anos, falsificara data de retorno em papel de licença médica no quartel, serviço militar, assinatura de um tio-avô como fiador de uma compras de roupas caras, extorquira dinheiro de ingênuos colaboradores em falsas “campanhas de saúde” - câncer, tuberculose -, conseguira se safar... Bom, o assunto era com o patrão, ela não demonstrou conhecer o pilantra; percebeu no ar uma tentativa pesada de golpe financeiro, patrão formara-se engenheiro nos States, muito dinheiro de uma herança, de tempos em tempos uma recreação em mini empresas: agora, importação e venda de sêmen e “brincos” seletivos para o gado. Pelo sim pelo não, anterior assunto comercial que ela desconhecia, o senhor recusou o trabalho do despachante... e o despachou. Despeitado, remorso + consciência de atos antigos (muita mala em fuga nas madrugadas...), ele juntou-se a um aparentado e inventaram em família que a moça contara toda as antigas falcatruas ao chefe - a discreta soube, ainda não contara e /nesta “sugestão” do próprio/ acabou fazendo um super relatório ao motorista íntimo e compadre do patrão. Encrenca até certo ponto divertida! Os puxa-saco unidos e outros bobos familiares (a faculdade invejada na pauta de comentários desde ao primeiros dias no ano anterior) ‘acreditando’ que a avó pagava faculdade... particular. Planos coletivos para ‘atrapalhar’ a universitária... Encarregaram o tio de investigar, era idiota demais para resposta certa ou errada. Nada disso! Não “convenceram” avó defensora e esbravejante severa a morar em outra casa, tudo continuou da mesma forma. --- O mundo gira, o relógio não pára. --- Heroína guerreira nem bomba A (imaginária, evidentemente) derruba. --- Meses! A guerra foi esfriando devagar, tio levou dos trapalhões frustrados total fama de ‘inútil fofoqueiro’, não soube se defender de ‘pau mandado’ e a dupla de conspiradores se desintegrou, um acusando outro e vice-versa. --- O entregador de trouxas precisou substituir um colega doente e em determinado dia foi trabalhar no centro da cidade. Ao longe, percebeu que os dois filhos gêmeos de uma cunhada a quem idolatrava, em companhia de amigos engravatados, separadamente, fingiram não vê-lo - roupa de trabalho semi rasgada, chinelo de borracha. “Bom, vai ver... não me viram!” Desculpa tão esfarrapada quanto a camiseta desbotada e suarenta que vestia. Deus e o Diabo se unem em certas horas. Sem ser caminho de entrega e recolhimento das tais trouxas de roupa, entrou por impulso em determinada rua e viu-se diante de uma (não soube definir...) “escola”? Aulas terminadas, pouco além de meio-dia, sobrinha saindo da faculdade com cinco amigas, todas portando cadernos e livros. Não estremeceu com a figura do trabalhador - ele, sim, estremeceu com a visão sêxtupla. Ela não conhecia o texto, apenas memorizara o título (filosófico?) de uma peça teatral, porém o homem e ela não eram radicais e exatos inimigos. Sorriu para o tio e o ‘desarmou’ - apresentou, “irmão da minha mãe”... e as amigas, uma a uma, apertaram a mão dele e o beijaram num lado do rosto, hábito cordial e respeitoso. Sobrinha o beijou duplamente. Descartou o pensamento feio de Judas - gostava do tio desde pequena... Reabilitação? Em casa, ele contou à mulher... e literalmente chorou. NOTA DO AUTOR: “Os inimigos não mandam flores” - peça teatral de PEDRO BLOCH - estreia no Rio de Janeiro, 1951 - incontáveis reprises de eterno sucesso. F I M
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Comentários dos leitores

Tinha mesmo que chorar. Tentar destruí-la não deu certo. Deve ter ficado bem tranquila e se saiu muito bem. Trama de má fé nunca dá certo, a encrenca voltando para eles mesmos. Parabéns!

Postado por lucia maria em 21-05-2017

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